Feminismo e LGBT O direito de ser diferente

The value of diversity
The value of diversity | Foto (detalhe): © konstacot/iStock

O movimento feminista, os homossexuais e as pessoas que não querem se prender a uma divisão tradicional de gêneros muitas vezes se apoiaram mutuamente. Mas na política concreta, a união também acarretou problemas.

Uma breve consideração do atual desenvolvimento político na Alemanha é suficiente para constatar que as pessoas que defendem a causa feminista e os direitos dos homossexuais, bissexuais, transexuais e intersexuais (LGBT) têm muito em comum. Sobretudo os mesmos inimigos. O novo partido alemão “Alternative für Deutschland” (Alternativa para a Alemanha – AfD), cada vez mais bem-sucedido com seu populismo, satisfaz seu eleitorado frequentemente com ataques ao feminismo, aos gays, às lésbicas, aos transexuais e aos estudos de gênero.
 
Os “novos direitistas” também vivem no mundo de hoje, entre eles há inclusive altos funcionários com orientação homossexual e propostas familiares alternativas. O fato de tratarem indiscriminadamente tudo o que soa como feminismo, desvios da conduta sexual e dissolução de fronteiras entre a feminilidade e a masculinidade tem bem menos a ver com seus valores familiares burgueses do que com uma palavra de combate que vem sendo instrumentalizada com facilidade pela sociedade alemã e o jornalismo: “Genderwahn”, ou “a loucura do gênero”. 

Evidentes pontos em comum

O desejo de acertar com uma só cajadada tudo o que constitui uma ameaça iminente à sociedade não remete apenas a medos ou teorias conspiratórias. As mulheres, os homossexuais e as pessoas que não querem se prender à divisão tradicional dos gêneros aliaram-se de fato desde cedo. Seus pontos em comum eram evidentes: tratava-se da igualdade dos gêneros e do direito de se desviar de papéis sociais supostamente naturais, tanto em relação a aspectos externos quanto às preferências sexuais. Juntos, denunciavam que a totalidade da cultura, inclusive a linguagem, e sobretudo as relações de poder partiam do princípio de uma suposta heterossexualidade normal.
 
Tudo começou nos anos 1970, com uma união demonstrativa entre feministas e mulheres homossexuais no chamado “Neue Frauenbewegung” (Novo movimento das mulheres). A esperança era que, com a apoio do feminismo, as lésbicas pudessem lutar contra sua opressão na qualidade de mulheres e sua marginalização como homossexuais. Ao mesmo tempo, as mulheres poderiam se libertar de sua opressão, alcançando sua independência sexual em relação aos homens: o amor homossexual como decisão política, como arma contra o patriarcado.

Homossexualidade como ponto de ruptura do feminismo

A ligação entre emancipação e homossexualidade sublinhou o papel importante que a “política sexual” tinha para o movimento feminista. O conceito “sexual politics”, que a doutora em Literatura e feminista norte-americana Kate Millet cunhou no anos 1960, descrevia a sexualidade como o cerne da opressão das mulheres. O próximo passo foi a ideia de que o transgênero poderia subverter o sistema sexual binário e assimétrico. Afinal, se as pessoas não pudessem ser classificadas claramente como mulheres ou homens, isso não significaria automaticamente o fim da dominância masculina.
 
Esses desdobramentos foram muito produtivos para a discussão teórica. Mas para a política feminista concreta, nem sempre. Alice Schwarzer, a feminista alemã mais conhecida e ativa politicamente, sofreu com esse dilema. Quando ela assumiu a liderança do movimento, sabia que o estigma da homossexualidade era atrelado às feministas, pois os homens pareciam só conseguir aguentar a crítica ao patriarcado insinuando que as defensoras dos direitos das mulheres seriam lésbicas e odiariam os homens. Talvez por este motivo – para não tornar o movimento ainda mais passível de ataques –, Alice Schwarzer resolveu então manter sigilo sobre sua orientação sexual. O que, por outro lado, foi uma afronta para as companheiras lésbicas. Por isso a questão da homossexualidade era considerada um ponto de ruptura para muitas ativistas dos anos 1970.

Lutas pela identidade e novo pluralismo 

Atualmente, as lutas pela identidade e o novo pluralismo se refletem no conceito do “feminismo queer”. A sociedade começou a reconciliar o sistema legal e a política familiar com situações individuais e diferentes propostas de vida. Desde 2013, é mais fácil para os transexuais mudar seu gênero no passaporte. Mas, na Alemanha, o sistema binário de categorização de gêneros ainda está em vigor: toda pessoa tem de se classificar, ao menos formalmente, numa das duas categorias do sistema, com todas as suas consequências.

Enquanto isso continuar assim, a demanda das feministas de poderem se desenvolver no mundo social livres de uma classificação sexual com implicação social e cultural permanecerá atual. O mal-estar causado pela desigualdade, que se torna visível através do gênero, garante uma discussão intensa também no futuro. Mesmo porque os adversários políticos em comum vão assegurar que seja assim.