O ARTISTA-CINEASTA JULIAN ROSEFELDT MANIFESTO E MÁSCARAS

Quase 15 anos transcorreram entre “Asilo” e “Manifesto”, as duas instalações de Julian Rosefeldt. Na segunda, que é seu mais recente projeto, além de imagens complexamente encenadas, o foco é colocado na eloquência de manifestos artísticos. Ambos os trabalhos são extremamente atuais.

Como revelou há alguns anos em entrevista, Julian Rosefeldt não começou, de todo jeito, a estudar Arquitetura para depois projetar edifícios. A graduação em Munique e Barcelona ele conseguiu concluir. No entanto, nunca executou projetos arquitetônicos. Seu trabalho de conclusão de curso já foi um filme, assinado junto com Piero Steinle. E por trás das câmeras foi onde Rosefeldt permaneceu depois de diversas instalações criadas ao lado do antigo colega. Nos primeiros anos, ele usava única e exclusivamente found footage, ou seja, material de arquivo resgatado. Já Asylum (Asilo, 2001/02) foi o primeiro trabalho que ele próprio encenou. 

Atividades sem sentido

A faxineira turca, o vendedor de rosas paquistanês, cozinheiros ou profissionais asiáticos do sexo, vendedores ambulantes africanos: esses são alguns dos clichês relacionados às origens e áreas de atuação comumente atribuídas aos migrantes ou requerentes de asilo na Alemanha. E são justamente esses estereótipos que Rosefeldt desmascara em sua instalação em nove partes intitulada Asilo: o artista transpõe esses clichês para uma paródia bizarra, conduzindo assim nosso olhar de maneira inexorável para as imagens estereotipadas que temos em mente. 

Julian Rosefeldt, Asilo, 2001/2002 Julian Rosefeldt, Asilo, 2001/2002 | © Julian Rosefeldt e VG Bild-Kunst, Bonn 2002 Mulheres de lenço muçulmano na cabeça limpam o chão de uma loja de cactos com aspiradores de pó. Vendedores de flores regam rosas em uma casa de banho histórica. Em um espaço para macacos no zoológico, cozinheiros asiáticos estraçalham embalagens de isopor de comidas fast food, antes de começarem uma apresentação de boxe sombra. Travellings prolongados intensificam o caráter desolado desses trabalhos, fazendo com que eles pareçam rituais. No loop do filme, os 120 protagonistas são condenados a trabalhos de Sísifo: atividades quaisquer, sem sentido, árduas e sem um fim previsível. Só de vez em quando é que as pessoas interrompem suas ocupações absurdas, entoam em coro um único som, ligando-se, dessa forma, acusticamente, a um todo que toma o espaço por completo. O visitante, que se movimenta entre nove projeções de grande formato, torna-se ele próprio parte da instalação. 

TABLEAUX VIVANTS

São grandes temas que Julian Rosefeldt retoma em seus filmes de imagens vigorosas. Enquanto no caso de Asilo e Lonely Planet (2006) é o estranho percebido como exótico, em The ship of fools (2007) e My home is a dark and cloud-hung land (2011), o conceito de pátria é o foco da observação. As tomadas são encenadas de maneira meticulosa nos mínimos detalhes e as imagens são planejadas camada por camada. Não é à toa que os trabalhos de Rosefeldt são, com frequência, comparados a pinturas. Eles são tableaux vivants, ou seja, quadros vivos no sentido literal da expressão. As citações que aludem à história da arte e do cinema são propositais e devem ser entendidas como homenagens. Desta forma, em American Night (2009), o artista presta um tributo ao gênero western; em Deep Gold (2013/14), o homenageado é Luis Buñuel.

