PAISAGISMO “SALVAR O GLOBO DO COLAPSO TOTAL”

A paisagista e urbanista Regine Keller busca soluções para demandas atuais tanto da cidade quanto de áreas rurais. Seu foco está na qualidade de vida das pessoas.

A exposição draußen (do lado de fora), no Museu de Arquitetura de Munique, trata dos desafios que o paisagismo enfrenta face a uma onda global de urbanização marcada por impactos ambientais, desigualdade social, injustiça territorial e instabilidade política. Além de Regine Keller, cientistas de cinco universidades exibem ali os resultados de suas pesquisas.

Se encararmos a paisagem como espaço de lazer para as pessoas, surge, nos centros urbanos, um conflito da natureza contra a urbanidade. Que possibilidades existem para criar áreas de equilíbrio e descanso suficientes em cidades com uma densidade cada vez maior?
 
Agora que a maioria das pessoas vive em cidades e não mais no campo, o acesso à paisagem livre é mais difícil. Nas últimas décadas, tentou-se criar acesso a paisagens livres oferecendo mais possibilidades de locomoção. Naturalmente isso cria outros problemas, como a fragmentação das paisagens através da infraetrutura de transportes e uma alta produção de dióxido de carbono. Por isso – de acordo com o modelo da Modernidade clássica – surgiu a ideia de criar mais espaços de recreação nas cidades com densidade crescente. Através do aumento cada vez maior da densidade, a pressão cresce nas áreas livres disponíveis. Precisamos qualificá-las, o que significa equipá-las com ofertas que tornem a permanência ao ar livre atraente, e isso também inclui achar outras áreas, como, por exemplo, jardins em terraços.
  Changde/China: Paisagem urbana marcada pela presença da água, ao longo do Rio Chuanzi Changde/China: Paisagem urbana marcada pela presença da água, ao longo do Rio Chuanzi | Foto: © Lothar Fuchs Por um lado, há áreas urbanas restritamente reservadas ao lazer, como parques e jardins, mas também há formas de utilização dupla, em que as funções que são importantes para a cidade do ponto de vista da infraestrutura são combinadas com espaços abertos. Como o trabalho dos paisagistas se modificou nesse contexto??
 
Essa é uma tendência que começou nos anos 2000. O aumento da densidade de nossas cidades exige novas soluções e, nesse caso, as utilizações duplas oferecem uma grande vantagem. Mas a ideia já é muito mais antiga. O Central Park de Nova York já conta com um lago reservatório enorme, o parque foi fundado a seu redor. Essa proposta de vincular infraestrutura ambiental a lazer já existe há muito tempo, mas, com a velocidade do desenvolvimento das megalópoles, atualmente ela está ganhando impulso. Além disso, com nossos conhecimentos de engenharia, estamos em uma posição melhor para qualificar lugares que até hoje eram áreas proibidas, como depósitos de lixo, por exemplo, que naturalmente tiveram seu uso excluído por muitas décadas. Hoje conseguimos controlar esses lugares do ponto de vista toxicológico e da técnica de engenharia necessária e podemos, assim, criar novos espaços para as pessoas passarem o tempo.

Nesse cenário, o paisagismo trabalha em colaboração com outras disciplinas?
 
Sim, nosso trabalho é realmente multidisciplinar. Engenheiros civis e toxicologistas, hidrólogos e geólogos precisam trabalhar em intensa cooperação, para conseguir implementar com sucesso uma estrutura paisagística dessa qualidade.
 
São Paulo/Brasil: Desde 1957, o Tamanduateí está completamente canalizado e uma parte dele corre por tubos São Paulo/Brasil: Desde 1957, o Tamanduateí está completamente canalizado e uma parte dele corre por tubos | Foto: © Marcus Hanke, Instituto de Paisagismo, Universidade Leibniz Hannover Parques solares, parques eólicos, estruturas técnicas de proteção como diques e represas, e naturalmente estruturas de transporte como ruas e trilhos fazem parte do campo disciplinar da engenharia. Que influência os paisagistas podem exercer aqui?
 
Nós trabalhamos sobretudo o efeito estético dessas novas paisagens geradoras de energia, pois naturalmente percebemos que essas infraestruturas são extremamente bem-vindas no contexto da transição energética, mas que de difícil implementação do ponto de vista estético. O “estrago na paisagem” causado pelos parques eólicos sempre provoca discussões. O que fazer para que essa estrutura não seja percebida de maneira negativa? Essa é a arte com a qual os paisagistas, com auxílio de análises de imagens da paisagem e estudos qualitativos, determinam o valor de uma paisagem e se perguntam qual seria o melhor lugar para tais estruturas. Que precisamos delas, quanto a isso a sociedade já está de acordo – mas prefere que estejam no território dos outros e não no próprio.
 

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Regine Keller sobre a questão: O que é paisagem?


A exposição „draußen“ (“do lado de fora”) contempla o paisagismo em termos globais. Em foco estão áreas destruídas, paisagens exploradas e ressequidas. Esses são temas que os paisagistas de hoje precisam enfrentar?
 
A exposição apresenta projetos de pesquisa de cinco universidades, que mostram situações ilustrativas do que não deve ser feito, por meio do exemplo de megalópoles internacionais. Eles demonstram o que acontece quando não consideramos o sistema da paisagem. Exemplos são o Rio Ciliwung, em Jacarta, que serve como lixo da cidade, ou os morros de Medellín, na Colômbia, que, devido a seu povoamento, desabam constantemente, soterrando regularmente milhares de pessoas. Esses assentamentos ilegais constituem um grande problema, pois surgem em lugares que não deveriam ser habitados, justamente porque lá ocorrem deslizes de barranco, ou porque a área é constantemente inundada… Ali moram naturalmente os mais pobres entre os pobres. A infraestrutura construída por eles mesmos nos mostra as habilidades que as pessoas desenvolvem para contornar situações precárias. Mas também nos mostram o que acontece quando se interrompe o ciclo de recursos entre cidade e meio ambiente. Estudamos com muita precisão o colapso ecológico que veio a acontecer nos exemplos que expomos, e tentamos desenvolver soluções. Acreditamos que esta seja uma das tarefas mais nobres de nossa profissão: salvar nosso globo do colapso total.
 

Regine Keller Photo: Ulrike Myrzik Regine Keller é professora titular de Paisagismo e Espaço Público na Universidade Técnica de Munique desde 2005 e coproprietária do escritório de arquitetura Keller Damm Kollegen GmbH Landschaftsarchitekten Stadtplaner. Depois de estudar História da Arte e Ciências Teatrais na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, Keller trabalhou em teatros em Salzburg e Munique. Posteriormente, completou uma formação em Jardinagem e Paisagismo e estudou em seguida Gestão Paisagística na Universidade Técnica de Munique. Regine Keller é membro da Câmara de Arquitetos da Baviera, da União de Paisagistas Alemães, da Werkbund, da DASL, da Academia Bávara de Belas Artes, assim como da Academia das Artes de Berlim, e faz parte do comitê de membros do Goethe-Institut.

A exposição draußen – Landschaftsarchitektur auf globalem Terrain (Do lado de fora – paisagismo em terreno global), no Museu de Arquitetura da Universidade Técnica de Munique, está em cartaz até o dia 20 de agosto de 2017. O catálogo de mesmo nome, organizado por Andres Lepik em cooperação com Undine Giseke, Regine Keller, Jörg Rekittke, Antje Stokman e Christian Werthmann, foi publicado pela editora Hatje Cantz.