Compartilhamento: uma opção de lucro? Como o compartilhamento é submetido à troca

Duas crianças compartilham uma bebida
Duas crianças compartilham uma bebida | Foto (detalhe): domínio público

Quando se fala de compartilhamento hoje, normalmente são abordadas formas modernas como “sharing economy” e “online sharing”, ou, às vezes, o compartilhar para fins educacionais. Só raras vezes questiona-se o que o termo realmente quer dizer. Wolfgang Sützl expõe as razões.

O que é compartilhar? A questão parece supérflua. Compartilhar é algo tão comum e cotidiano que, na maioria das vezes, não o consideramos um ato especial – como quando compartilhamos o ar ou o idioma com outras pessoas. Ele escapa ao nível de percepção e temos a impressão de que não há nada a se questionar ou investigar. O pesquisador canadense Russel Belk, que estuda o comportamento dos consumidores, constatou que a difundida suposição de que as ações são motivadas pelos interesses de quem age constitui um dos obstáculos que impedem a compreensão do compartilhamento. Esse suposição de um interesse pessoal torna fácil enxergar relacionamentos sociais e comunicação como relações de troca: um dar e receber que atende a um interesse mútuo. Mas a natureza do compartilhamento não é recíproca, mas comunitária. Onde se compartilha, não há mercado, não há valor de troca, nem lucro econômico. Por isso, segundo Belk, por muito tempo o compartilhamento não foi considerado relevante para a economia. O privilégio da troca também teve como consequência que o próprio compartilhamento fosse descrito como troca – na maioria das vezes simbólica –, o que não promoveu nosso nível de conhecimento sobre o compartilhamento.

Quando compartilhamos, compartilhamos também o nosso self

Mas o que caracteriza o compartilhamento? Ao compartilhar, criam-se relações comunitárias que não se esgotam em simples relações entre indivíduos, produzidas pelo uso comum de determinado recurso. Pois o compartilhamento transforma o “quem” da pessoa que compartilha. Ao compartilhar, a própria existência é experienciada como uma coexistência com outros. O compartilhar torna permeáveis as fronteiras da subjetividade individual. Assim, Belk fala de um extended self de quem compartilha: não importa o que se compartilhe, compartilhamos também – até mesmo sobretudo – nosso próprio ser. A troca, por outro lado, serve a uma vantagem recíproca mensurável e não gera uma experiência conjunta entre aqueles que trocam. Pelo contrário: para funcionar como mercado, a troca necessita de uma justaposição das pessoas, que, a qualquer momento, pode se transformar em oposição.

O que é compartilhado foge à contabilização 

Se, para além da existência cotidiana, compartilhamos alimentos, acomodações e informações com outras pessoas, conferimos uma forma cultural ao compartilhamento original, e a coexistência passa a incluir a copropriedade. Os bens assim compartilhados fogem à contabilização de perdas e ganhos e não podem assumir o caráter de mercadorias. Historicamente isso corresponde, por exemplo, aos terrenos conhecidos como baldios ou terras comunais, aos recursos naturais compartilhados, mas também se aplica fundamentalmente a tudo que é compartilhado. Assim, o compartilhamento estabelece um limite para a troca e para uma economia voltada ao crescimento.

O conceito de “troca impossível” de Baudrillard foi, como, antes dele, a teoria do dispêndio e da “parte maldita” de Bataille, uma tentativa de descrever esse limite. Mas ambas as teorias eram em demasia produtos do conceito de troca ainda prevalecente no marxismo e no estruturalismo para que pudessem reconhecer no fim da troca o início do compartilhamento.

Escapando ao código econômico da troca, o compartilhamento só pode ser considerado uma oportunidade perdida de crescimento, uma oportunidade perdida de negócios, uma opção de perda. Uma economia comprometida com o crescimento a qualquer preço precisa investir em modelos de negócios que dificultem o compartilhamento e introduzir a lógica da troca nas áreas em que o compartilhamento prevalece: comunicação, idioma, conhecimento, arte, intimidade.

