Herança protelada Sujeitos museais

O Goethe-Institut e a Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano convidaram para uma conferência internacional
O Goethe-Institut e a Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano convidaram para uma conferência internacional | Foto: Viktoria Tomaschko

Como lidar com a herança colonial? A conferência internacional “Herança protelada?”, organizada pelo Goethe-Institut e pela Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, voltou-se em Berlim para “o passado e o presente do colonialismo”.

O economista senegalês Felwine Sarr e a historiadora francesa da arte Bénédicte Savoy entregaram na sexta-feira (23/11) ao presidente francês, Emmanuel Macron, um relatório sobre a restituição da herança cultural africana. Como esperado, o documento de 252 páginas recomenda a devolução rápida da arte roubada que se encontra nos museus franceses aos países de origem das mesmas. Diante disso, Macron tomou a decisão de devolver 26 objetos ao Benim, saqueados por soldados franceses em 1892 da propriedade do rei de Dahomey, cuja riqueza se baseava no comércio escravagista.


Quando o relatório foi divulgado, chegava ao fim, no Museu Dahlem em Berlim, um simpósio internacional de dois dias coordenado pelo Goethe-Institut e pela Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano (SPK). No evento, cientistas e profissionais ligados a museus de países como Brasil, Egito, Austrália, China, Alemanha, Ilhas Fiji, Reino Unido, Namíbia, Colômbia e Estados Unidos discutiram com um público composto por ativistas a respeito desse assunto tão complexo quanto permeado de emoções, bem como sobre suas consequências. “Herança protelada?” foi o título dado à conferência que se debruçou sobre “o passado e o presente do colonialismo” no que diz respeito a artefatos, mas também a restos mortais que compõem hoje coleções europeias. O foco foi, portanto, a questão que Sarr e Savoy resumiram da seguinte forma: os museus europeus se tornaram involuntariamente arquivos públicos de um sistema de apropriação e alienação, ou seja, do sistema colonial. Nzila Marina Mubusisi, curadora-chefe do Museu Nacional da Namíbia, ilustrou com uma anedota quão presente o passado colonial pode se tornar quando damos uma olhada num arquivo. Jonathan Fine, curador responsável pelas coleções da África Ocidental, Camarões e Gabão do Museu Etnonológico de Berlim e cocurador da conferência organizada pelo Goethe-Institut, ao lado de Stefanie Peter, conduziu uma visita guiada pela coleção etnológica. Em seus inventários, Mubusisi descobriu algo inusitado: na coleção berlinense, há também um objeto oriundo do povoado de seus avós.

Johannes Ebert, secretário-geral do Goethe-Institut, falou sobre a necessidade de um diálogo aberto Johannes Ebert, secretário-geral do Goethe-Institut, falou sobre a necessidade de um diálogo aberto | Foto: Viktoria Tomaschko

QUEM DEVOLVE O QUE PARA QUEM?

Mubusisi esteve sentada no palco sobretudo ao lado de Thomas Schnalke, responsável, na condição de diretor do Museu da História da Medicina do Hospital Universitário Charité, em Berlim, pela devolução à Namíbia de 20 crânios humanos das etnias Nama e Herero que faziam parte da antiga coleção de anatomia da Charité. Segundo estimativas do Museu, há cerca de 7 mil crânios humanos de diferentes épocas nas coleções alemãs.

EVIDÊNCIAS MATERIAIS

Marina Mubusisi relatou que os crânios permaneceram durante um dia inteiro no jardim do Parlamento da Namíbia, a fim de dar aos membros das duas comunidades a possibilidade de demonstrar respeito aos mortos. Os representantes dos Nama e dos Herero resolveram, então, que os crânios deveriam ser mantidos no museu como prova material dos crimes cometidos pelo regime colonial alemão, mas que não ficariam expostos ao público. Raphael Gross, diretor do Museu Histórico Alemão, lembrou de Alexander von Humboldt, que levou da América do Sul para a Alemanha restos mortais humanos. Segundo Gross, não se pode exibir esses restos mortais em um museu. Para espanto de outros participantes do debate, Gross salientou que nem todos os responsáveis por essas coleções compartilham dessa opinião. A mediadora Larissa Förster afirmou supor que, pelo menos no que diz respeito a essa questão, não houvesse mais divergências de opiniões.

Como lidar com a herança colonial? Mesa de discussão na conferência “Herança protelada?” Como lidar com a herança colonial? Mesa de discussão na conferência “Herança protelada?” | Foto: Viktoria Tomaschko

A MEDIÇÃO DO MUNDO

Ou seja, até mesmo no ano de 2018 ainda é preciso discutir sobre obviedades. Tendo em vista a veneração à figura de Alexander von Humboldt na Alemanha, Gross acentuou que a “medição do mundo” também foi o início de uma medição de crânios e ossos, que pouco depois se transformaria em um método fundamental adotado pelos pesquisadores “raciais” alemães. No caso dos crânios de seres humanos, não se trata de objetos de museus, mas sim de sujeitos, acrescentou Thomas Schnalke. A necessidade de que essa definição seja válida também para outros objetos de coleção foi acentuada várias vezes durante a conferência. Pois aquilo que, para um curador europeu, pode ser uma pedra lapidada proveniente de um túmulo, para os parentes pode representar um antepassado e contar como parte da família. O arqueólogo namíbio Goodman Gwasira defendeu, neste contexto, uma decolonização da metodologia científica. Ele utilizou decifradores locais de rastros para analisar marcas de pés que se encontram ao lado de pinturas de elefantes e xamãs em uma região montanhosa da Namíbia. Eles foram capazes de fornecer informações valiosas sobre a idade e o gênero dos autores das marcas.

NOVAS FORMAS DOS DIREITOS DE USO

Embora todos estivessem de acordo que o reconhecimento dos crimes coloniais precisa servir hoje de base para o trabalho em um museu, não houve consenso a respeito de como proceder com relação às restituições, exigidas em alguns casos com veemência. As circunstâncias são com frequência diferentes ao extremo. E a questão sobre ao quem pertencem os artefatos é muitas vezes controversa também nos países de origem dos mesmos. É possível que esse problema só possa ser resolvido quando forem negociadas novas formas dos direitos de uso. O historiador britânico Richard Drayton lembrou que os sistemas jurídicos medievais na Europa derivavam a propriedade de Deus, o que lhes permitia definir direitos de uso que iam além dos direitos de propriedade meramente individuais. Talvez, segundo ele, tenha chegado o momento de desenvolver novas formas de propriedade social. Isso deve, de acordo com o historiador britânico, ser mais difícil que reclamar o retorno imediato, mas confirma a proposta de Shuzhong He, da Administração Nacional do Patrimônio Cultural da República Popular da China. Para ele, os objetos obtidos ilegalmente devem ser restituídos, mas as negociações a esse respeito deveriam ser entendidas como uma oportunidade para novas cooperações. Pois a herança cultural deve fomentar a compreensão mútua entre as culturas, sendo uma fonte criativa para o futuro.

Especialistas discutiram sobre o passado e o presente do colonialismo Especialistas discutiram sobre o passado e o presente do colonialismo | Foto: Viktoria Tomaschko Esta reportagem de Ulrich Gutmair foi originalmente publicada na íntegra pelo diário taz no dia 25 de novembro de 2018.