Festivais de teatro na Alemanha Arte em troca de carvão

Organizados a partir de temas ou programações, por curadores ou jurados, o panorama dos festivais de teatro na Alemanha é muito diversificado. E seu significado para um público-alvo regional, nacional e internacional também é distinto.

Quem quer descrever o circuito alemão de teatro, não começa necessariamente pelos festivais. Ao contrário do que ocorre em outros países, a programação básica de arte dramática na Alemanha ainda é garantida pelos teatros municipais e estatais. Ou seja, por instituições públicas que montam, com uma equipe técnica remunerada de acordo com tarifas negociadas e atores profissionais permanentemente contratados, um repertório de peças que se alternam com regularidade. Além disso, há também na Alemanha uma quantidade cada vez maior de festivais, que muitas vezes se mantêm conectados com a rede de teatros municipais e estatais.

O início

O Festival do Ruhr em Recklinghausen, um dos mais prestigiados festivais alemães de teatro, foi criado em 1946 após uma ação de ajuda aos teatros de Hamburgo. Fornecendo carvão ilegalmente, a mina König Ludwig 4/5 de Recklinghausen tornou possível o funcionamento dos palcos de Hamburgo durante o inverno de 1946/47. Em agradecimento, a Filarmônica de Hamburgo, a Ópera Estatal e o Teatro Thalia apresentaram-se durante vários dias em Recklinghausen no verão de 1947, sob a divisa Kunst gegen Kohle (Arte em troca de carvão). Com um orçamento de cerca de 7 milhões de euros, o Festival do Ruhr é hoje um coprodutor importante para teatros municipais e elencos independentes. Após sua estreia neste festival, que acontece em maio e junho, as produções migram para o repertório dos teatros que se apresentaram ali como convidados, ou fazem turnês por outros festivais.
 
Um papel semelhante de coprodutor é assumido pela Trienal do Ruhr, também sediada na Renânia do Norte-Vestfália. Com subsídios de cerca de 14 milhões de euros, disponibilizados principalmente por fundos estaduais, a Trienal está entre os mais importantes festivais de teatro na Alemanha. Ela acontece todos os anos em agosto e setembro e, a cada três anos, é assumida por uma nova direção. Em contrapartida, o Festival de Bayreuth, que se dedica às óperas de Richard Wagner e conta com um orçamento de cerca de 16 milhões de euros, dos quais apenas 40% são provenientes do setor público, produz exclusivamente para a “Colina Verde”, como é chamado o Teatro do Festival de Bayreuth.

Festivais temáticos

Através da concentração em focos temáticos e da limitação do tempo de duração, os festivais, que em sua maiora são organizados sob a forma de sociedades de responsabilidade limitada (GmbH) e recebem subsídios públicos, são particularmente atraentes para patrocinadores privados. Plataformas com uma mistura de obras canônicas, experimentais e populares, como o Festival do Ruhr, alcançam até 77 mil espectadores. Festivais especializados em temas populares, como o Festival Karl May em Bad Segeberg, atraem até 346 mil espectadores. Muitos desses bem frequentados eventos, como o Burgfestspiele Bad Vilbel, o Festival Bad Hersfeld e o Festival Open Air de Schwäbisch Hall, estendem-se por todo o verão europeu. Entre os festivais mais experimentais, especializados em arte performática, tem destaque o Theaterformen, que acontece alternadamente em Braunschweig e Hannover; e o Festival Theater der Welt (Teatro do Mundo), promovido a cada três anos pelo Instituto Internacional de Teatro em diferentes cidades. Ainda mais que a Trienal do Ruhr ou o Festival do Ruhr, os festivais Theaterformen e Theater der Welt sobressaem-se como eventos conectados internacionalmente.
 
Com a intensificação da cooperação internacional, os festivais contribuem para aquilo que Milo Rau, diretor de teatro e futuro diretor artístico do teatro NT Gent, descreveu recentemente como a utopia de um teatro do futuro: um “teatro popular global” que, a partir do intercâmbio de produções para além das fronteiras nacionais, ajuda as pessoas a compartilharem seus temas e estéticas.
 
O outro lado de tal evolução é a efemeridade. Produções em turnê e eventos temporários podem no máximo constituir uma oferta adicional à contribuição a um cenário teatral florescente, prestada por um teatro municipal fixo de programação regular: a disponibilidade permanente de produções do repertório, através das quais se desenvolve um discurso teatral duradouro na localidade. Enquanto produções de teatros municipais, com atrizes e atores de seu elenco já conhecidos na cidade, são mais alinhados aos interesses do público local, as típicas produções itinerantes dos festivais tendem a certa formalização no que diz respeito ao conteúdo e à estética. Muitas vezes elas funcionam primariamente de maneira sensorial, utilizam pouco texto mas bastante música, têm uma duração regular de no máximo duas horas, pois assim fica mais fácil encaixá-las no programa de um festival. E apresentam suas performances em cenários econômicos e fáceis de transportar. Quanto ao conteúdo, mantêm-se necessariamente esquemáticas e podem ser assimiladas de maneira relativamente independente do contexto. Esse é o preço da mobilidade.

Festivais com programaçõES

Além dos festivais independentes, ainda há um número crescente de festivais com programações ancoradas em teatros municipais ou produtoras. Eles possibilitam  um agregamento de vários temas, fazendo com que o evento se torne mais atraente na hora de ser divulgado fora da região. O Festival Lessing, no Teatro Thalia, em Hamburgo; o Festival de Teatro de Autor, no Deutsches Theater, em Berlim; o Festival Schiller, no Teatro Nacional de Mannheim; e o Festival de Verão, no espaço Kampnagel, em Hamburgo, são alguns dos festivais desse gênero mais reconhecidos fora das regiões onde acontecem. Justamente casas de espetáculos fora das metrópoles, como as da cidade de Mannheim, por exemplo, concedem a esses eventos concentrados a oportunidade de apresentar estéticas experimentais que não conseguem conquistar de antemão um grande público, mas podem auxiliar na apuração do gosto deste público através de influências que vêm de fora, além de possiblitar que ele possa criar suas próprias produções ousadas esporadicamente.

Festivais com júris e curadores

Os principais festivais sempre apresentam novas evoluções e tendências do teatro, sobretudo aqueles que optam por uma seleção de produções extraordinárias: os principais festivais que possuem esse caráter de “vitrine” são o Theatertreffen de Berlim, que, desde 1964, reúne todos os anos, com a ajuda de um júri composto por sete críticos, as dez produções “mais notáveis” da temporada teatral na Alemanha, Áustria e Suíça. E o Festival de Teatro de Mülheim, que tem também um júri de críticos e, desde 1976, apresenta anualmente as mais importantes estreias teatrais. Durante o festival, o júri elege o vencedor do Prêmio de Dramaturgia de Mülheim.
 
Para a cena independente, o Festival Política no Teatro Independente, criado em 1988 e promovido a cada três anos pela Agência Federal de Educação Política, tem um caráter de premiação semelhante. O festival Impulse, criado em 1990 na Renânia do Norte-Vestfália, perdeu um pouco esse caráter desde que substituiu seu júri independente pelo príncipio de curadoria. No setor infantojuvenil, a mostra mais importante é o Festival Augenblick mal, promovido a cada dois anos em Berlim em cooperação com um júri independente.