Entrevista com Andreas Wilcke “A gentrificação não é uma lei da natureza”

What makes a city a good place to live?
Foto (detalhe): © Andreas Wilcke

O documentarista Andreas Wilcke observou o boom do mercado imobiliário de Berlim entre 2011 e 2015. Em “Die Stadt als Beute” (A cidade como presa), o diretor mostra os efeitos negativos da especulação sobre o espaço urbano e revela a principal culpa dessa miséria.

Em uma das primeiras cenas de seu filme, o espectador vê o ex-prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, em campanha eleitoral. Wowereit alerta para o perigo de querer manter a cidade como modelo de uma metrópole mórbida, porém charmosa. O que ele quer dizer com isso?
 
Ele está se referindo aqui a uma imagem muito específica que está até hoje atrelada à cidade: a de uma metrópole pobre, mas hip. Wowereit promoveu ele próprio essa imagem ao declarar em uma entrevista, no ano de 2003, que Berlim seria “pobre, mas sexy”. Essa cena é de 2011, durante um passeio de barco pelo bairro Köpenick no lado leste da cidade – passando por uma série de terrenos baldios. No lugar de cultuar a nostalgia, sugere Wowereit, seria preciso botar a mão na massa e investir, pois só assim Berlim teria uma chance.
 
Isso soa compreensível.
 
É claro que faz sentido investir no desenvolvimento urbano. E a nostalgia nunca é boa quando ela freia desenvolvimentos importantes e significativos. Infelizmente, esse desenvolvimento não parece estar funcionando muito bem em Berlim. A cidade muda, e ainda por cima em ritmo acelerado, mas o preço da transformação é alto demais.

Por quê?
 
A diversidade, a curiosidade por outras pessoas, a coexistência social – tudo isso que faz a cidade ser o que ela é está ameaçado de ficar para trás. Observo há dez anos no meu próprio bairro, Friedrichshain, como o comércio varejista vai morrendo, como as pessoas de baixa renda vão tendo que se mudar para outros lugares, porque não podem mais arcar com os aluguéis. Há algum tempo um amigo de fora do país me visitou. Depois de um passeio pelo bairro, ele ficou muito chocado que não havia mais praticamente gente idosa pelas ruas.

Em seu filme, você procura a causa disso e identifica o culpado: o mercado imobiliário berlinense, em franca expansão.

Sim, embora para mim tenha sido muito importante evitar a lógica clássica algoz versus vítima – mesmo que o título Die Stadt als Beute (A cidade como presa) talvez sugira isso. Eu não quis mostrar os corretores de imóveis (que aparecem no filme e chegam naturalmente a dizer coisas horripilantes) como feras ávidas, que assaltam os inquilinos e os expulsam de suas casas. Isso era para mim muito superficial em termos de análise. O problema real em Berlim não é o mercado imobiliário em si, mas o fato de que a classe política dormiu no ponto e perdeu a oportunidade de regulá-lo. Os corretores não são malévolos em si, eles apenas agem dentro de sua lógica própria. Eles têm também uma ideia extremamente unidimensional do que torna uma cidade habitável. E seria péssimo se essa visão se disseminasse ainda mais.

Que tipo de visão é essa?
 
Do ponto de vista de muitos corretores de imóveis, uma cidade deve ser bela e cara no centro e rumo à periferia cada vez mais barata e feia. Muito disseminada é também a ideia de que nos antigos “bairros hype” da cidade, como Kreuzberg ou Mitte, os estudantes se transformam quase que automaticamente em cidadãos com bons salários, dispostos a pagar um aluguel mais alto por um bairro belamente revitalizado. Quem não pode mais pagar tem então que mudar para o próximo bairro. Esse efeito de deslocamento, também chamado de gentrificação, é visto como inerente ao sistema.
 
E não é?
 
Não, a gentrificação não é uma lei da natureza. Berlim em especial caracteriza-se por uma grande diversidade de classes sociais nas regiões centrais. Isso faz a cidade interessante, inclusive para os investidores. Seria, portanto, uma tarefa dos políticos fazer com que o mercado imobiliário não destrua isso que ele inclusive tenta promover.

  • A cidade como presa (The City as Prey) A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa
  • A cidade como presa A cidade como presa | Foto (detalhe): © Andreas Wilcke
    A cidade como presa

Seu filme esboça nesse sentido uma imagem tendencialmente pessimista.

Sim, infelizmente. Em primeiro lugar, foi uma decisão política duvidosa que fez a bola rolar no mercado imobiliário. Em 2005, a administração municipal vendeu 65 mil apartamentos de propriedade do Estado para uma subsidiária da Goldman Sachs – também para suprir os rombos nos próprios cofres. Para muitos investidores, isso foi um indicador de que valeria a pena entrar no mercado berlinense. Medidas regulatórias foram consideradas supérfluas. Durante muito tempo a postura oficial era a de que o mercado estava calmo e que havia moradias desocupadas suficientes.

Mas nesse meio-tempo, já reconheceram que há necessidade de agir, não é?
 
Pelo menos a construção de moradias populares está no topo da plataforma política. Há esforços, através de várias medidas, de frear os preços dos aluguéis. Um exemplo: em 2015, foi proibido transformar moradias de aluguel em propriedade privada no que se chama de regiões de proteção do ambiente social. São áreas da cidade nas quais a constituição social heterogênea da população deve ser mantida. Embora tenha que se dizer que, especialmente no caso da proibição de transformação de moradias de aluguel em propriedade própria, há várias lacunas na regulamentação, que as pessoas gostam de aproveitar.
 
Os políticos conseguirão reduzir os efeitos negativos do mercado?
 
Isso é difícil de dizer. Embora os políticos locais estejam cientes disso, eles têm infelizmente um leque de ação muito estreito. A diretriz oficial de Berlim continua sendo a de adquirir verbas para encher os cofres vazios, tornando a cidade atraente para os investidores internacionais.
 
Seu filme termina com uma colagem de imagens de áreas residenciais quase suburbanas – todas elas projetos arquitetônicos no meio de Berlim. Isso é um sinal de resignação?
 
Não necessariamente. Isso é simplesmente o que resta da retórica positiva de crescimento apresentada no início do filme, quando você observa os projetos de construção reais. O que tem surgido em Berlim em diversos lugares são subúrbios reais dentro da cidade: monoculturas arquitetônicas e sociais para uma camada de alta renda. Vejo isso como um desenvolvimento muito ruim. Gostaria que a classe política decidisse intervir nesse caso.

The director Andreas Wilcke Photo (detail): © Kay Ruhe Andreas Wilcke cresceu em uma pequena cidade do estado de Brandemburgo e vive desde os anos 1990 em Berlim. Depois de estudar na Escola de Fotografia Ostkreuz, na cidade, passou a trabalhar a partir de 2009 como documentarista. No projeto de longo prazo Die Stadt als Beute (A cidade como presa), Wilcke assina direção, produção, roteiro e fotografia. No filme, ele expõe o boom da construção civil ao longo de muitos anos, a explosão dos preços dos aluguéis e a gentrificação de Berlim. O filme chegou aos cinemas alemães em 2016.