ARTE DIGITAL EMANCIPAÇÃO COLORIDA COMO UM DOCE

Munidas de smartphones e hashtags, jovens artistas da internet lutam no Instagram, Tumblr, Facebook e Twitter pela aceitação de pelos e secreções corporais, impurezas da pele e calcinhas manchadas de sangue.
 

As feministas da chamada “quarta onda” não precisam necessariamente ter uma posição política. Como Mayan Toledano faz através de seu selo Me and You, elas vendem declarações impressas em pulôveres ou em meigas calcinhas estilo vovó. “Feminist”. “Don’t touch”. “Not Your Pussy”. Muitas delas são jovens demais para ter de se preocupar com igualdade profissional e pagamentos justos. Tudo o que conhecem é a internet com suas mídias sociais e uma oferta excessiva de cultura pop. Instagram e Tumblr são o pátio de colégio em que elas não são aceitas por causa da aparência.
 

No videoclip do trio de electro-pop Garden City Movement “She’s So Untouchable”, Mayan Toledano investiga o desejo e identidades de gênero não binárias.
  
A artista e fotógrafa canadense Petra Collins passou por essa experiência em 2013. Ela é considerada a garota propaganda do feminismo 4.0. Com 15 anos, começou a fotografar. A si mesma, seu corpo, tudo o que se modificava na adolescência e a deixava insegura.
Petra Collins | “Babe” (livro) | Petra Collins | “Babe” (livro) | | Cortesia da editora Prestel Publishing No prefácio de seu livro Babe, ela escreve que se sentia pressionada por todos os lados, que a fotografia lhe dava segurança, mas que ela não achava um lugar para suas fotos. Por isso, fundou a plataforma virtual The Ardorous, um lugar para publicações de meninas jovens que não conseguem se identificar com a imagem da mulher na propaganda. Body Positivity em vez de Body Shaming é seu slogan. E é claro que ela sabia o que estava fazendo quando compartilhou no Instagram uma foto sua com calcinha de biquíni verde com os pelos pubianos à mostra. A imagem foi censurada, pois seus pentelhos se enrolavam de maneira visível demais. Os Net Artists colecionam imagens que foram apagadas do Instagram, com sua política puritana de imagens, e as divulgam em livros. No final de abril de 2017, será publicado o volume Pics or It Didn’t Happen. Images Banned From Instagram (Pics ou isso não aconteceu. Imagens banidas do Instagram) pela editora Prestel Publishing, organizado por Arvida Byström e Molly Soda.

QUEBRA DE TABU

A censura chama atenção e hoje seus efeitos colaterais são mais positivos que negativos. Atualmente as mídias sociais oferecem às mulheres artistas uma possibilidade de desalavancar o poder das instituições culturais, que frequentemente ainda são dominadas por homens. Antigamente era diferente: depois que o desenho fálico Horizontal, de Judith Bernstein, foi censurado no Philadelphia Civic Center, em 1974, ele passou quase 25 anos sem ser exposto em galeria nenhuma. Esse é apenas um dos numerosos exemplos das desvantagens das mulheres no mercado de arte. Em seu cartaz de 1988,  as Guerrilla Girls anunciavam com ironia provocadora que uma das vantagens de ser uma artista mulher é poder trabalhar sem a pressão de fazer sucesso. Quem vai contradizer uma coisa dessas?
Guerrilla Girls | As vantagens de ser uma artista mulher, 1988 Guerrilla Girls | As vantagens de ser uma artista mulher, 1988 | © Guerrilla Girls, cortesia guerrillagirls.com  


IDENTIDADES FICTÍCIAS

Em 1997, com uma intervenção sob o título Female Extension, a artista alemã Cornelia Sollfrank levantou uma objeção ao edital do Hamburger Kunsthalle sobre o tema Extension. A internet como pintura e objeto. Sollfrank temia que muito poucas mulheres se candidatassem, e, portanto, criou 289 identidades fictícias com obras de mulheres artistas internacionais. Todas foram autorizadas. E como ninguém percebeu a subversão, Sollfrank teve que revelar sua própria intervenção.

 

Cornelia Sollfrank | Captura de tela do site documental Female Extension (1997): http://artwarez.org/femext/ Cornelia Sollfrank | Captura de tela do site documental Female Extension (1997): http://artwarez.org/femext/ | © Cortesia Cornelia Sollfrank

LUTA CONTRA ESTEREÓTIPOS

No século 20, as Suffragettes, denominação pejorativa dada às participantes do primeiro movimento de mulheres, lutaram pelo direito ao voto, à educação e ao trabalho remunerado. Desde o fim dos anos 1960, com a segunda onda do feminismo e a primeira geração de artistas feministas, as mulheres vêm se organizando na cena das artes, expandindo-se a partir do Reino Unido e dos Estados Unidos. Elas lutam pela equiparação de direitos entre homens e mulheres e contra os estereótipos e a objetificação da mulher através do olhar masculino.

Com cada onda e cada geração, as prioridades e as mídias utilizadas vão se modificando e, através das mídias, as possibilidades. Em 1974, em sua performance de 6 horas Rhythm 0, durante a qual os espectadores podiam pegar 72 objetos de uma mesa e “atacá-la” com eles, Marina Abramovic colocou em evidência o tema da passividade feminina. Barbara Kruger não se conformou com o estereótipo de “Shopping Queen” da mulher, Martha Rosler contrapôs a paródia Semiotics of the Kitchen ao estereótipo da mulher como “piloto de fogão” e sua representação nos meios de comunicação de massa.

Anne Collier | Mulher chorando #2 Anne Collier | Mulher chorando #2 | Cortesia da artista; Galeria Anton Kern, Nova York; Galeria Neu, Berlim; The Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow; Galeria Marc Foxx, Los Angeles © Anne Collier Com seus Untitled Film Stills, Cindy Sherman questionou os papéis estereotipizados da mulher no cinema, e Anne Collier fotografou e ampliou mulheres chorando em capas de LPs, dissecando assim o clichê do sexo frágil.

PERFORMANCE COM SELFIES

Em 2014, em sua performance Excellences & Perfections, Amalia Ulman se colocou em cena no Instagram como uma menina comportada do interior que, ao mudar para a cidade grande, se transforma em “hot babe”. Seus quase 5 mil seguidores de então puderam acompanhar a mudança. Ulman “viveu” então todos os estereótipos que encontrou nas mídias sociais: operações plásticas, vício em drogas, decadência, ressurreição como uma fênix das cinzas depois de uma sessão de ioga. Durante quase meio ano, ela compartilhou selfies, como é comum no Instagram – no banheiro, na cama, fazendo ginástica, comendo. Só depois de quase seis meses, Ulman revelou a falsidade da história. Tudo foi apenas encenado, pois, como ela declarou, todos que estão online são mentirosos. E ela queria explicitar isso em sua performance.


“SO PRETTY”

Monika Mogi em: Petra Collins | “Babe” (org.) Monika Mogi em: Petra Collins | “Babe” (org.) | © Monika Mogi, sortesia da editora Prestel Publishing A artista britânica Tracey Emin ainda levou sua cama, com tudo o que fazia parte dela, para a sala de exposições, para que fosse contemplada. As feministas da “quarta onda” só precisam de smartphones e apps para conseguir visibilidade. Elas fazem fotos de si próprias em seus quartos de menina cor de rosa, com pelos embaixo dos braços, espinhas no rosto e sangue na calcinha – até que as pessoas tomem conhecimento dessas imagens com um encolher de ombros e o comentário “OMG. You are so pretty”.