Salão dos Quadrinhos de Erlangen Janela para a realidade

Kazoom!
© Colourbox / Ania Velichkovsky

O Salão dos Quadrinhos de Erlangen dedicou-se, em sua última edição, ao jornalismo em quadrinhos. A linha divisória dentro desse gênero transcorre, conforme está se consolidando, entre o jornalismo engajado e o inventário etnográfico. Mas lá também havia trabalhos de Dorothée de Monfreid, Paolo Bacilieri e Jeff Lemire para serem descobertos. E, acima de tudo, o Salão dos Quadrinhos ensinou o respeito pelo rabisco, pelo esboço e pelo primeiro desenho passado a limpo.

Os maiores festivais de quadrinhos acontecem em cidades de menor porte. Isso vale, pelo menos, para os de Angoulême, Lucca, Lucerna e Erlangen. É interessante notar que praticamente todas essas cidades europeias caracterizam-se por seus centros históricos com um grande número de construções antigas.

Fun_Paolo Bacilieri © Avant-Verlag Que o formato pequeno combine melhor com um ambiente também pequeno, é um fato que parece plausível. Para os amigos do formato pequeno, isso tem ainda maior relevância, já que a comunidade dos amantes dos quadrinhos vive em um universo no qual, embora nem todo mundo conheça todo mundo, praticamente cada um conhece muitos dos outros. Isso fez com que o jardim do Castelo de Erlangen, durante o festival, desse a impressão de ter sido ocupado temporariamente por membros de alguma espécie em extinção. Havia também visitantes vestidos como se tivessem saído de dentro dos quadrinhos, não necessariamente deste mundo. De qualquer forma, eles pareciam menos parados no tempo que os veteranos do que se chama de “nona arte”: colecionadores, comerciantes e artistas que se movimentavam entre os canteiros de suspensórios e camisetas com estampas. (A tentativa de levar os festivais de quadrinhos para as metrópoles: Berlim, em 2002 e 2003, e Munique, a partir de 2007, nunca teve muito sucesso. Fazem falta lá o circuito fechado, o itinerário curto e a reprodução de um mundo pequeno em condições tais que os envolvidos possam observar a si mesmos).

Que os festivais de quadrinhos busquem um cenário histórico, é um fato interessante, já que se cria aí um anacronismo que se transforma em lucro para os dois lados. As tendas brancas em frente ao jardim do castelo, os banners super coloridos do Salão em frente ao Palácio Stutter e ao Stadtmuseum e os diversos pôsteres e estandes são, de certa forma, a melhor arte para o espaço público, já que desaparecem da paisagem urbana depois de um curto espaço de tempo. E porque criam, por alguns poucos dias, um sistema de estações e referências que proporcionam um momento de saber secreto. Por outro lado, o cenário histórico acrescenta aos quadrinhos algo que nada tem a ver com “profundidade” ou “história”, formando uma película na qual os contornos dessa “nona arte” aparecem de forma mais nítida. (O fato de o Salão dos Quadrinhos se espalhar pelo centro da cidade continuará, contudo, sendo uma exceção. O Centro de Convenções, onde o festival aconteceu entre 1984 e 2016, está fechado para reformas, encontrando-se por isso inutilizável, mas em dois anos será reaberto).

O Salão dos Quadrinhos é heterogen. E está menos atrelado a um foco temático que a maioria dos festivais. Há uma exposição principal, que em 2018 foi sobre jornalismo em quadrinhos, e há outras mostras retrospectivas, monográficas, idiossincráticas. E às vezes apresentam-se séries, como a intitulada Die Unheimlichen (Os sinistros), m cinco volumes a serem publicados pela editora Carlsen sob a tutela de Isabel Kreitz, que junto de outros quadrinistas adaptou histórias de fantasmas. Isso não tem nada a ver com cultura alta e baixa, visto que as histórias de fantasma nunca estiveram, em momento algum, sob suspeita de serem consideradas algo sofisticado. E as belas adaptações de Der Fremde (O estranho, de Elfriede Jelinek/Nicolas Mahler), Berenice (de Edgar A. Poe/ Lukas Jüliger), The Water Ghost of Harrowby Hall (John K. Bangs/Barbara Yelin), entre outros, deixam claro que o aspecto sinistro aqui é tratado como deveria, ou seja, como um projeto para entusiastas do gênero que dão valor ao um design esmerado.

