Reformando o presente ENTREVISTA COM PETER WEIBEL

Peter Weibel
©Goethe-Institut

Ama o distante como a ti mesmo!

Como sabemos, as novas mídias estão criando uma verdadeira reviravolta no nosso conceito de realidade, até mesmo na percepção do nosso próprio corpo. Até que ponto essa mudança da realidade gera também transformações profundas na nossa psique e no espaço público?

Até agora, a realidade veio sendo construída através de duas formas de percepção sensorial do sujeito: de um lado, através dos sentidos próximos, ou seja, era possível tatear, sentir, cheirar algo; por outro lado, através dos sentidos distantes do olho e do ouvido. A realidade parecia ser construída através de uma sintonia entre os sentidos próximos e os distantes. Havia um equilíbrio entre os dois.

Entrevista com Peter Weibel, todos os trechos

Há 200 anos, passou a existir, em função da tecnologia eletromagnética, uma nova hierarquia: a hegemonia dos sentidos distantes. Isso se deu pelo desejo do ser humano de fortalecer os sentidos distantes e não os próximos. Pode-se dizer que criamos uma espécie de telessociedade – por fax, rádio, telefone, televisão, internet. E, com isso, o abismo entre os sentidos próximos e os distantes se tornou tão grande, que os sentidos próximos não têm mais importância.

Que tipo de relação surge entre as esferas pública e privada, se a dicotomia entre o interno e o externo vai desaparecendo cada vez mais em função das atribuições geradas pelas imagens?

Permita-me um exemplo sujo: o que as pessoas chamam de amor ou erotismo era o cenário clássico ou campo de batalha dos sentidos próximos, o toque de superfícies da pele. Hoje, no entanto, as pessoas desfrutam também do substituto midiático através dos sentidos distantes: isso é o que um espectador vê, seja na TV, por telefone ou por Youporn. Ele é um observador de primeira linha. Nos últimos 200 anos, criamos uma telessociedade. Nesse regime dos sentidos distantes, a imagem exerce um papel primordial. O espectador diz que vê à distância, ele literalmente “televê”. Mas, de fato, ele não vê nada. Seus olhos foram categoricamente desapropriados, eles pelo menos não estão no local do acontecimento. Ali, está outra pessoa. O espectador vê o mundo na TV através dos olhos de outra pessoa. Uma outra pessoa vê o mundo através dos olhos de uma câmera. Vivemos, portanto, em um regime escópico.

Se a identidade do indivíduo vem sendo constituída cada vez mais através de imagens, sendo “mediada” por elas, de que forma se modifica também o sistema de valores que direciona o comportamento do indivíduo no espaço público?

Ainda não temos uma moral dos sentidos distantes. Na Bíblia consta que não se deve cobiçar a mulher ou as propriedades do próximo. Na realidade, já teria que se ter mudado isso há muito tempo: ama teu distante, em vez do próximo, como a ti mesmo.

Os dez mandamentos foram concebidos para os sentidos próximos; durante milênios, fomos criados para os sentidos próximos. Só que agora podemos olhar para o outro lado da colina e sobre as nuvens. Vivemos em uma realidade construída pelos sentidos distantes e acreditamos que podemos controlar esse mundo com as regras dos sentidos próximos

Que relação poderia se estabelecer nesse contexto entre produção de imagens, ética e Direito?

Os sistemas jurídicos também foram construídos a partir do reino dos sentidos próximos. Quando obras de arte são fotografadas, o nome do fotógrafo é omitido. Se eu fosse capaz de derrubar dois arranha-céus, teria teoricamente o direito de ser indicado como autor, mas aqui o fotógrafo é que é citado. Essas posturas são contrárias. Ainda não aprendemos a distinguir entre criador e autor. Na fotografia etnográfica, os dançarinos também deveriam ser nomeados. O Direito Civil ainda não entendeu isso. Em nossa sociedade ávida pela imagem, domina o autor e o criador é omitido. Esse é o primeiro problema. Se faço uma foto de uma situação na qual uma pessoa está sendo ameaçada com uma arma, tenho a escolha: devo intervir ou fotografar? Aqui, a avidez pela imagem faz com que eu não consiga solucionar um conflito ético humanamente.

