Residência artística na Colômbia UTOPIAS NA SELVA

O projeto de residência “Utopias na Selva”, em Chocó, na Amazônia colombiana, convida artistas a se envolverem com a região e com a população local. Alguns dos residentes relatam suas experiências.

Oferecido pelo Goethe-Institut na Colômbia, o projeto Utopias na Selva oferece um espaço de reflexão sobre questões sociais e ambientais na América Latina. Desde 2015, artistas convidados passam ali temporadas em contato com a flora e a fauna do Chocó colombiano – região de floresta na costa do Pacífico.

Anualmente, são oferecidas duas residências, uma delas pelo Goethe-Institut da Colômbia, que neste ano foi concedida ao cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul no contexto do projeto Experimenta/Sul. A outra residência é oferecida pela Fundação Más Arte Más Acción (MAMA), junto com o Goethe-Institut, após um processo de indicações por parte de especialistas ou um edital público destinado a artistas de cidadania alemã ou que vivam na Alemanha e que tenham um interesse específico em passar uma temporada na região de Chocó.

Os residentes comprometem-se a contribuir com o Anuário da Fundação MAMA, ou a produzir uma obra de arte. Entre os trabalhos concluídos estão, por exemplo, a instalação 5qm, de  Peter Rühle, e um vídeo da brasileira Lia Rodrigues.

PETER RÜHLE

Peter Rühle Peter Rühle | Foto: Andrés Vélez O artista Peter Rühle viajou mais de 10 mil quilômetros de Berlim até Chocó para se dedicar à selva colombiana com sua cor verde onipresente. A relação especial que ele, como pintor, tem com as cores, reflete-se em seus trabalhos documentais sobre os tons de verde:

“[…] nenhuma distinção, nenhuma construção, somente documentação. Um pedaço mínimo de Floresta Amazônica, de cinco metros quadrados, a uma hora de distância de caminhada da costa, oferece material mais que suficiente: em pouco tempo, são mais de 100 amostras com formas diversas e tons variados no caixote. […]”

A estadia em Chocó convida também a uma reflexão sobre o mundo da arte em Berlim, Londres, Kassel e Nova York:

“[…] Aqui, onde a selva e o oceano se encontram no outro fim do mundo, a distância do circuito da arte no qual eu normalmente me movo é, como se pode imaginar, enorme, tanto mental quanto espacialmente. As guimbas de cigarro e lâmpadas incandescentes de lá, trêmulas e dependuradas em fios tortos, parecem, em sua autorreferência, vazias de sentido, quase ridículas. Como se Pierre Bordieu nunca tivesse escrito A Distinção, ou como se a fábula A roupa nova do imperador não tivesse nada a ver com tudo isso. […]”

Os trabalhos feitos em Chocó foram expostos em Bogotá após o período de residência do artista.

Robert Lippok

Peter Rühle y Robert Lippok Peter Rühle y Robert Lippok | Foto: Andrés Vélez “Para mim é difícil articular em palavras o que foi minha estadia em Chocó. Poucas vezes na vida tive um medo tão grande, sozinho em casa à noite, a 100 metros de distância da praia, na beira da selva. Mas também poucas vezes a beleza da natureza me foi revelada com tamanho poder. No dia de sair dali, fiquei perplexo, desmoronado, sem palavras.

Contar com a companhia de Ana Garzón Sabogal, da Más Arte Más Acción, que acompanhou a viagem, foi uma bênção. Eu tinha tantas perguntas: sobre o contexto político, sobre a mudança climática que é perceptível também em Chocó, sobre a situação da população indígena... Muitas dessas perguntas ela soube responder; para outras ela achava alguém que sabia.

Meu tempo ali foi curto e intenso. Até hoje, sinto como se uma parte de mim tivesse ficado ali, à noite, olhando para o Pacífico, ouvindo tempestades à distância.”

Robert Lippok é músico e artista plástico. 

Lia Rodrigues

Lia Rodrigues Lia Rodrigues | Foto: Andrés Vélez A coreógrafa Lia Rodrigues procurou o diálogo entre os moradores da aldeia da residência artística de Chocó e os da Favela da Maré, no Rio de Janeiro.  Enquanto o estado de Chocó abriga metade da Amazônia colombiana, na favela carioca faltam espaços verdes e árvores. Maré cinza, Chocó verde – entre esses dois opostos é que Lia Rodrigues localiza sua criação artística, que é a nova peça de sua companhia de dança.

CAROLA CAGGIANO e ANTONIA BAEHR

Dibujo de una banana de la variedad felipita, de Antonia Baehr Dibujo de una banana de la variedad felipita, de Antonia Baehr | Foto: Andrés Vélez A “banana global”, o mundo todo conhece, e ela pode ser vista em qualquer supermercado europeu. Mas em Guachalito, na região de Chocó, onde a selva desemboca no Pacífico, crescem outros tipos de bananas, como por exemplo a primitivo, a felipita ou a mambule. Ali, essas bananas são, ao lado do peixe, o principal alimento de subsistência, desempenhando também um papel importante em termos de identidade e cultura da região. As artistas Antonia Baehr e Carola Caggiano quiseram devolver a multiplicidade à banana em desenhos feitos, entre outros, com lápis encontrados na cabana onde ficaram em Chocó.

SEBASTIAN MESCHENMOSER



O artista plástico Sebastian Meschenmoser encontrou na selva de Chocó o sapo mais venenoso do mundo, a terrível rã dardo venenoso, que vive na região. No percurso de barco para a aldeia de Coquí, onde ia dar aulas de desenho às crianças da escola local, Meschenmoser se deparou também com baleias e golfinhos. Durante a residência, o artista ficou impressionado acima de tudo com a forte influência da natureza no seu dia a dia: as intempéries climáticas definem grande parte da agenda diária, e o tempo úmido amolece o papel, tornando difícil o ato de desenhar. Sendo assim, ele passou muito tempo fotografando e coletando histórias dos moradores locais. “Depois que você passa um tempo ali, você começa a acreditar nas anedotas mais insólitas”, recorda o artista.

A estadia de Sebastian Meschenmoser foi organizada pelo Departamento de Biblioteca do Goethe-Institut na Colômbia.

Apichatpong Weerasethakul

Apichatpong Weerasethakul Apichatpong Weerasethakul | Foto: Andrés Vélez O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul aproveitou a residência artística como ponto de partida para uma pesquisa fotográfica na Colômbia. Seu enfoque foi a diversidade da interseção entre arte e ciência. A partir da cor como fundamento técnico, Weerasethakul dedicou-se em sua pesquisa à coleta, à documentação e ao arquivamento. Suas impressões de Chocó e de outras regiões da Colômbia serão o ponto de partida para seu próximo filme.

REGINA DE MIGUEL

Regina de Miguel Regina de Miguel | Foto: Regina de Miguel “Comecei a amar o abismo do qual sou constituída.

O propósito deste projeto é a realização de um experimento audiovisual, que deve adentrar a realidade psíquica do território.

Chocó como cenário nos mostra até que ponto as relações com a terra podem ser entendidas como relações sociais de trabalho e exploração. Isso lembra as características do capitalismo industrial do século 19 e ao mesmo tempo o capitalismo digital do século 21 – como era da geopolítica, marcada pela busca de energia e recursos materiais para a produção de aparelhos de comunicação”.

Regina de Miguel, espanhola radicada em Berlim, é a artista residente em Chocó no momento. Ao fim de sua residência, um evento com exibições de seu trabalho acontecerá no Jardim Comunitário e Educativo 82, anexo do Goethe-Institut na Colômbia.