Peça convidada Entrevista com a diretora Susanne Kennedy

Encenação „Por que deu a louca no Senhor R.?“
Foto: Ju Ostkreuz

A encenação de “Por que o Sr. R. enlouqueceu?”, concebida no Teatro Kammerspiele de Munique, será apresentada no Festival de Teatro MITsp em São Paulo.

“Por que o Sr. R. enlouqueceu?” será apresentada em São Paulo. Você vê relações da peça com o Brasil, com a sociedade brasileira?
 
Não posso responder a essa pergunta assim. Nunca estive no Brasil e só conheço a situação do país através do noticiário. Mas é uma grande aventura mostrar o trabalho e ver como os espectadores irão reagir e se vão conseguir estabelecer alguma relação com ele. Espero que a gente estabeleça um diálogo a partir dessa encenação e que eu aprenda, com isso, algo sobre o Brasil.
 
Susanne Kennedy Foto: Susanne Kennedy A encenação é baseada no filme homônimo de Rainer Werner Fassbinder (traduzido no Brasil como “Por que deu a louca no Sr. R.?”) . Como você vê a relação entre o cinema e o teatro? Onde estão as ligações entre os dois e até que ponto eles se diferenciam?
 
O teatro é um ritual muito forte. Os atores no palco são como o protagonista de Stalker, filme de Andrei Tarkovski: eles nos levam a um terreno no qual temos que nos confrontar conosco mesmo. É essa a força do teatro, da qual precisamos sempre nos lembrar. Neste sentido, sou muito influenciada pelo ator, diretor e dramaturgista francês Antonin Artaud.
 
Ao mesmo tempo, acredito que o teatro precisa aprender muito com as outras artes, especialmente com o cinema. Na verdade, sempre procuro estabelecer a sensação de um filme quando apresento algo no palco, uma espécie de sorvedouro ou de experiência atmosférica. Pois não se trata ali somente de conteúdos que são negociados ou narrados, mas de uma experiência, uma vivência.
 
Por que você se interessou pela adaptação justamente desse filme? Por que seu interesse por esse tema?
 
Para mim, o que é especial no filme é a presença de praticamente apenas cenas cotidianas. Não há nenhum conflito ou drama. As pessoas vão conversando como fazemos todos os dias, usando frases incompletas, falando sobre nada em especial. Elas vão falando descompromissadamente ou silenciando. Você vai tendo a possibilidade de olhar para o cotidiano. Cheguei a pensar em tirar o assassinato do filme. Ele respinga em tudo, em toda ação cotidiana anterior. A mim fascinou muito mais o aspecto profano: Como se passa por uma porta? Como se bebe um copo de cerveja? Como se diz uma frase? Como se senta em um escritório? Como se vive?
 



O que significa encenar uma peça em outro continente? A seu ver, há cenas que são internacionalmente mais compreensíveis que outras? De que forma o acesso é possivelmente mais difícil ou mais fácil? Você tem expectativas nesse sentido?
 
Vou chegar de maneira muito aberta e já me contentarei com os encontros. Não tenho qualquer tipo de expectativas. Da minha experiência, sei que as coisas, muitas vezes, podem ser vistas de maneira muito distinta daquela que você previu anteriormente. Isso já começa no próprio país, entre os próprios amigos.