EPISÓDIOS DO SUL NOVA(S) PERSPECTIVA(S)

A descolonização do pensamento é uma das metas declaradas dos “Episódios do Sul”. O projeto do Goethe-Institut na América do Sul reúne vozes diversas e torna visíveis as perspectivas do Sul Global. Durante a Trienal do Ruhr, artistas, sociólogos e historiadores da arte encontraram-se no espaço cultural PACT Zollverein, a fim de dialogar com objetos, abordando o tema tanto pelo viés da arte quanto pelo da música.

No meio do teatro de arena está um vaso, supostamente de barro. Nele estão reproduzidas imagens de animais e outras figuras, talvez deuses. Um artefato arqueológico ou um aceno do futuro? Um vaso, uma relíquia dos Maias, um presente para o Menino Jesus, uma caixinha de moedas de outros países? Durante as “Conversas com objetos”, especula-se com animação, às vezes de maneira concentrada e objetiva, outras vezes de forma serena e pessoal. São pesquisadores, performers, músicos e escritores/jornalistas – todos aqui praticando a livre associação. O Goethe-Institut e o espaço cultural PACT Zollverein são os responsáveis pelo convite a experimentar uma história global da arte através de formas diversas de leitura.
 

  • Johannes Ebert, Secretário-geral do Goethe-Institut, com a palavra Foto: Jana Mila Lippitz
    Johannes Ebert, Secretário-geral do Goethe-Institut, com a palavra
  • Copo de iogurte ou vaso? Há associações diversas com relação ao objeto Foto: Robin Junicke
    Copo de iogurte ou vaso? Há associações diversas com relação ao objeto
  • Varna Marianne Nielsen, da Groenlândia, na percussão Foto: Robin Junicke
    Varna Marianne Nielsen, da Groenlândia, na percussão
  • Participantes analisam juntos os objetos Foto: Robin Junicke
    Participantes analisam juntos os objetos


Para um ator da Groenlândia, o vaso lembra um copo de iougurte. Um músico irlandês gostaria de ouvir o som da bacia. Uma jornalista alemã faz perguntas ao objeto. E uma professora sul-africana reflete sobre quem possivelmente construiu o mesmo: uma mulher jovem, seus sonhos e motivos. As formas de enxergar esse objeto de arte, até então desconhecido, são tão diversas como as pessoas que o questionam, com suas culturas, origens, formações e experiências de vida.

SALVAÇÃO DA EUROPA EM VISTA

“Não há nenhuma forma genérica de analisar e avaliar”, afirma Katharina von Ruckteschell-Katte, diretora do Goethe-Institut São Paulo e idealizadora do projeto “Episódios do Sul”. Um dos objetivos é tornar visíveis várias perspectivas. Hábitos de pensamento ocidentais podem ser rompidos, ampliados ou enriquecidos de maneira absolutamente radical. E Ruckteschell-Katte vai ainda além: “Queremos nos posicionar. Meu sonho, talvez um pouco idealista, é a salvação da Europa”. A salvação pela diversidade.

Os “Episódios do Sul” começaram a acontecer há três anos e desde então seguem em turnê por diversos lugares do mundo. Além das “Conversas com Objetos”, aconteceram também mesas-redondas de discussão sobre o futuro dos museus, uma conferência em vídeo sobre Afrofuturismo, uma exposição sobre línguas ameaçadas e shows de música de protesto. Durante a Trienal do Ruhr, no “Episódios do Sul – the other way around”, participantes de vários episódios encontraram-se pela primeira vez em uma confluência de contextos sociais, bem como de impressões artísticas e de reflexão. No decorrer de três noites, houve prática, em formatos diversos, de trocas de perspectiva, evidências de diversidade e participação.

XAMANISMO E PERCUSSÃO

O sociólogo brasileiro Laymert Garcia tem experiência com a superação de fronteiras geográficas e culturais. O professor universitário de São Paulo trabalha junto aos povos Yanomami na região amazônica, tendo desenvolvido entre 2006 e 2010 uma ópera com os xamãs locais. Em diálogo com Varna Marianne Nielsen, Garcia sondou, no palco do PACT, as singularidades da linguagem musical dos povos inuítes. Nielsen é uma xamã e música natural da Groenlândia, tendo levado ao debate o tambor tradicional de um amigo. Ao tocar o instrumento, seu corpo todo se movimenta, ou seja, seu corpo fala. É o batimento cardíaco individual do músico que determina o ritmo, explica Nielsen. E isso dificulta também a notação musical, conta ela ao responder a uma pergunta do público.

Os “Episódios do Sul” possibilitam um acesso direto e sem barreiras a culturas com as quais as pessoas de forma geral têm pouco contato na Alemanha ou na Europa. Com isso, essas culturas vão se tornando mais disponíveis, mais palpáveis, mais aplicáveis.