Atenas e Kassel A dimensão tropical da documenta 14

Acrópole, Atenas.
Acrópole, Atenas. | Foto: Max Jorge Hinderer Cruz.

Curadora brasileira Lisette Lanagdo fala sobre o escopo curatorial da documenta 14, que começa em abril em Atenas e segue em Kassel até setembro de 2016.

Fruto de uma parceria do Goethe-Institut Rio de Janeiro com a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, o seminário A tropicalização do Norte reflete sobre o projeto curatorial da documenta 14, edição deste ano da exposição que acontece tanto na Grécia quanto na Alemanha. No lançamento da iniciativa, que concede bolsas para estudantes brasileiros viajarem até Atenas e Kassel, a curadora dos programas públicos da EAV, Lisette Lagnado, falou sobre importância (tanto estética quanto política) dessas mostras.

Contexto político

“A documenta 14 estabelece uma outra esfera de negociação com a Europa, ao escolher iniciar o evento na Grécia, país cuja crise financeira vem ocupando as manchetes mundiais nos últimos anos. A população grega recusou as exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu (BCE), criando um impasse com os credores europeus. Incorporar a cidade de Atenas em um evento da grandeza da documenta indica que uma exposição de arte não é um acontecimento apenas de cunho estético nem isolado do contexto político, econômico e ecológico global”. 

Relevância

“A documenta é referência por se tratar de uma exposição que provoca reflexões e não se limita a uma seleção de obras. Ela lança um debate, provoca, busca antecipar questões. A documenta é uma exposição muito aguardada, de viés antiespetáculo – premissa complicada nos dias de hoje, nos quais tudo é espetáculo. Os organizadores de Kassel sabem disso. Eles tentam, ao escolher um curador, evitar nomes muito relacionados ao mercado. Aqueles que têm a oportunidade de vivenciar essa experiência retornam transformados”.

Desafio curatorial

Lisette Lagnado Lisette Lagnado | Foto Pedro Agilson “Uma exposição de arte como a documenta reúne questões que precisam ter o potencial de repercutir para além do seu tempo. Sempre se comenta, como um ponto positivo, o fato de esse ser o único evento artístico que conta com quatro anos de realização. Por outro lado, aí está uma armadilha, o tendão de Aquiles, para ficar com as metáforas gregas. A pergunta que imagino que qualquer curador que recebe a incumbência de se debruçar sobre uma edição da documenta se faz é: Como conceber um projeto que permanecerá atual nos quatros anos de sua preparação, levando-se em consideração a velocidade feroz e alucinante de nosso tempo? Para qualquer pensador ou intelectual, é quase uma esquizofrenia trabalhar a partir de um projeto com ideias pré-estabelecidas, como um corpo rígido, e não poder incorporar as transformações, os improvisos, que fazem parte do processo artístico. A pergunta que um curador deve se fazer é: ‘Que questão eleger que seja apta a permanecer válida por quatro anos?’ Qual é o problema que toca a todos e continua repercutindo desde o momento em que o curador é escolhido até o fim da exposição... e até mesmo depois dela?”

Peso da dívida

“Considerando o tempo de vigor de uma ideia, gostaria de introduzir aqui um tema que me toca profundamente, que é a palavra ‘dívida’. Mesmo sem saber o que os curadores estão pensando, sinto-me muito à vontade para lançar esse termo como conceito para trabalharmos dentro de nosso seminário: digo que a palavra ‘dívida’ é mais interessante que ‘crise’. Quando a equipe curatorial da documenta 14 pergunta o que podemos aprender com Atenas, a questão acaba interpelando a inadimplência do setor público. E, nesse sentido, dívida não designa apenas um passivo financeiro, mas as necessidades básicas para uma vida humana. Refiro-me ao pesadelo que pode assumir as feições psicológicas e morais desse termo, que é também sinônimo de crime, tangencia questões relativas à culpa, ao pecado, a uma falha que mina, corrói e apodrece o sujeito mais brilhante. 

Ter uma dívida é como ter um líquido letal que corre nas veias e imobiliza o indivíduo, o diminui. A dívida é perigosa não somente pelo tamanho dela, mas, sobretudo, porque deixa a pessoa sem condições para poder reagir. Nesse sentido, a dívida tem um caráter anestésico. Quanto maior a dívida, maior a insensibilidade para tentar um acordo com os credores. A crise, pelo menos, é uma febre que provoca a fúria. No Brasil, temos referências de dívidas desde o período colonial. Vivemos endividados desde sempre. Só que não havia conhecimento do tamanho da dívida. Hoje, os milhões já não são mais contabilizáveis. O Brasil é um país marcado pelas políticas de favor, também chamado de clientelismo, que é o que tomou conta da política eleitoral de barganha. É com essas breves palavras que consigo enxergar o alcance de um debate artístico e cultural que começa em Atenas, berço da democracia, mas que de certa forma tem parentesco com o Rio pós-olímpico.”

Sul e Norte

“A documenta tem início em Atenas (8 de abril a 16 de julho), antes de Kassel (10 de junho a 17 de setembro). Essa escolha sinaliza como a mostra mais prestigiada de arte do mundo, que acontece a cada cinco anos, está olhando para o Sul da Europa, mais especificamente para um país considerado geoestratégico para o continente, e que agora ganhou destaque por sua recusa em reduzir os programas sociais para atender credores europeus. Ao pensar o seminário, achamos que seria pertinente que os estudantes apresentassem um projeto problematizando a ideia de um "Norte". O que chamar de "Norte"? A que área do conhecimento pertence essa noção? É possível coexistir um Sul dentro de um norte ou vice-versa? Em que consiste essa “tropicalização"?"