Sweet Tooth_Jeff Lemire © Vertigo Monfreid principalmente para livros infantis. (O crocodilo continua ofendido, mas, nesse caso, não se pode fazer nada.) No Pavilhão A: os encantadores quadrinhos, cartões-postais, estampas e livros sanfonados de Rotopol, cuja fauna tem de toda forma um parentesco com Monfreid. Num espaço anexo ao Salão Redoute, a diversidade atordoante dos quadrinhos canadenses (Toronto também tem um Comic Arts Festival). E, no próprio Salão, o mundo muito obscuro e rico de Jeff Lemire, que perpassa com sua obra diversos gêneros, apresentando, com o absolutamente sombrio Sweet Tooth (Vertigo, 2010 até 2013), um resumo provisório de Canadiana. No Pavilhão C: um artista muito jovem, cujos desenhos e estampas são uma homenagem a Jiro Taniguchi, morto em 2017. E, no estande da editora avant, a obra enigmática e fascinante Fun, de Paolo Bacilieri, que acaba de ser traduzida para o alemão.

Com o fim do Salão dos Quadrinhos, as descobertas se dispersam em todas as direções. Somente a exposição Zeich(n)en der Zeit: Comic-Reporter unterwegs (Desenhos/Signos dos tempos: repórteres quadrinistas nas ruas) ficou aberta ao público de 27 de maio a 26 de agosto de 2018, podendo ser visitada tanto por excursões de escolares quanto no contexto de programações de férias. Como representantes do jornalismo em quadrinhos, destacam-se aqui, como em toda parte, Joe Sacco e Guy Delisle. Mas também: Olivier Kugler, Bo Soremsky, Patrick Chappatte, e ainda Sarah Glidden, Viktoria Lomasko e Ulli Lust, cujas "minirreportagens" sobre o dia a dia berlinense são uma janela de tempo para uma realidade que está em vias de desaparecer dez anos mais tarde. (Um favorito: as miniaturas do centro comercial Gesundbrunnen no bairro Wedding de Berlim: escadas rolantes e vitrines, portas giratórias e promoções especiais com clientes esgotados perambulando no local, bem como algumas figuras que acabaram se acomodando, com o passar do tempo, entre os vasos de plantas e os cantos das lanchonetes).


Os senhores Sacco e Delisle são mais conhecidos do público. E possuem, na escolha de suas locações, orientações claramente distintas. Ambos têm interesse pela materialidade do cotidiano, embora se trate, na boa tradição do jornalismo de imagens, do dia a dia de países distantes (no caso de Delisle), ou de regiões de crise (no caso de Sacco). Ambos cartografam e comentam, reconhecendo o lugar depois de um longo tempo e, com mais (Delisle) ou menos (Sacco) distância, relatam o que veem. Se houvesse o desejo de traçar uma linha divisória nessa exposição “sobre repórteres”, ela não passaria pela distinção entre desenhistas homens e mulheres, ou entre cenários distantes e muito próximos. O que consolida muito mais, de "Palästina" (Joe Sacco, a partir de 1993) a "Ilakaka" (Bo Soremsky, 2013), é a diferença entre um jornalismo engajado, que pode também assumir a forma partidária e de intervenção, e um registro de viés etnográfico, que aborda, além da vida material, sobretudo a posição do observador.


