PERFIL Os documentarismos intrincados de Hito Steyerl

Hito Steyerl, 13th Istanbul Biennial, „Is the Museum a Battlefield“
© Hito Steyerl, 2013

A artista Hito Steyerl publica ensaios e tratados, trabalha com material documental e faz palestras. Suas obras têm orientação política e viés rebelde.
 

Em sua publicação Die Farbe der Wahrheit (A cor da verdade), de 2008, Hito Steyerl declarou a dúvida como marca do documental. A autenticidade das imagens, como em gravações tremidas de smartphones em regiões em crise ou em imagens cheias de ruídos registradas por câmeras de drones, tem pouco a ver com clareza e conhecimento. Para Steyerl, a nova documentação caracteriza-se acima de tudo pela falta de nitidez. Uma estratégia artística, se quiser continuar tendo ambições documentais, não deve eliminar a dúvida, mas sim exibi-la, argumenta. Isso é o que fazem os próprios trabalhos de Steyerl, em sua maioria calcados em filmes.

A arte como campo de batalha

A obra Is the Museum a Battlefield? (O museu é um campo de batalha?), apresentado pela primeira vez na 13ª Bienal de Istambul, é uma palestra na qual está integrado um trabalho em vídeo de Steyerl. Aqui, a artista tenta rastrear o percurso de mísseis de combate. Esse caminho, com frequência, conduz involuntariamente à esfera da arte, pois os principais patrocinadores de grandes exposições e museus são, como explicita Steyerl, muitas vezes produtores de tecnologia de armamentos e softwares de vigilância. O cerne do trabalho da artista revela-se em sua forma de expressão característica: a partir de material documental, ela deduz teses abstratas e chega a conclusões quase fictícias. Desta forma, ela reproduz a trajetória de mísseis Hellfire – produzidos pela empresa Lockheed Martin e lançados em 1998 sobre combatentes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no leste da Turquia – até seu encontro com uma nuvem de dados, quando se rematerializam em forma de “arquitetura célebre”: precisamente como sede da Lockheed Martin em Berlim. Da perspectiva aérea, o edifício projetado por Frank Gehry remete à forma incisiva da ponta de um míssil. O modelo de palestra científica e pesquisa documental alia-se à liberdade de um jogo de pensamento associativo, a fim de atingir o âmago de regiões em crise política e de imagens.  
 

Steyerl torna visíveis as linhas de conexão entre a arte e a política – que estão constantemente interligadas por meio das condições tecnológicas. A videoarte dos anos 1970, por exemplo, ganhou sua liberdade estética em função de uma mídia que possibilitou ao mesmo tempo uma ampla vigilância e o controle da sociedade. Uma relação ambivalente semelhante existe hoje na geração e transferência rápida de dados através dos smartphones. Se por um lado elas facilitam a documentação de acontecimentos privados e públicos, por outro são a chave de mecanismos mais intensos de controle, que podem inclusive impedir completamente o ato da documentação ao desativar à distância microfones e câmeras dos dispositivos, ou ao posicionar os mesmos como instrumentos de grampeamento contra seus usuários. Sendo assim, as “imagens pobres”, como Steyerl designa a maioria da produção digital de imagens de baixa resolução, implicam invariavelmente tanto um potencial subversivo quanto uma afinidade com a cooptação e o controle políticos.

Irritação: ensaísmo

Steyerl contrapõe a isso uma abstração do documental que se esquiva de caminhos fáceis de interpretação. Seus trabalhos são arranjos experimentais inspirados na teoria visual, ensaios, às vezes em forma fílmica, às vezes escritos. Em seus textos, a artista experimenta peculiarmente teses arriscadas que desafiam as formas arraigadas do discurso científico, ambicionando, contudo, serem ao mesmo tempo reconhecidas por ele. Seus ensaios permitem-se, além disso, um estilo livre, associativo e quase poético, muito longe da linguagem padronizada da ciência.

Factory of the Sun (Fábrica do Sol) é o nome do trabalho em vídeo que Steyerl produziu em 2015 para o Pavilhão Alemão da Bienal de Veneza. A obra gravita em torno do fenômeno motion capture, tal como utilizado na indústria do cinema e dos games. Esse fenômeno é usado pela artista como metáfora genérica de uma sociedade capaz de documentar todo e qualquer movimento e que depois entrega a todas essas documentações, às imagens avatares, a prerrogativa de agir em seu nome. Ou seja, a responsabilidade política pode ser, desta forma, entregue às mãos de uma tecnologia altamente desenvolvida. Steyerl, ao contrário, assume essa responsabilidade no museu, ou melhor, em um dos espaços dedicados à arte mais conceituados da Europa: a Bienal de Veneza. O fato de que aqui não apenas podem acontecer embates econômicos há muito difusos, é uma de suas teses audaciosas. E também o início lógico de uma resistência em imagens.