Bienal de Veneza Radical e brutal

Com dois prêmios conquistados, a Alemanha se destaca na Bienal de Arte de Veneza. Especialmente a obra criada para o pavilhão alemão gera controvérsias. A artista Anne Imhof ganha destaque internacional com uma obra sombria.

Os dois artistas alemães premiados na Bienal de Veneza deste ano não poderiam ser mais diferentes. De um lado, o artista conceitual Franz Erhard Walther, de 77 anos, com suas obras coloridas de tecido, que há anos já tem seu lugar entre os grandes nomes da arte contemporânea. Do outro, Anne Imhof, de 39 anos, que já trabalhou como doorwoman e agora, com suas roupas pretas e arte performática brutal, é festejada como nova estrela em ascendência.
 
O ponto em comum entre eles: ambos vêm do estado de Hessen, inclusive da mesma cidade, Fulda; e ambos convenceram o júri com seus trabalhos para a Bienal de Veneza, cujo tema é Viva Arte Viva. Walther como melhor artista, Imhof pelo design do pavilhão alemão. E é a ela que se volta toda a atenção do mundo internacional da arte. Ou seja: “Viva Anne Viva”?

O júri sobre Anne Imhof: “poderosa e perturbadora”

Realmente, o pavilhão alemão, que em 2017 tem curadoria de Susanne Pfeffer, do Fridericianum de Kassel, não é um espaço fácil. Marcado pela história nazista, há anos os artistas quebram a cabeça para criar um design para o bombástico espaço. No pavilhão que os nazistas um dia usaram para sua propaganda, Christoph Schlingensief construiu a Igreja do Medo, ganhando, em 2011, o Leão de Ouro in memoriam. Agora é a vez de Imhof.
 
Para sua obra Fausto, a artista explora impiedosamente a brutalidade do ambiente deste prédio que lembra o fascismo. No discurso de agradecimento, Imhof deixou claro que, com seu trabalho, ela também pretende se opor “ao que relacionamos a esse passado”. À porta, dois dobermanns dentro de um canil. O chão do edifício é de vidro. Atores movimentam-se como zumbis ao som de estrondos no espaço por entre os visitantes. Eles ficam pendurados à parede através de cinturões, rastejam pelo chão. Masturbação, sexo, violência, poder, agressão: todos os elementos estão presentes.
 
O júri descreveu a obra como “poderosa e perturbadora”. O ministro alemão do Exterior, Sigmar Gabriel, declarou que o trabalho da artista ajuda a “iluminar os espaços sociais, seus centros de força e poder”. A própria Anne Imhof dá sinais do estresse dos últimos meses. Ela agradece constantemente à sua filha (“sem ela, eu não estaria aqui”), que teve de renunciar bastante à mãe nos últimos tempos. E também agradece à sua companheira, Eliza Douglas, que também atua na performance de cinco horas de duração.

Ações políticas não eram muito desejadas na Bienal

Os visitantes estão divididos. Alguns veem um trabalho envolvente, que discute a exclusão, a injustiça e a violência no mundo. Outros o consideram uma brincadeira superficial com o passado alemão.

Qualquer que seja a sentença, uma coisa é certa: Fausto destaca-se dos outros pavilhões e da exposição principal. Sob o tema Viva Arte Viva, a curadora Christine Macel, do Centro Pompidou de Paris, compilou uma exposição predominantemente otimista, que deve festejar a arte em si. Ações políticas não eram muito desejadas ali. Em vez disso, reprovam os críticos, haveria um excesso de artes têxteis e artesanatos.

O júri sobre Franz Erhard Walther: “radical e complexo”

Franz Erhard Walther combina melhor com esse quadro, sobretudo porque, desde os anos 1960, já convida os visitantes a adentrar suas obras, para que eles próprios se transformem em arte. O espectador como parte integrante da obra de arte – um aspecto também central para Imhof.

Franz Erhard Walther ist Preisträger des Goldenen Löwen der Biennale Venedig 2017 als bester Künstler Franz Erhard Walther ist Preisträger des Goldenen Löwen der Biennale Venedig 2017 als bester Künstler | © dpa; picture alliance / Felix Hörhager/dpa O júri destacou a “natureza radical e complexa” da obra de Walther. Um aspecto periférico, porém interessante: o Museu Reina Sofía, de Madri, abriga atualmente uma grande exposição individual do artista. E o diretor do Museu, Manuel Borja-Villel, é o presidente do júri da Bienal deste ano.
 
Portanto, dois Leões de Ouro para a Alemanha: “É um acaso perfeito, um feliz acaso”, afirmou o presidente da Bienal, Paolo Barrata, à agência de notícias dpa. E, apesar de sempre enfatizar que a arte nunca pode ser apenas nacional, situando-se em um contexto global, para a cena de arte alemã este foi um ótimo dia.
 
Bienal de Veneza, Jardins e Arsenal, de 13 de maio a 26 de novembro de 2017.