Anne Imhof CORPOS OBSTINADOS E A VIOLÊNCIA DA IMAGEM

Anne Imhof | Faust | Deutscher Pavillon in Venedig
Anne Imhof | Faust | Deutscher Pavillon in Venedig | Foto: Regina Prinz

Com sua performance “Faust”, Anne Imhof ocupou o Pavilhão Alemão da Bienal de Veneza. As imagens arrebatadoras desta intervenção, bem como as obras anteriores da artista, são resultado de trabalhos colaborativos.
 

Há cinco anos, Anne Imhof foi premiada por seu trabalho de conclusão de curso na Städelschule de Frankfurt; há três, ganhou o Prêmio de Arte Jovem da Galeria Nacional de Berlim; e agora o Leão de Ouro na Bienal de Veneza. Apesar disso, seria leviano classificar Anne Imhof como uma estrela em ascensão. Isso simplesmente não combinaria com as performances multimídia elaboradas com toda a precisão, e descrições assim contradizem a coerência com que sua obra evoluiu, tornando-se uma encenação de muitas horas de duração. E, acima de tudo, como Imhof sempre faz questão de ressaltar, ela nunca trabalha sozinha. A artista confia em processos colaborativos dentro de sua equipe de atores, dançarinos, músicos e fotógrafos. Ela já demonstrou isso inclusive em seu trabalho de conclusão de curso, School of the Seven Bells (Escola dos sete sinos). Introduzidos por uma peça musical, ela e mais 14 amigos ficavam de pé isolados, agrupavam-se, separavam-se, passavam bastões de metal como uma mensagem secreta; um processo que pode ser interpretado como um permanente dar e receber de recursos – inclusive de natureza intelectual. É possível visualizar de maneira mais sutil a inspiração mútua que acompanha uma pessoa durante e depois do período de formação? Segundo Imhof, através dessa colaboração surge uma imagem maior e mais complexa.

RECUSA DE NARRAÇÃO

O que interessa à artista são as imagens, compostas de pintura, escultura, instalação sonora e performance. Não existe em suas obras um roteiro, nenhum tipo de narração, nem mesmo instruções fixas de atuação para os intérpretes. Para Imhof, é importante que, a cada momento, cada participante tenha domínio total sobre si próprio e sobre sua própria ação. Dessa liberdade surgem momentos relevantes para sua obra. Mesmo assim, ela mantém o controle sobre o que ocorre.

Anne Imhof | Faust | Pavilhão Alemão em Veneza Anne Imhof | Faust | Pavilhão Alemão em Veneza | Foto: Regina Prinz No caso de Faust em Veneza, a comunicação entre artista e intérpretes durante a encenação acontece através de smartphones. O visitante não é solicitado a assistir do começo ao fim a essa performance concebida para durar várias horas. O que importa é a imagem que cada um leva consigo, tendo estado presente no local durante cinco minutos ou cinco horas.

Em sua compreensão da arte, a pintura e o desenho assumem constantemente um papel importante. Os primeiros elementos básicos são fixados através de desenhos no ateliê, seguindo-se então as transposições para outras mídias. Trata-se de encontrar coletivamente uma linguagem não verbal conjunta, que permita chegar a um acordo num mesmo nível a respeito das diferentes implementações e encontrar definições correspondentes para o desenrolar do espetáculo. Só assim as diversas mídias podem se entrelaçar para criar a atmosfera que finalmente possibilita o surgimento da imagem.

Anne Imhof | Faust | Pavilhão Alemão em Veneza Anne Imhof | Faust | Pavilhão Alemão em Veneza | Foto: Regina Prinz

CENÁRIO DE LONGA DURAÇÃO EM VENEZA

“Anne Imhof é uma artista que olha para a sociedade, o indivíduo e o corpo com um realismo tão contemporâneo quanto claro”, afirmou a curadora Susanne Pfeffer ao justificar sua escolha. Desde o início, a obra da artista já estava sob sua mira. Faust é o título desse cenário planejado para ter uma duração de cinco horas. O título faz obivamente referência ao patrimônio cultural alemão e a Johann Wolfgang von Goethe, mas remete ao mesmo tempo e literalmente à palavra Faust, que em alemão quer dizer punho, mão fechada. A obra fala de poder, impotência, violência, resistência e, em última instância, do oposto disso, ou seja, de liberdade. A liberdade de pensamento de cada indivíduo é, portanto, central nas obras de Imhof.
 
Anne Imhof | Faust | Pavilhão Alemão em Veneza
Anne Imhof | Faust | Pavilhão Alemão em Veneza

Com sua obra, a artista ocupou o Pavilhão Alemão em Veneza, uma construção fascista dos anos 1930. A área foi cercada e a parte anterior vigiada por quatro cães da raça Doberman. Na fachada, nas cercas, os atores ocuparam seus postos. As paredes instaladas, consoles e níveis adicionais são de vidro, possibilitando uma nova relação com o espaço. Algo que o espectador conhece de prédios institucionais ou bancos, onde se encena a transparência e se demonstra poder.
 
Anne Imhof | Faust | Bienal de Veneza
Anne Imhof | Faust | Bienal de Veneza

Os atores parecem deslocados, andam muito, corpos estancam num conglomerado, cabeças são pressionadas contra a parede sem resistência, sequências de movimentos congelados em poses. De todas essas imagens, emana uma evidência arcaica, como se elas já estivessem presentes desde sempre. Embora a performance aconteça acima, abaixo e ao redor do espectador, ele permanece estranhamente alheio, não sendo envolvido na ação. Para Anne Imhof, é justamente essa distância que importa. Caso contrário, será que surgiriam essas imagens contundentes?

 

Portrait Anne Imhof © Photo Nadine Fraczkowski Anne Imhof nasceu em 1978, em Giessen. Iniciou sua formação na Escola Superior de Design de Offenbach e continuou seus estudos na Escola Superior de Belas Artes de Frankfurt, a Städelschule. Em 2012, cursou mestrado sob a orientação de Judith Hopf. Recentemente seu ciclo de obras de três partes, criado em forma de ópera e intitulado Angst (Medo), foi encenado em Berlim, Montreal e Basel. Imhof vive e trabalha em Frankfurt.