IMAGENS DA MEMÓRIA “LA SOLEDAD”: UM CARANGUEJO DIFERENTE

Calle 39, La Soledad, Bogotá, Kolumbien
Foto: Maru Lombardo, 2017

Na série “Imagens da memória”, lugares com significado especial são lembrados por diversos autores. A poeta e romancista colombiana Gloria Susana Esquivel reflete sobre o tradicional bairro de Bogotá: La Soledad.

Viver pode gerar claustrofobia. Os espaços que habitamos são cada vez menores. No século 20, Bogotá, a cidade na qual nasci, continuava tendo bairros tradicionais com casas em estilo inglês e jardins na frente. Nelas viviam famílias como a minha: grupos de dez pessoas que conviveriam ali até decisão em contrário. Desde que me mudei de um desses bairros, cada lugar novo onde vivo me parece... menor. Literalmente.

A maior casa em que morei até hoje foi aquela onde vivi com meus pais, meus avós e meus tios quando era pequena. A casa ficava (e continua lá) em La Soledad, um bairro tradicional de Bogotá, entre as ruas 26 e 45 e as avenidas 30 e 19. Vivi ali até 1991. Naquele tempo, nunca senti que a casa fosse sequer um lar, visto que Bogotá é uma cidade que te põe à prova todo o tempo. Isso para não falar em como é, em geral, para as crianças.

Lembro-me de La Soledad como um bairro um pouco estranho para uma criança, pois não tinha muitos parquinhos, por exemplo. Hoje, há o Park Way, a avenida 24: um grande jardim urbano que é, sim, uma área muito verde, mas não é um local com brinquedos para crianças. Além disso, é um lugar para pensar... e pensar sobre o que pensam as crianças é algo sobre o que escrevo hoje. Mesmo que La Soledad fosse tranquilo, não cheguei a viver seu auge como bairro, digamos. Já minha mãe e minhas tias, que também passaram a infância ali, sim: sua experiência social começou no quarteirão, nas ruas ao redor, em uma pluralidade que separava La Soledad de outros bairros.

Tempos depois, comecei a estudar na universidade. O bairro, o meu bairro, converteu-se em um ambiente excelente, porque era cheio de cafés, de jovens universitários, de cineclubes com bares, de teatros…! Tudo estava ao alcance, era só virar a esquina. Aí sim foi um lugar inspirador para crescer. Hoje, ao contrário, quando vou a La Soledad, sinto muita saudade de algo que já não mais me pertence. Em Bogotá, uma cidade em que não se costuma  cuidar muito de seu patrimônio arquitetônico, La Soledad continua destacando-se por suas casas de estilo inglês e suas residências datadas do início e de meados do século 20. Por fora, ainda se parecem com o que conheci quando menina. Mas, por dentro, elas agora abrigam call centers, mercearias, cafés, bares, escritórios, sedes de partidos políticos. Ao lado da casa onde cresci, funciona agora um estúdio de pole dance. Vejo que as casas da minha infância continuam lá, mas por dentro mudaram muito. São como caranguejos que trocam de casca, deixando-a para trás para servirem de abrigo a outro animal diferente.

O ambiente de La Soledad continua tranquilo, mas o bairro já não é mais tão residencial como antes. É um equilíbrio estranho. Os vizinhos agora são os funcionários dos escritórios. Sendo assim, a vida do bairro acaba cedo. Às seis da tarde já estão todos voltando para casa. E tudo fica um pouco... solitário.

Irei sempre escrever sobre essas casas e essas ruas. Elas mudaram muito minha pespectiva de espaço. Ter vivido em uma casa tão grande ou ter estado em um lugar tão urbano desde tão pequena me fez entender a cidade a partir de outro ponto de vista. Estou sempre explorando essas estruturas, essas atmosferas que existiam nessa casa, esses espaços que, sinto, vão se estreitando cada vez mais sobre nós. Agora, “perder-se” em uma casa com uma arquitetura antiga e ampla, de três ou quatro andares, é algo que não acontece mais com frequência. Agora há apartamentos cada vez mais funcionais e pequenos. E muito mais caros. Estou em uma cidade na qual se criam sempre novas formas de habitação: basta olhar os prédios de tijolos aparentes do final dos anos 1990 e os de vidro com “toque Miami” do fim dos 2000.

E La Soledad é uma margem que só posso tatear quando a descrevo.
 

Gloria Susana Esquivel é uma escritora colombiana nascida em Bogotá. Foi editora online da revista Arcadia, é mestre em Escrita Criativa pela Universidade de Nova York (NYU) e autora do volume de poesia O lado selvagem (2016) e do romance Animais do fim do mundo (2017).