Transit Beben Sem dueto com David Hasselhoff

Encenação de Patrícia Fagundes
Encenação de Patrícia Fagundes | Foto: Adriana Marchiori

A peça apocalíptica “Tremor”, de Maria Milisavljevic, chega ao Goethe-Institut Porto Alegre com duas estreias. O início fica nas mãos de Patrícia Fagundes, com seu grupo de teatro; a seguir, vem a versão de Lucca Simas. Em entrevista, Milisavljevic fala sobre essa peça que aborda a constituição do mundo nos dias de hoje, além de temas como migração, guerra e fuga da realidade.

De onde veio a inspiração para escrever “Beben” (Tremor)? 

As inspirações para minhas peças vêm, geralmente, de momentos ou acontecimentos com uma forte carga emocional. Beben surgiu no verão de 2015. Era meio-dia, quando olhei pela janela e avistei um grupo de jovens sentado debaixo da nossa nogueira, na calçada. Achei que eram escolares e fui oferecer a eles algo para beber. Quando me aproximei, vi que eram refugiados. Provavelmente tinham sido largados ali nas proximidades por um desses coiotes e se perdido. “Polizia”, falou um. Outro mostrou o seu telefone celular. As garrafas de água que eles traziam estavam vazias e tinham rótulos da Hungria. Eles não tinham comido nem bebido mais nada desde a Hungria.

Ensaios da encenação de Lucca Simas Ensaios da encenação de Lucca Simas | Foto: Alexandre Dill

“O que os diretores fazem com meu texto é problema deles”

Você traduziu “Um Inimigo do Povo“, de Ibsen, para o Tarragon Theatre, de Toronto. Em entrevista, contou que o texto sofreu várias interferências durante os ensaios. Até que ponto um tradutor, ou mesmo o diretor, pode ou deve interferir no texto original?

Quando eu mesma traduzo meus textos, interfiro bastante neles. Meus textos são frequentemente local e temporalmente situados, por isso gosto de adaptá-los para cada produção. Culturas teatrais mais assentadas num "teatro de diretor" [Regietheater], como as do continente europeu e da América do Sul, preferem ter como base os textos literais e deixar que os diretores façam suas interferências no texto. Nesse caso, os tradutores mantêm-se bem próximos ao original. O que os diretores, então, fazem com meu texto é problema deles. Uma intromissão por parte do dramaturgo pode inibir muitas coisas interessantes
 
As montagens em Porto Alegre serão as primeiras em que vou assistir Beben numa língua que eu não falo. Isso é instigante, porque vou precisar confiar na minha intuição e decifrar expressões e gestual. Personagens e suas interrelações ganham subitamente novos significados, uma vez que sua dinâmica se revela diferente. Essa expectativa me deixa entusiasmada.

Pergunta da diretora Patricia Fagundes: Que diálogos você imagina no contexto brasileiro?

Beben contém muitas referências a momentos concretos do cotidiano - jogos de computador, guloseimas de infância, aspectos da vida das crianças [nos anos 1980], acontecimentos mundiais reais, como terremotos, ou fatos políticos, como as reações da chanceler alemã Angela Merkel ante a queda de um avião na Ucrânia. Todos esses elementos fazem parte de uma mirada muito subjetiva. Da perspectiva brasileira, o supermercado sem embalagens no Görlitzer Park de Berlim não é importante. Um diálogo envolveria perguntas como: Quais as narrativas que nosso tempo, nosso agora simula nesse lugar onde vivemos? Do que sentimos saudade? Algumas coisas talvez sejam universais, outras se tornam mais instigantes e relevantes pela especificidade: nem todo mundo no Brasil desejaria cantar em dueto com David Hasselhoff.

Encenação de Lucca Simas Encenação de Lucca Simas | Foto: Julio Appel

“Fake e realidade são, no mundo virtual, uma e a mesma coisa”

Pergunta do diretor Lucca Simas: Como você vê a relação entre o real e o virtual?
 
É amedrontador. O virtual não é somente um espaço de refúgio, mas também um espaço à margem da lei, nivelador, um espaço arbitrário, à margem da verdade. Fake e realidade são, no mundo virtual, uma e a mesma coisa. O indivíduo percebe tudo de forma equivalente. Uma delimitação de "autêntico" e "verdadeiro" - assim como nós podemos defini-los no cotidiano, muitas vezes a partir de uma sensação, de intuição ou de experiências - tornou-se impossível. Nós somos manobráveis. Estamos à mercê. Somos controláveis. Por algoritmos que nos fazem acreditar que podemos confiar neles, porque eles nos conhecem melhor do que nossos pais ou nós mesmos nos conhecemos (ou por que será que aparece essa propaganda idiota no Facebook sempre no momento exato em que acabei de pensar justamente nesse produto?). Eu acho também que a explosividade disso se manifesta de fato no plano geopolítico. Não apenas no que tange o direito e a responsabilidade e espaços à margem da lei, mas na sua influência política concreta. Eu espero que nós comecemos cada vez mais a ver também chances nessa homogeneização global. Como no caso do #metoo, que conseguiu encontrar seu poder primeiro no mundo virtual, de onde foi levado mundo afora.

Entrevista feita por Michele Rolim e Renato Mendonça, com perguntas da diretora Patricia Fagundes e do diretor Lucca Simas 

A entrevista completa foi publicada na palataforma online AGORA.