Muros e muralhas Incluir e excluir

Muralha de Adriano no Reino Unido
Muralha de Adriano no Reino Unido | © Colourbox

Sem muros não teria havido qualquer cultura urbana na história da humanidade. Mas o fato de eles terem possibilitado, inicialmente, um progresso civilizatório não significa que hoje ainda sejam úteis.

Há poucos meses, a Alemanha festejou em pavilhões de festa e palanques os 25 anos de reunificação do país. No entanto, enquanto séries e reportagens televisivas lembravam a queda do Muro de Berlim, crescia entre a população o medo dos fluxos de refugiados. Na Hungria, foram erigidas barreiras nas fronteiras, que despertaram associações fatais com a Cortina de Ferro. Na Áustria, o político de direita populista Heinz-Christian Strache, ao responder se gostaria de viver em um país cercado, disse que afinal vive em uma casa cercada. Contra todos os argumentos da pesquisa historiográfica sobre migração, exigem-se com frequência novos muros, controles de fronteiras mais acirrados e ações das forças de segurança. Neste contexto, há referências recorrentes à cerca que delimita a fronteira entre o México e os EUA – conhecida como Muro da Tortilha –, ou à cerca construída com arame farpado da Otan na fronteira entre a Espanha e o Marrocos, ou às instalações de cerceamento de 759 quilômetros de extensão entre Israel e a Cisjordânia. Paira a ameaça de um retorno de muros, mais de um quarto de século depois de seu bem-sucedido desmantelamento?.

Jericó, Beida, Babilônia

Diante dessas questões, vale uma retrospectiva. Os muros existem apenas desde a construção das cidades, desde a transição gradual, ao longo de vários milhares de anos, para o sedentarismo – transição cuja diversidade foi detalhadamente apresentada há pouco por Hermann Parzinger. Os filhos de Prometeu, título de sua análise, lembra um mito especialmente famoso. Prometeu era conhecido como mediador entre deuses e humanos, um “pregador de peças” como dizem os etnólogos, um titã astuto, a quem o sábio centauro Quíron concedeu a dádiva da imortalidade. Prometeu, literalmente aquele “que pensa à frente”, ofereceu aos humanos o fogo, o cultivo da terra e o culto. E, como seu ancestral mesopotâmio Gilgamesh, o deus divindade de Uruk, ele lhes ensinou também a fundar cidades e a construir muralhas e sistemas de irrigação.

Pois sem água não havia cidade: os lendários muros de Jericó ou Beida – do oitavo milênio a.C. – presumivelmente não eram muralhas contra nômades bélicos, mas sim muros de proteção contra inundações, que ao mesmo tempo – como acontece no Nilo – eram desejadas com urgência. Terra inundada é solo fértil. Essa suposição quase se impinge ao se observar as muralhas de Beida, nas proximidades de Jericó, pois esses muros possuem escadas externas. Também a torre redonda de Jericó, escavada em 1952 e desde então frequentemente reproduzida em imagens, com mais de oito metros de altura e uma base de mais de oito metros de diâmetro, dificilmente serviu de torre de vigilância contra aquelas tribos nômades que pretensamente derrubaram os muros da cidade com suas trombetas (Josué 6, 1-25). Ela servia de fato, por um lado, como proteção contra inundações. E, por outro lado, talvez também como anúncio do início do verão, segundo argumentos recentes de arqueólogos da Universidade de Tel Aviv. A sombra de uma cimeira vizinha recai sobre a torre justamente no solstício de verão.

As muralhas de defesa mais antigas datam do sexto milênio antes de Cristo. Especialmente imponentes eram as muralhas de Uruk, erigidas no primeiro quartel do terceiro milênio: com aproximadamente 900 torres semicirculares, elas alcançavam uma extensão de quase dez quilômetros. Entre as maravilhas do mundo da Antiguidade, estavam também as muralhas da Babilônia, às quais, durante o governo de Nabucodonosor, em torno de 600 a.C., foi acrescentada uma segunda fortificação. Desde então, passaram a ser construídos com frequência muros duplos: eles separavam as funções de incluir e excluir, como se quisessem conceder forma arquitetônica à máxima de que, com inimigos, não se pode compartilhar nem mesmo fronteiras.

Somente os muros duplos é que criaram, consequentemente, “terras de ninguém”: zonas entre as fortificações que, no direito romano, eram denominadas “terra nullius”. O Muro de Berlim ainda era um muro duplo, cuja terra de ninguém entre os dois muros era conhecidamente intitulada “faixa da morte”.

A invenção das muralhas de cidades foi enaltecida – entre outros na epopeia de Gilgamesh – como uma realização e inovação significativa. Pois os atacantes tinham, normalmente, muito mais dificuldades que os defensores. Eles precisavam organizar a logística do próprio aprovisionamento através de reabastecimento e saques, enquanto a população da cidade podia tirar proveito dos seus celeiros recheados. A capacidade de suportar a fome às vezes decidia sobre a vitória ou a derrota. Além disso, o acampamento do exército dos atacantes precisava ser fortificado. No sétimo canto da Ilíada de Homero, conta-se que os gregos erigiram um muro com torres e trincheiras em torno de seus navios e tendas. Ali, eles ficaram durante dez anos, em frente à cidade inconquistável que afinal só pôde ser tomada através de uma artimanha. Antes disso, os gregos haviam discutido várias vezes se não deveriam voltar de novo para casa. Supõe-se não terem sido poucos os cercos interrompidos. E a ira dos atacantes, enfim bem-sucedidos, que se manifestou com frequência suficiente em massacres atrozes, teve sua origem também nos longos períodos de cerco.