Geisel_Guy Delisle © Reprodukt A observar: O canadense Delisle começou com isso nos anos 1990, quando trabalhou em estúdios de animação na China ("Shenzhen") e na Coreia do Norte ("Shenzhen") e Nordkorea ("Pjöngjang") Os quadrinhos que abordam esses cenários documentam menos o dia a dia in loco e mais o cotidiano do visitante que passa ali apenas um tempo e se interessa por aquilo que ele não conhece, gostando de desenhar o que ele não entende: uma perspectiva que continua em  "Crônicas de Birma" und "Crônicas de Jerusalém", já tendo se tornado há muito a marca registrada de Delisle. Há evidentemente também trabalhos introspectivos e autobiográficos, como por exemplo o muito cômico Guide du mauvais père (Guia do pai malvado), publicado desde 2013 em série avulsa pela Dargaud. E um livro excepcional: S'enfuir. Récit d'un otage (Narração de um refém), que, a partir dos relatos de um funcionário da organização Médicos Sem Fronteiras, fala de 111 dias no cativeiro na Chechênia na condição de refém.

Quando se trata de Delisle, a postura padrão é: não saber exatamente o que está acontecendo. Ou qual a razão do conflito. Ou qual a melhor forma de se comportar. Por essa razão, ele é bastante bem-visto no ambiente acadêmico e está mais próximo de trabalhos de Glidden, Kugler e Soremsky do que Joe Sacco, que nunca conseguiu se livrar de vez da fama de repórter indignado. Sarah Glidden, que ficou conhecida com Entendendo Israel - em 60 dias ou menos, obra que gira em torno de uma viagem de estudos cheia de conflitos, acompanhou em 2016 uma equipe de repórteres pela Turquia, Síria e Iraque, tendo criado por fim os quadrinhos Im Schatten des Krieges (À sombra da guerra). Olivier Kugler faz ilustrações para o MSF, mas também para o Süddeutsche Zeitung, The Guardian e The New Yorker, da mesma forma que Glidden na posição de um observador de segunda ordem que prefere se mover na esteira dos viajantes experientes. Ilakaka, trabalho de Bo Soremsky, integra uma reportagem transmidiática feita para a emissora Arte. Como a série The Last Phone Call, de Patrick Chappattes, feita para o site do New York Times, ela coloca o repórter-desenhista na imagem sem fazer muito alarde em torno dele.

Wie ich versuchte_Ulli Lust © Suhrkamp A exposição documenta ainda o fato de que essas reportagens são, há muito, transmidiáticas (sites, filmes, quadrinhos, cooperações com jornais e emissoras), mas também se esforça para apresentar aquilo que mostra não apenas como produtos da mídia, e sim também cada passo do trabalho. O respeito pelo rabisco, pelo esboço e pelo primeiro desenho passado a limpo está entre os aspectos que fazem exposições sobre quadrinhos parecerem quase sempre simpáticas, com muita sensibilidade para as etapas do trabalho (work in progress) e também algumas paredes dedicadas aos resultados provisórios, que, também no caso de Erlangen, poderiam até ser sido exibidos em maior volume. De qualquer forma, a mostra Zeich(n)en der Zeit (Desenhos/Signos dos tempos) transmite uma impressão do espaço de tempo que determina o jornalismo em quadrinhos – como cooperação, projeto, viagem e arte manual – e que define seu sucesso crescente mais do que questões de pesquisa e representatibilidade.

Os prêmios? Eles são em Erlangen menos importantes que em Angoulême. Mas Wie ich versuchte, ein guter Mensch zu sein (Como tentei ser uma boa pessoa, melhor quadrinho de língua alemã), de Ulli Lust, não é menos interessante que a estreia do mesmo autor com a obra sobre uma viagem desastrosa à Itália. Esthers Tagebücher (Os diários de Esther, melhor quadrinho estrangeiro), que continua até o aniversário de 18 anos da heroína, é um belo experimento de observação de longo prazo. E Reinhard Kleist, que já recebeu incontáveis prêmios em Erlangen, foi apontado como melhor quadrinista de língua alemã. Quem leu os dois volumes de sua obra sobre Nick Cave foi definitivamente ao show do artista no 14 de julho que se seguiu.
 

Este texto foi publicado originalmente no dia 7 de junho de 2018 no blog do portal de cultura Der Perlentaucher