BLOCKCHAIN A CORRENTE SEM ELO FRACO

Blockchain
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Blockchain não é apenas a tecnologia por trás da criptomoeda Bitcoin, mas pode vir a revolucionar muitas esferas de nossa vida cotidiana. Mas o caminho até lá ainda é longo.

Usando o motor de busca Google, tente descobrir se a Terra é plana. Apesar de a resposta a essa pergunta ser um simples não, logo encontramos opiniões contrárias. O motivo disso? A internet é descentralizada, tanto em sua organização quanto em sua lógica. Há várias vantagens no fato de ela não se submeter a nenhuma instituição, mas isso também gera a consequência de ninguém garantir as informações achadas.
 
A maioria dos Estados é organizada ao contrário: sua lógica e organização são centralizadas. Isso quer dizer que estão submetidas a uma instituição (governo), que é responsável pelos conteúdos e determina os processos (através de leis, por exemplo). Outros sistemas têm uma organização centralizada e uma lógica descentralizada. São administrados por uma instituição, mas permitem a utilização individual. Esse é o caso de um arquivo Word, por exemplo, que pode ser processado diferentemente em cada computador, usando o mesmo software. Os processos são determinados pelo programa, os conteúdos, processados individualmente por cada usuário.
 
Essa é a teoria de sistemas, como a vivenciamos no dia a dia. A quarta opção – um sistema com lógica centralizada e organização descentralizada, independente, mas, apesar disso, confiável – era desconhecida até agora. Mas então apareceu a blockchain, o protocolo de confiança.

QUANTO MAIOR A REDE, MAIS SEGURA A BLOCKCHAIN

A blockchain é basicamente uma corrente infinita de dados. Ela registra e armazena tudo o que acontece no sistema, como um sistema de contabilidade. Pode se tratar de transferências de dinheiro, registros de imóveis ou fechamentos de contratos. A particularidade numa blockchain é que essas informações não são armazenadas num server local, como de costume, mas simultaneamente em vários computadores de uma rede. É por isso que essa tecnologia é especialmente segura: para falsificar as informações, seria necessário hackear não um server apenas, mas muitos servers. Quanto maior a rede, mais segura a blockchain. Ao mesmo tempo, a blockchain é particularmente transparente, pois todos os usuários da rede têm acesso às informações.
 
A organização das blockchains é, portanto, descentralizada, mas a lógica é central: em suas transações, todos os usuários estão submetidos às mesmas regras. No caso da criptomoeda Bitcoin, as transferências entre dois usuários, por exemplo. Assim que uma transação é registrada na blockchain – e, assim, em todos os computadores da rede –, ela não pode mais ser modificada. Cada computador verifica se a transação está de acordo com as regras, para que apenas transações legais possam ser efetuadas na rede. Assim, a blockchain torna possível uma “contabilidade comum” precisa, sem nenhuma instância administradora central.
 
Muitos especialistas consideram a tecnologia blockchain revolucionária, pois ela é considerada transparente e segura contra manipulações. Sobretudo os especialistas em segurança de dados estão entusiasmados. As áreas em que ela poderia ser aplicada vão muito além da Bitcoin e outras criptomoedas: de contratos inteligentes, passando por licenças à prova de falsificação, até pastas de documentos eletrônicos seguros. Imagine-se, por exemplo, as implicações de um intercâmbio de dados impecável e privado entre médicos, farmacêuticos e seguros de saúde para a medicina e a economia. Ou as eleições do futuro, absolutamente à prova de falsificações, graças à blockchain.

 

QUANTO MAIS TRANSAÇÕES, MAIS ALTAS AS TAXAS

Mas será que em breve as blockchains farão parte de nosso cotidiano? Segundo especialistas, antes que isso aconteça, é preciso corrigir algumas falhas. Isso diz respeito sobretudo ao crescimento do sistema: se o número de transações numa rede aumenta mais rápido que o potencial de processamento disponível, gera-se um congestionamento de dados. Quem possui Bitcoins conhece esse problema. Para impedir congestionamentos de dados causados por um excesso de transferências pequenas, a criptomoeda introduziu uma taxa de transação: quanto mais taxas um usuário paga, melhor sua transação é classificada em termos de prioridade e mais rápido ela é confirmada. Visto por outro lado, isso significa que, quanto mais transações, mais as taxas sobem. Assim, no caso da Bitcoin, ninguém fala mais da transferência praticamente gratuita um dia tão elogiada – em meados de 2017, uma  transação custava em média cerca de sete euros.
 
Além disso, as blockchains são lentas quando comparadas, por exemplo, a uma transação via cartão de crédito. As criptomoedas mais rápidas conseguem efetuar um máximo de 20 transações por segundo, no caso da Bitcoin, são apenas de três a sete. Em comparação com as 1.700 transações efetuadas pelo Visa nos Estados Unidos a cada segundo, isso é bem pouco. Outro ponto fraco da blockchain é o alto consumo de energia. Os dados são muito divergentes, mas o cálculo divulgado em novembro de 2017 pelo  criptoanalista Alex de Vries dá pelo menos uma ideia: segundo suas estimativas, o consumo de energia de uma única transação de Bitcoin é de cerca de 222 quilowatts-hora, o que pode ser equiparado ao consumo mensal de energia de uma casa com um habitante na Alemanha. Nesse aspecto, o cartão de crédito ainda é dez mil vezes mais eficiente.
 
No quesito segurança, a ameaça em potencial mais eminente é o chamada “ataque dos 51%”. A rede descentralizada protege, sim, contra ataques externos, mas o sistema pode ser desvirtuado por dentro. Se alguém conseguir assumir o controle sobre mais da metade da capacidade de processamento de uma rede de blockchain – ou seja, os 51% citados, – poderá manipular ou apagar os dados de transações a seu bel prazer, pelo menos em teoria. Portanto, o perigo para as blockchains está menos em elos fracos do que naqueles que ameaçam ficar fortes demais.
 
Apesar dessas inseguranças, as blockchains têm sem dúvida o potencial de revolucionar o futuro da economia, da comunicação e da administração. Não é à toa que os bancos estão investindo bilhões em pesquisas sobre a tecnologia e preparando suas próprias criptomoedas. Mas não se pode afirmar com segurança se as blockchains realmente vão emplacar como modo de pagamento para outros objetivos. Alguns especialistas já dizem que as blockchains logo poderão ser ultrapassadas por uma tecnologia ainda mais nova, a chamada tangle. Tangle seria mais rápida, mais estável, mais segura e, ao mesmo tempo, livre de taxas, anunciam equipes de desenvolvedores que estão testando o sistema com a criptomoeda Iota. Mas quem acha que isso tudo está indo rápido demais pode ficar sossegado: ainda vai demorar um tempo até que blockchains ou tangle façam parte de nosso cotidiano.