Os primeiros muros que não serviam à defesa, mas sim à evacuação de uma cidade sitiada, foram erigidos por ordem de Temístocles e de Péricles durante a Guerra do Peloponeso: os Muros Longos ligavam a cidade de Atenas ao porto de Pireu em um trajeto de cinco quilômetros.

A história dos muros é a história de uma coevolução de estratégias de ataque e defesa. Toda vez que se tornava possível melhorar tecnicamente as armas de ataque (de catapultas a bombardas e canhões), os construtores de fortalezas respondiam com edificações mais requintadas de muros e baluartes. No ano de 1452, Leon Battista Alberti publicou seu tratado De Re Aedificatoria, no qual sugeria plantas em formato de estrela com muros fortificados em ziguezague, a fim de amainar o impacto dos projéteis.

Constantinopla, China

Já passava da hora de haver tais inovações, o que viria a ser comprovado no ano seguinte de 1453, com a tomada de Constantinopla pelos otomanos. Durante séculos, a fortificação monumental da cidade resistira a diversos cercos, alguns deles com duração de muitos anos: no lado da terra, os atacantes precisavam primeiro ultrapassar um fosso de aproximadamente 18 metros de largura e 5 a 7 metros de profundidade, ao qual se seguia, a uma distância de 12 a 15 metros, o muro anterior, de oito metros de altura. Depois de mais 15 metros, erguia-se o muro principal, com uma altura de até 15 metros. Dessa posição, os defensores podiam atirar com facilidade por cima do muro anterior contra os inimigos que avançavam. Mas contra os novos canhões do exército otomano, os muros da fortaleza não conseguiam oferecer proteção.

Em torno de dois mil anos antes da queda de Constantinopla, o Império Chinês já havia começado a transpor o princípio de sucesso das muralhas das cidades para todo o território imperial – para fins de proteção contra ataques de guerreiros nômades a cavalo. A Muralha da China foi construída ao longo de séculos, tendo algumas partes sido erigidas somente durante a Dinastia Ming (1368 até 1644). Segundo novas medições, realizadas em abril de 2012, a Muralha da China estende-se por 21.196 quilômetros; em alguns pontos, obviamente, só restam os fundamentos. As ideias mais disseminadas a respeito da Muralha da China têm como referência os trechos nas imediações de Pequim, onde os muros alcançam de seis a nove metros de altura, com dez metros de largura na base. O Império Romano também erigiu fronteiras amuralhadas; o Limes, no entanto, foi somente em parte projetado como fortificação: em vários lugares, ele simplesmente acompanhava os rios e as fronteiras naturais, servindo mais de instância de controle de mercadorias e do fluxo comercial do que de defesa contra ataques inimigos. Bem mais majestosa era, por outro lado, a Muralha de Adriano, com seus 117,5 quilômetros de extensão, localizada próxima à atual fronteira entre a Inglaterra e a Escócia no Reino Unido, com seu muro de pedra de mais de quatro metros de altura, na parte oriental, e um sistema de fossos, 320 torres, 17 castelos e 80 portões. A função da Muralha de Adriano era, de fato, coibir a entrada de tribos escocesas e irlandesas no território da província romana.

De volta ao presente. Hoje, a Muralha da China ou a Muralha de Adriano avançaram para a condição de atrações turísticas. Na Modernidade, os muros que circundam cidades praticamente desapareceram. Eles foram demolidos ou musealizados, enquanto as cidades cresceram para além de suas antigas fronteiras. Na era de guerras aéreas e dos processos econômicos de globalização, as fortificações de fronteiras – como a Linha Maginot – perderam sua importância militar. Parecem tão anacrônicas quanto a utopia de Fichte de um “Estado comercial fechado”. Mesmo a Cortina de Ferro, cujo desmantelamento depois de 1989 foi tão espetacular quanto assombrosamente fácil, citava literalmente uma instalação teatral.

“Fogo, fogo!”

Apenas como lembrança: “cortinas de ferro” foram impostas por lei, como paredes contra fogo, nos teatros e casas de ópera (na Áustria, por exemplo, depois do incêndio no Ringtheater de Viena, em 1881) para proteger o público. Em Cortina rasgada (1966), filme dirigido por Alfred Hitchcock em Berlim, o físico norte-americano Michael Armstrong (Paul Newman) e sua amante e assistente Sarah Sherman (Julie Andrews) conseguem fugir da RDA, porque o cientista grita, de repente, durante uma apresentação de balé (frente a chamas artificiais no palco), as palavras “fogo, fogo!”. A cortina se rasga; o tempo dos muros chega ao fim.

Afinal, não são somente as mídias e os fluxos de dinheiro e mercadorias, mas sobretudo os problemas compartilhados em um mundo globalizado, que fazem parecer ridículos os atuais clamores por mais cercas fronteiriças e por uma “Fortaleza Europa”.