MÚSICA E FUGA A MÚSICA COMO OPORTUNIDADE DE INTERCÂMBIO

A música gera a pátria, um evento da Filarmônica da Baviera
A música gera a pátria, um evento da Filarmônica da Baviera | Foto (detalhe): © Monica Garduño Soto

Correntes migratórias constituem um desafio. Pois junto com cada pessoa, migram também culturas, idiomas e costumes que não são compreendidos em outros lugares. A música, como fenômeno não verbal e ligado a sentimentos intensos, pode se tornar um meio para superar a perplexidade.

A música em si já é um enigma para a ciência. Enquanto, por um lado, não existe uma gramática universal capaz de explicar de maneira genericamente válida a linguagem da música para além de suas formas de expressão aprendidas individualmente, mediadas e apreendidas em diversos processos de socialização, por outro lado, os parâmetros musicais como ritmo, timbre e melodia parecem estar presentes no programa genético do Homo sapiens como uma necessidade, um fundamento da capacidade de expressão.

Mesmo que ainda hoje alguns gêneros musicais sejam considerados regionais e que convenções, rituais, sistemas de regras e ideias de som diferenciem os estilos musicais entre si, a música sempre foi um meio de migração e de intercâmbio, muito mais aberta do que os idiomas, que, mesmo depois e apesar da integração de influências estrangeiras, continuam reconhecíveis em sua unidade demarcada. Isso resulta em desdobramentos contraditórios e às vezes antagônicos.

Por exemplo, na indústria da música ocidental de hoje, a partir de todo tipo de influências “étnicas”, surgiu uma música polimorfa e comercializável, a “world music”. Além disso, a música erudita surgida na Europa Ocidental goza hoje de apelo internacional, tendo se tornado um fenômeno global relevante além de suas fronteiras originais. Também há o jazz, ao qual muitas vezes se atribui a pretensão de música séria e que é composto dos mais diversos estilos e cuja origem não está ligada a uma região, mas parece surgir dos avanços das migrações e da própria globalização.

A DIVERSIDADE DE ATITUDES

É razoável supor que a música possa contribuir de maneira construtiva para a solução de problemas sociais e políticos atuais da Europa Ocidental, agravados pela crise dos refugiados. Mas a situação não é tão inequívoca assim. Em geral, os refugiados deixam seus países impelidos por situações de emergência. Eles não vêm até nós com o objetivo primário de aprender algo novo, mas para viver em segurança e desenvolver uma nova perspectiva de vida. Se não ficarem apenas esperando que a situação em seus países de origem melhore e tiverem a intenção de se integrar, normalmente suas prioridades são o aprendizado do idioma e uma formação voltada à vida profissional. Nesse contexto, talvez a música represente mais um meio de regressão social, algo que cultive sentimentos e rituais que se trouxe junto consigo e para os quais se pode contudo convidar pessoas do novo ambiente.

A situação é outra quando os imigrantes são músicos profissionais. Eles estarão à procura de publicidade e intercâmbio e provavelmente de pessoas com quem possam fazer, lembrar ou reinventar música. Músicos imigrantes trazem algo consigo e, quer queiram quer não, expõem esse algo a novas influências no estrangeiro. No entanto, nem todos vão se empenhar em absorver as influências musicais do novo ambiente; entre os polos extremos do cultivo regressivo de tradições e da abertura para o aprendizado, todas as nuances são possíveis. E há ainda o grande número de pessoas que querem apenas ouvir música. E ainda aquelas que não se interessam nem um pouco por música e que portanto não podem ser alcançadas por ofertas integrativas com base na música.

UMA QUESTÃO DE DIREÇÃO

Esta breve visão panorâmica do tema mostra o quão variado é o ponto de partida da música, quando entra em contato com outras culturas. Há pouca lógica em querer forçar refugiados ou imigrantes a algo que não faça sentido individualmente para as pessoas. O importante é que surja uma variedade de ofertas dentro desse campo de ação, a partir das quais se possam desenvolver experiências.

Também é absurda a ideia de que possa haver uma prática social feita com e a partir da música e exclusivamente desenhada para atender às necessidades dos refugiados. A priori, a música não inclui nem exclui. Basicamente todas as pessoas que trabalham com música não estão dispostas a tolerar diferenças ou papéis preconcebidos. A princípio, todo ouvinte pode se transformar em músico que participa, todo músico, em compositor, em fundador de orquestras, em líder de bandas. Todo o resto é resolvido durante a prática musical, que gera novas experiências.

Não há nada a objetar contra uma prática social musical para grupos de imigrantes. Nada contra encontros noturnos de refugiados a fim de fazer música. Nada contra juntar músicos experientes em grupos sérios e contínuos. No cotidiano, talvez tudo seja um pouco mais fácil, pois os músicos de todos os lugares se ocupam sempre das mesmas questões: o que vai ser tocado? Onde vai ser tocado e com quem? Há remuneração, talvez até reembolso de despesas? Quem vai pagar e como? Onde e como podemos ensaiar sem ser incomodados? Como achar outros músicos? O que é possível, ou não, fazer em conjunto? Como alcançar e ampliar o seu público?

A PRÁTICA MOSTRA O CAMINHO

Já há uma série de abordagens e iniciativas assaz produtivas na Alemanha. Um exemplo é a Academia de Música Oriental fundada em 2008, em Mannheim, que combina o trabalho sociocultural comunitário com uma oferta diferenciada de formação em música e dança e eventos próprios. Com o projeto “Caravan of Music and Poetry” (“Caravana de Música e Poesia”), a Academia criou um fórum para artistas “encalhados”, fornecendo-lhes espaço para seu trabalho e rede de contatos e, ao mesmo tempo, visando oferecer acesso à situação de vida dos refugiados. Já em Bremen, o contrabaixista sírio Raed Jazbeh travou diversos contatos com outros músicos de orquestra refugiados na Europa Ocidental e, com eles, fundou a Syrian Expat Orchestra (Orquestra Síria de Expatriados.

Com o projeto conhecido como “Musik schafft Heimat” (“A música gera a pátria”), a Filarmônica da Baviera criou, na rede dispersa de diversas iniciativas na Baviera, um centro coordenador. Ali devem ser geradas experiências-chave de integração a partir da música, em que os refugiados partilhem com a população local tanto a posição de ouvintes quanto a de músicos.

Nesses projetos, problemas são identificados e, às vezes, resolvidos. Isso gera intercâmbio, discussões, contatos, e iniciativas como essa servem para atrair ideias de apoio, patrocínios e publicidade. Elas criam uma nova solidariedade e público para a música. A música assim funciona como sistema artístico, social e até mesmo profissional. Em toda parte. E pode influenciar também a vida dos refugiados. Para isso, a música precisa de todo apoio sério.