Após a propagação das mídias digitais nos anos 1990, tentou-se, por meio da gestão de direitos digitais e da imposição de modelos de controle de direitos autorais pré-digitais, limitar o emergente compartilhamento na internet. Sem sucesso permanente. Desde o aparecimento da Web 2.0, a sharing economy e o compartilhamento através de mídias sociais são muito mais eficazes. Em vez de impedir o compartilhamento, eles o promovem e extraem dele capital. De certa forma, eles declaram que a troca impossível de Baudrillard é possível, criando plataformas de compartilhamento sujeitas ao princípio da troca. O golpe de mestre comercial da sharing economy consiste em transformar uma característica humana num robusto modelo comercial. O compartilhamento não é mais o limite da troca, mas uma fronteira, um limiar a ser sempre ultrapassado que promete novas possibilidades de crescimento.

Pseudocompartilhamento

O compartilhamento nas plataformas de redes sociais, com suas incontáveis e sofisticadas técnicas de compartilhamento de informações, também tenta transformar a coexistência inrente ao compartilhamento na justaposição ou contraposição de uma troca. Na verdade, os apelos para a participação nas redes sociais são convocações a construir relações sociais como relações de troca: relações que têm a aparência de compartilhamento, mas que efetivamente incentivam relações de concorrência. A rivalidade pela atenção sob a forma de likes, retweets e comentários leva a uma pressão correspondente e à frequentemente citada torrente de vídeos de gatinhos e fotos de casamento, por exemplo, no Facebook. Afinal, o que interessa ao administrador da plataforma não é o conteúdo, mas a dedicação do consumidor, que gera um valor acrescentado da informação independentemente do tipo ou da qualidade da informação compartilhada. A coexistência inerente ao compartilhamento se transforma num serviço afetivo ou cognitivo. Esse “pseudocompartilhamento” (Belk) não dá origem, como se poderia supor, a caricaturas isoladas e indivíduos que perseguem seus objetivos solitariamente. Antes, cristaliza-se gradualmente uma forma de “nós”, que perde todo o sentido e, com ele, qualquer reconhecimento de objetivos ou de responsabilidades. Nesse contexto, Byung-Chul Han falou de um “enxame digital”. De acordo com Jean-Luc Nancy, no final das contas o sentido é o ser compartilhado, e ele só se torna possível onde a troca acaba e o compartilhamento se inicia. Para cidadãs e cidadãos, o compartilhamento é consequentemente um pré-requisito para um discurso político que possibilite uma formação de vontade política sensata e pluralista. Sem compartilhamento, não há pluralismo, mas apenas monoculturas políticas. Por último, mas não menos importante, o compartilhamento de conhecimentos também é um pré-requisito para uma crítica da própria troca, sobretudo de sua universalização no neoliberalismo.

Sem compartilhar, não dá

A cientista política norte-americana Wendy Brown discorre sobre o que acontece no caso de essas possibilidades faltarem, por tornarem-se elas próprias objetos de troca: respeito e responsabilidade transformam-se com facilidade na pequena moeda do politicamente correto, o sentido transforma-se em ideologia fundamentalista, o ser cidadão, em capital humano.

Mas as pessoas não compartilham apenas porque não desejam ou não podem fazer trocas, mas porque são seres sociais. Isso nos é lembrado pelo fato de que tentamos ensinar as crianças a compartilhar. Sem compartilhar, nada funciona a longo prazo, nem mesmo a troca. Uma compreensão comum sobre, por exemplo, o que caracteriza uma troca, como ela ocorre, que regras valem para ela, só pode ser uma compreensão compartilhada: quem troca precisa compartilhar a percepção de sua ação, para ter sucesso na troca.

Por isso, o compartilhamento também não vai se desvanecer entre os usuários da internet, especialmente quando se leva em conta que a internet surgiu do compartilhamento de dados e das capacidades dos computadores e que o compartilhamento de arquivos nem sempre foi associado à pirataria. A rede continua oferecendo uma infraestrutura técnica que permite compartilhar de maneira ideal. Não há como impedir o compartilhamento, mas há como comercializá-lo, mesmo que com altos custos sociais. Apesar de todo o seu significado, o compartilhamento continua sendo uma atividade cotidiana nada espetacular, que pode limitar a troca, mas não substituí-la. Pois então o compartilhamento se tornaria ele próprio um objeto de troca.