MORRE TANKRED DORST “SOMOS A DOR”

Ele ganhou o Prêmio Georg Büchner e o Prêmio Max Frisch, e o conjunto de sua obra foi agraciado com o prêmio de teatro “Der Faust”. Tankred Dorst falece aos 91 anos.

Tankred Dorst nunca teve ilusões a respeito do “estado desolador do mundo”. “O catastrófico é abençoado para o dramaturgo, pois o abastece de assuntos”, disse uma vez. Para ele, o mundo com seus mitos e contos de fada, suas visões e conflitos, era uma fonte inesgotável para sua obra teatral. Na quinta-feira (01/06), o grande colecionador de histórias faleceu aos 91 anos em Berlim, a cidade que escolheu para morar. 
 
Nos últimos 50 anos, Tankred Dorst escreveu mais de 50 peças – um dos autores mais importantes e produtivos do teatro alemão contemporâneo. Em dezembro de 2015, em sua comovente festa de aniversário de 90 anos, no Haus der Berliner Festspiele, ele anunciou estar trabalhando numa nova peça. “Ainda quero produzir mais uma”, disse ele na ocasião, forte, apoiado apenas no adorno de prata de sua bengala. Até o fim, ele era visto, silencioso e interessadíssimo, nos eventos literários da capital alemã, como, por exemplo, na casa da antiga diretora da Editora Suhrkamp, Ulla Unseld-Berkéwicz
 
Até hoje, sua obra-prima é a peça antiguerra Merlin oder Das wüste Land (Merlim, ou a terra deserta), que estreou em 1981 no teatro Schauspielhaus de Düsseldorf. Com suas quase 400 páginas, 97 cenas e quase 10 horas de duração, a recriação da saga do Rei Artur centrada em Merlim, mago e filho de um íncubo, é um desafio para qualquer diretor ambicioso. “Uma concepção grandiosa do fim do mundo, como o Anel de Wagner”, opinou o jornal Die Zeit.
 
O fim do mundo: desde cedo esse já era o tema da vida de Dorst. O pai, dono de uma fábrica, proveniente de Oberlind, na Turíngia, morreu quando ele tinha seis anos. Com 17 anos, pouco antes do fim da Guerra, ele foi mandado à Frente Ocidental e aprisionado durante muitos anos pelos norte-americanos. De volta, ficou desenraizado e desorientado, até que, durante sua graduação, o trabalho em um teatro de marionetes para adultos em Munique trouxe uma virada à sua vida.
 
Já sua primeira grande peça, Die Kurve (A curva), com estreia em Lübeck em 1960, despertou o interesse da emissora Westdeutscher Rundfunk (WDR). Pouco tempo depois, iniciou-se a produtiva e duradoura cooperação  com Peter Zadek, um “jovem gênio de Londres”, como a editora o denominava então. Obras como  Toller, Eiszeit (Idade do Gelo) e Auf dem Chimborazo (No Chimborazo) foram ao palco. Mais tarde seguiram-se Korbes, Karlos und Herr Paul. Também surgiram filmes, como Klaras Mutter (A mãe de Klara) e Eisenhans (João de Ferro)
 
“Em nossas décadas”, afirmou o orador Georg Hensel em 1990, por ocasião da entrega do Prêmio Georg Büchner, “nenhum outro dramaturgo alemão possui tantas tonalidades, tão ampla tessitura: sentimental, ingênuo, desajeitado, lírico, bem-humorado, irônico, sarcástico, cinicamente vulgar, cruel – e sempre claríssimo.” O fio condutor que permeia as mais diversas formas e temas é sempre o fracasso do ser humano em suas utopias.
 
Desde o início dos anos 1970, Ursula Ehler, autora de roteiros e assistente de direção 15 anos mais jovem, foi o alter ego de Dorst. Ela tornou-se sua esposa e coautora da maioria de suas peças. “Quando se vê vocês juntos, daria para pensar que uma pedra está dançando”, disse o diretor e companheiro de jornada Hans Neuenfels, durante a comemoração de 90anos em Berlim.
 
Há apenas quatro anos, Dorst se mudou com sua esposa para Berlim, depois de mais de quatro décadas em Munique, cidade mais tranquila. “Eu queria fazer algo de novo mais uma vez”, disse o autor, que também não temia experimentos em outras áreas. Como quando estreou em 2006, com 80 anos, como diretor de ópera numa nova encenação do Anel de Wagner em Bayreuth – onde foi acompanhado, por sinal, por vigorosas vaias.
 
Sua última peça, Das Blau in der Wand (O azul na parede), a conversa sobre a vida de um casal envelhecido, estreou no ano passado numa coprodução do teatro Schauspielhaus de Düsseldorf com o Festival do Ruhr, em Recklinghausen. Nela, o dramaturgo manteve-se fiel a seu tema: “Acima do portão de meu teatro, eu escreveria: Não somos os médicos, somos a dor”.

"Fiquei muito triste com a morte de Tankred Dorst, pois o considerava um amigo. Dirigi duas peças dele: Ich Feuerbach (1993) e Herr Paul (1996), ambas receberam muitos prêmios e sucesso de crítica. Ele assistiu a minha montagem de Herr Paul no Teatro de Arena de Porto Alegre, e fui recebido na casa dele, em München, em 1998. Um grande homem, um grande coração", disse o diretor brasileiro Camilo de Lélis Furlin.