Julian Rosefeldt, Asilo, 2001/2002 Julian Rosefeldt, Asilo, 2001/2002 | © Julian Rosefeldt e VG Bild-Kunst, Bonn 2002 Cada parte das instalações funciona de maneira autônoma na intensidade da linguagem imagética, nas figuras arquetípicas claramente delineadas e em uma narração em loop imediatamente compreensível. Ainda assim, as partes mantêm entre si uma harmonia perfeita que liga as mais diversas cenas umas às outras. 

60 manifestos, 13 papéis e uma atriz

A primeira das 13 telas de seu mais recente trabalho, Manifesto, mostra como prólogo apenas a reprodução, em slow motion, de um estopim que vai se queimando aos poucos. Passagens do Manifesto do Partido Comunista (1848), de Karl Marx e Friedrich Engels – a matriz de todos os manifestos – são ouvidas, seguidas pelo Manifesto Dadaísta, de Tristan Tzara, e por Literatura e o resto, de Philippe Soupault. As faíscas vão se dissipando, a tensão aumenta e o que acontece? Nada. Cada manifesto conclama para si a condição de ser um espetáculo de fogos de artifício. E a mesma coisa acontece com as outras 12 projeções. 

Doze vezes Cate Blanchett: Na instalação de vídeos “Manifesto“, ela recita, em diferentes papéis, os postulados da vanguarda. Doze vezes Cate Blanchett: Na instalação de vídeos “Manifesto“, ela recita, em diferentes papéis, os postulados da vanguarda. | © Julian Rosefeldt and VG Bild-Kunst, Bonn 2017 Os artistas, majoritariamente homens e jovens, autores dos mais diversos manifestos da Modernidade, não queriam mudar apenas a arte, mas sim e nada menos que o mundo. Rosefeldt fez, de fato, uma colagem de textos históricos originais de 60 escritos, apresentando-os em forma de cenas contemporâneas. Através de reduções e junções dos textos, surgiram 13 monólogos poéticos. 

À mesa do almoço, a mãe conservadora norte-americana entoa o Manifesto da Pop Art de Claes Oldenburg. Uma corretora da bolsa de valores faz declarações futuristas em um cenário que, em função das incontáveis estações de trabalho com computadores, mais parece um centro de vigilância. A funcionária de uma usina de processamento de lixo defende manifestos da arquitetura. A responsável pelo discurso fúnebre ao lado de uma vala aberta, em um cemitério no meio de um bosque, recita textos elementares do Dadaísmo. Um morador de rua propaga, usando um megafone e mirando o céu berlinense nublado, reflexões sobre o Situacionismo. Todos os 13 protagonistas (em uma das cenas há dois papéis) são representados por Cate Blanchett – uma performance de mestre em termos de variação linguística, metamorfose e maquiagem. 
 
Julian Rosefeldt. Manifesto. Filme sobre a exposição no Hamburger Bahnhof – Museu de Arte Contemporânea – Berlim

Rosefeldt apresenta esses manifestos históricos de maneira inesperada, em contextos sociais atuais. Os papéis não poderiam ser mais diversos, mas confluem todos no presente e em uma só pessoa. A transferência de pensamentos cristalizados a partir das mais diversas proclamações funciona, já que as palavras e os conteúdos são mais atuais que nunca. Aqui e ali as diferentes personagens, que são ao mesmo tempo a mesma, interrompem suas declamações cacofônicas e se unem em uma hosana de muitas vozes de todos os manifestos. 

Portrait Julian Rosefeldt Photo © Gabriele Brandt Julian Rosefeldt nasceu em 1965 em Munique e vive desde 1999 em Berlim. É membro do Departamento de Cinema e Videoarte da Academia Bávara de Belas Artes em Munique desde 2010 e professor de Mídias Digitais na Academia de Artes Plásticas desde 2011. Sua instalação Manifesto, composta de 13 filmes, pode ser vista até o dia 14 de maio na Staatsgalerie de Stuttgart e até o dia 21 de maio de 2017 na Villa Stuck em Munique, bem como na Ecole des Beaux Arts de Paris até o dia 23 de abril.