Der letzte sakrale Akt
Entrevista com Peter Weibel: O último ato sagrado

A imagem poupa as pessoas da ação. Já na Bíblia consta: “por seus frutos os reconhecereis”. A crença nas imagens é o último ato sagrado, o último resto de religião – como antes da Reforma Protestante. A maioria das imagens é de qualquer forma encenada. Elas servem como provas do ponto de vista jurídico? Não, os tribunais não acreditam no caráter documental da fotografia.

Você sempre defendeu uma relação forte entre a arte e a ciência, interpretando a arte como uma forma de conhecimento, ou seja, delegando a ela um valor epistemológico. De que maneira as novas tecnologias modificam essa forma de conhecimento?

É grotesco, por exemplo, que o fotógrafo alemão Andreas Gursky, que afinal gera suas imagens no computador, seja visto na tradição da “escola documental de fotografia” de Düsseldorf. Até hoje não se pensou a fundo a respeito desses preceitos epistemológicos da imagem. A arte tragicamente confiou no reino dos sentidos próximos. No entanto, já na sua época Leonardo da Vinci começou a dissecar, estabelecendo em seu Tratado da Pintura o caráter científico da pintura. O pintor dispõe dos meios de representação: o ponto, a linha, o plano. E com isso ele apresenta uma forma visível das coisas. Leonardo da Vinci olhou para debaixo da superfície. Hoje em dia temos bisturis flexíveis, microscópios, ultrassom etc. Isso significa que a ciência redefiniu o conceito de “visível”. Utilizamos aparelhos para vermos além do que o olho vê naturalmente. A ciência satisfez a demanda de Leonardo da Vinci. Os pintores permaneceram no olhar. A ciência deslocou a zona do visível, como por exemplo através da tomografia computadorizada. Ela tornou visível o invisível.

A arte abdicou de sua condição de sistema de explicação do mundo. Graças a Deus que existem hoje movimentos contrários. Os artistas dispõem hoje de instrumentos semelhantes aos dos médicos, e assim a arte e a ciência se reaproximam. Ou seja, começamos agora um segundo Renascimento, que está classicamente sendo combatido pelos pintores e pelo mercado. Neste contexto, diz-se também que fotografia não é arte.

Entrevista com Peter Weibel: Um segundo Renascimento

Quando a gente imagina que, em 1936-38, Man Ray publicou uma edição de suas fotografias com o título A fotografia não é arte, porque estava cansado disso tudo. Nos anos 1960, todo mundo dizia que arte atrelada à mídia não seria arte. A partir disso, falávamos de obras e não de obras de arte.

Quando, em 1989, fundei o Instituto de Novas Mídias na Städelschule de Frankfurt, alguns pintores me disseram: “Você está trazendo o espírito mecânico para a arte”. Só pude retrucar falando: “Se você é contra o espírito mecânico, precisa tirar também o piano da escola”.

Um dos motivos recorrentes no seu trabalho gira em torno da crítica à crescente importância do mercado livre para a interpretação da arte e de sua relevância pública. Que papel é representado pela economia no julgamento estético das obras e até que ponto ela pode prejudicar a contemplação desinteressada da arte?

É preciso partir do princípio de que a grande história da pintura foi uma história da pintura encomendada. Daí o belo livro de Svetlana Alpers intitulado O projeto de Rembrandt. Hoje, a arte comissionada tem algo de pejorativo. Quando surgiu a ideia da arte autônoma? Os pintores executavam trabalhos para outros, documentando a história da Igreja e da nobreza, do poder eclesiástico, militar ou aristocrático. Mesmo pintores extremamente renomados como Jan Vermeer e Diego Velázquez aderiram às guildas, ou seja, associações de classe, como “artesãos”.

Somente quando os comitentes de arte desapareceram no século 19 é que surgiu o mercado livre e o artista passou a se dizer autônomo. Van Gogh trabalhava sem encomendas; só aí é que as pessoas começaram a falar de uma necessidade interna de produzir.

Excluindo o lucrativo e tradicional Salão de Paris, artistas reuniram-se pela primeira vez em 1884 no “Salão Independente”.

Nesse novo mercado sob tendas, valia: quanto maior o escândalo, mais visitantes. É nesse contexto que devemos entender a acusação de que Édouard Manet, em seu O almoço sobre a relva (1863), se submeteu ao gosto das massas. De fato, a exposição atraiu em torno de 5 mil visitantes, porque a burguesia procurava aquilo que não podia ver em casa. Mesmo Paul Cézanne imitou Jean-Auguste-Dominique Ingres pintando odaliscas. Vulgaridade e obscenidade serviam para especular sobre o gosto das massas e um grande público. Não havia nada de independência nisso.

