Quadrinhos brasileiros Da marginalidade ao centro

Quadrinhos de Rafael Campos Rocha
Quadrinhos de Rafael Campos Rocha | Copyright: Rafael Campos Rocha

Festa Literária de Paraty (FLIP) dá continuidade à tradição de abrir espaço para os quadrinhos, inclusive com mesa de discussão sobre este gênero cujas sutilezas costumam se transformar, no Brasil, em arena de debate político.

Há cinco anos, quando Paulo Werneck era editor da Ilustríssima, caderno cultural do jornal Folha de São Paulo, encomendou um quadrinho sobre a Flip a Rafa Campos, que tratou de ironizar a festa, ao dizer que seus principais objetivos eram, entre outros, a) tratar autores conhecidos somente por acadêmicos como estrelas do rock e b) rebaixar grandes artistas dos quadrinhos (uma referência a Robert Crumb, um dos destaques da festa naquele ano) ao nível da literatura. No ano seguinte, o quadrinista representou sua personagem mais conhecida, no caso Deus, desconsolada nas ruas de Paraty ao ver “toda aquela cultura, todo aquele amor à arte”, e se perguntando onde foi que errou.

Na próxima edição da Flip, que acontece neste mês de julho, Werneck assina a curadoria do evento pelo segundo ano consecutivo, e justamente Rafa Campos dividirá uma mesa sobre quadrinhos com o chargista francês Piantu e o quadrinista sírio-francês Riad Sattouf. A própria presença de Rafa Campos no palco do evento funciona como uma das pistas para entender o mote da mesa: “No século 21, os quadrinhos deixaram a posição marginal que ocupavam na cultura para chegar ao centro do debate político”, dizem os divulgadores do evento. Campos não vê o menor problema em participar da Flip depois de suas ironias, e explica a situação com outra ironia: “Sempre fui um artista a favor da instituição. Quer dizer, sou a favor das instituições que me favorecem e contra as que me ignoram”.

Quadrinho na margem

Por outro lado, o quadrinista, que assina tirinhas também para a revista Vice e publicou sua primeira graphic novel pela Companhia das Letras, Deus, essa gostosa, confessa certo desconforto em relação à suposta posição central dos quadrinhos na cultura: “Um dos motivos pelos quais faço quadrinhos é a posição marginal do gênero com relação às outras artes. Nas marginais, você pode andar com mais velocidade, extraviar veículos e deturpar mensagens, justamente por estar mais longe do centro irradiador de regras”.

Érico Assis, jornalista e crítico de quadrinhos, chama atenção para o fato de essa posição marginal dos quadrinhos em relação a outras formas de expressão – como a música e a literatura – ter sido construída também em cima de preconceitos. “As charges e os quadrinhos foram impulsionados com a expansão da imprensa e eram vistos como informação para pouco letrados. Essa ideia, mais adiante, passou para as revistas. Hoje, mesmo nos países em que todas as faixas etárias leem histórias em quadrinhos, como França, Bélgica e Japão, ainda se tem esse ranço de que é uma leitura menos ‘cerebral’ que a prosa”.

Flip e os quadrinhos

Paulo Werneck, apontado como um curador que deu um aspecto mais bem humorado à programação da Flip, espera que neste ano Rafa Campos faça mais cartuns sobre a festa, pois considera “saudável o nosso meio literário ter autoironia, rir de si mesmo”, e pergunta: “Cartum é para criticar, certo? Se fosse para adular, qual seria a graça?”

E o espaço que os quadrinhos ocupam na Flip, na verdade, não é de hoje. Desde a primeira edição da festa, em 2003, os quadrinistas estão presentes no evento – depois de Millôr Fernandes, que participou na primeira edição e foi homenageado na mais recente, também Laerte, Angeli, Gilbert Schelton e o já mencionado Crumb passaram por Paraty. Para Werneck, a presença dos quadrinistas se dá principalmente por duas razões. “Por um lado, embora seja uma festa literária, a Flip sempre foi mais aberta mesmo. Por outro, os quadrinhos se legitimaram artisticamente, o que um cara como Rafa Campos talvez ache péssimo, pois a arte pode ser uma coisa muito chata”.

E realmente acha. Para Campos, afinal, toda grande arte deve ser marginal em relação à cultura dominante. E ele provoca: “Quanto mais respeitados formos, pior será nossa obra. De qualquer forma, se os quadrinhos não tivessem piorado tanto nos últimos 100 anos, nunca estariam em um evento como a Flip. Deve ser uma forma de expressão moribunda, como a literatura mesmo”.

Quadrinhos e política

Érico Assis lembra também que a mesa da Flip faz referência direta aos debates em torno do Charlie Hebdo, já que um dos convidados internacionais, Sattouf, é colaborador assíduo da publicação francesa alvo de um ataque em 2015. “Não acho que o atentado tem a ver com ‘os quadrinhos’ em geral. O que aconteceu foi relacionado a uma revista específica, que publica quadrinhos, charges e outras coisas. Mas a repercussão que o atentado gerou, trazendo o quadrinho para o centro do debate, é inegável”.

E no Brasil, segundo Paulo Werneck, os quadrinhos mais fortes também surgem do confronto político. “Angeli, Laerte e Glauco se tornaram grandes praticando formas curtas, como a tira e o cartum, meios que ainda esquentam o debate político. Laerte é uma figura da nova política brasileira e transformou sua fina arte em arena política”, defende. E se Deus, por sua vez, vem sendo objeto de uma série de batalhas políticas, e não só na política brasileira, também a personagem de Rafa Campos, que é independente, irreverente, negra e bissexual, talvez seja “um recado dos quadrinhos – como quer Werneck – à sociedade laica”.