Aí era preciso aumentar a dose e o artista, que se colocava como antiburguês, buscava chocar o burguês: como se dizia na poesia, épater les bourgeois, ou seja, chocar os burgueses – uma submissão desagradável do artista.

Isso quer dizer, portanto, que o mercado trouxe uma radicalização. Mostrava-se a cor absoluta ou uma imagem só em vermelho, azul e amarelo (Alexander Rodchenko, Puro vermelho, puro amarelo, puro azul, 1921) – um programa de redução. Ainda queremos um século de monocromia? A realidade hoje tornou-se tão urgente que precisamos tomar conhecimento dela.

Junto com Bruno Latour, você assinou a curadoria da marcante exposição “Iconoclash: Beyond the Image Wars in Science, Religion and Art“ (Iconoclash: para além das guerras de imagem na ciência, na religião e na arte) e publicou o catálogo que acompanhou a mostra. Você compartilha a tese dele sobre o fracasso da Modernidade?

A Modernidade é um programa de redução. O famoso livro de 1926 de Wassily Kandisnky sobre a Bauhuas chama-se Ponto e linha sobre plano. A arte moderna não é uma arte abstrata, ela é a autorrepresentação dos meios de representação. Baniu-se o objeto e, ao mesmo tempo, com Marcel Duchamp e sua antiarte, levou-se o objeto, o produto manufaturado e a fotografia para a arte.

Toda a arte moderna está sob o paradigma da fotografia e confunde até hoje criação e autoria. Viola-se constantemente o copyright.

Entrevista com Peter Weibel: Autorrepresentação

O fato de um artista como Andy Warhol, que nunca produziu um quadro sequer (suas obras são serigrafias processadas), ser chamado de pintor mostra o poder do incompetente mercado: ele pega imagens da imprensa sensacionalista, celebridades, acidentes, e torna-se com isso bem-sucedido. É o mesmo que faz Jeff Koons.

Assim a arte vai se tornando vulgar e surge a pergunta: isso é arte ou é para jogar fora? Antes, procurava-se o sublime; hoje, quer-se declarar o ordinário como sublime.

No que diz respeito ao iconoclasmo do Estado Islâmico e à destruição de imagens: como se pode explicar a consciência imagética e a crueldade da iconografia?

Na cultura ocidental, a mídia cumpriu sua tarefa de fazer com que as pessoas tenham prazer em testemunhar atrocidades, de preferência com muitos cadáveres. A encenação das imagens cruéis é responsável pelo sucesso do Estado Islâmico. Eles fazem melhor que a TV, aprenderam com Hollywood, são um concorrente no próprio negócio das imagens. E ainda têm a ambição de que se trata de imagens do real. Eles disseminam medo e pavor com imagens nas mídias sociais.

A guerra de imagens é a perpetuação da guerra com outros meios. O Estado Islâmico reconheceu isso. É preciso imaginar que a mídia europeia funciona praticamente como um ministério da imagem do EI. Quando a revista alemã estampa a foto do sírio que queria praticar um atentado em um aeroporto, o terrorista já conseguiu tudo o que queria. Quanto pior a ação, mais fácil você aparecer na capa da Spiegel.  

Nós nos permitimos uma cultura na qual as pessoas foram se acostumando com o nojo. O EI não é o Outro, não é nada além de nós mesmos, ele é nosso espelho. A transfiguração do comum transformou-se na transfiguração do atroz.

A mídia sabe que o público foi vulgarizado. Só é possível mudar essa situação se os próprios cidadãos, os sujeitos, disserem que não querem mais isso. Mas em tempos nos quais até eu, que nem tenho televisão em casa, sou obrigado a pagar taxas compulsórias de financiamento das mesmas, taxas legitimadas pelo Estado, não há nenhuma chance de protestar contra a TV. Fomos todos vulgarizados compulsoriamente. Essa é a ética do feio nos meios de massa.

Os ideais universalistas da Modernidade, defendidos ainda tão fundamentalmente por Jürgen Habermas, não têm mais valor? Estamos diante de uma nova regionalização/tribalização dos valores?

O problema do universalismo é ter negligenciado a questão do pertencimento. Sonhamos, digamos, com o cosmopolitismo, onde todo cidadão deveria ser um cidadão da Terra.

Entrevista com Peter Weibel: O sonho do universalismo

Mas já em função da língua, do gênero e da origem étnica, a nossa vida se constitui sobre os conceitos de filiação e pertencimento. E, se sou incluído, sou ao mesmo tempo também excluído. Sonhamos com um clube no qual todos os seres humanos são sócios, mas não todos sócios do mesmo clube. Idiomas, religiões, etnias etc. formam os respectivos clubes. Quem não fala inglês não pode se tornar membro de uma associação de falantes do inglês. Esse é o sonho do universalismo. Só podemos dizer que somos todos humanos. Mas quando você está na fronteira, a pergunta que chega é: “você é alemão ou estrangeiro”?

Não é possível pertencer a três Igrejas ao mesmo tempo. Nós propagamos a diversidade da natureza, das culturas, da religião como valor (de vida). Quem fala três línguas não é melhor do que aquele que fala uma só. É preciso atingir a igualdade, mas não abolir o pertencimento. O sonho do cosmopolitismo é, no espírito de um cosmopolitismo e da paz eterna (Immanuel Kant), acabar com o pertencimento .

O mundo, no entanto, é composto de diferenças – graças a Deus! Se me entendo como gordo e não como magro, então preciso dizer a mim mesmo – e isso já é difícil o suficiente – que os gordos são tão bons quanto os magros. Temos a tendência de retificar a diferença, e isso com a melhor das intenções. Mas, na realidade, não se pode fazer isso, pois há vítimas e algozes, há homicidas e assassinados. E nós temos também a tendência jurídica de compensar, nos preocupando em certas circunsTâncias mais com os assassinos que com as vítimas.

O que podemos conseguir é reconhecer cada pertencimento como igual quando este corresponder a determinados ideais de vida que um grupo maior considera corretos. Nunca vamos conseguir fazer com que todos os considerem corretos. O sonho de cosmopolitismo do universalismo está calcado em ilusões, está calcado na anulação do pertencimento.

MUSEU 2.0: Qual é o potencial de democratização das novas mídias sob o ponto de vista atual? Você se dedicou a esse assunto, entre outros no seu projeto “YOU: O museu e Web 2.0” e no ensaio “O museu na era da web 2.0.”. Ali, você anunciou um programa que atribui às novas tecnologias  a tarefa de democratizar a instituição museu.

Há 30 anos, havia uma meia dúzia de bienais; hoje, são 120. Os museus eram um gargalo, sempre repetindo a mesma coisa: a arte europeia e norte-americana, o Modernismo clássico e daí por diante. Só lentamente as figuras periféricas também passaram a ser consideradas. Essa forma de cultura elitista não funciona mais, e nesse sentido as bienais desempenham um papel decisivo.

Quero visitantes que transformem o aprendizado e o museu em um laboratório, onde seja possível também relaxar, comer e beber em um lounge. O museu precisa se transformar em um espaço de pensamento e saber, no qual pessoas competentes possam dar aulas. As pessoas poderiam, por exemplo, aprender a programar ali. Por meio das novas tecnologias, temos a possibilidade de modificar o comportamento do público no museu, que não precisa só ficar olhando, como turista, para imagens como se fossem troféus. Hoje, há obras de arte interativas e também tecnologias de RV dentro das quais eu mesmo me movimento e tenho que dar respostas. Os museus deveriam se transformar em laboratórios de aprendizado, nos quais os visitantes sejam pagos pela visita, ou seja, pela formação que adquirem ali.
 

BIOGRAFIA

Em seus diversos ensaios e palestras, Peter Weibel publicou textos sobre arte contemporânea, história da mídia, teoria da mídia, cinema, videoarte e filosofia. Como teórico e curador, ele defende uma arte e uma história da arte que considerem a história da tecnologia e da ciência. Como professor universitário e diretor de instituições durante muitos anos, como por exemplo o Ars Electronica, em Linz, o Instituto de Novas Mídias de Frankfurt, e o Centro de Arte e Mídia (ZKM) de Karlsruhe, Weibel influencia sobretudo a cena europeia da arte ligada ao computador através de conferências, exposições e publicações. (Wikipedia).

O professor universitário Peter Weibel é desde 1999 diretor do Centro de Arte e Tecnologia da Mídia em Karlsruhe.