Games A herança de Maquiavel

Imersa num jogo de estratégia
Imersa num jogo de estratégia | Foto (detalhe): © Adobe

Apenas poucos jogos eletrônicos tratam de política atual. Mas não é por isso que o mundo dos jogos deixa de ser político.

Tanto faz se o jogo é Banco Imobiliário ou War: frequentemente os jogos clássicos de tabuleiro transmitem os fundamentos do capitalismo e do maquiavelismo. Isso talvez seja sua natureza, afinal, se espera que, no fim do jogo, haja vencedores e perdedores. Mas como isso funciona no caso dos jogos eletrônicos? Eles também transmitem convicções ou mesmo posicionamentos políticos?

Jogos que tratam de política sem assumir uma posição

São realmente poucos os jogos eletrônicos que fazem referência à política atual. E mesmo nos jogos em que os processos políticos constituem um tema, a política é abordada pelo viés histórico. 

O gigante da estratégia em tempo real Crusader Kings 2 (CK2), por exemplo, tranmsite noções sobre as hierarquias complexas do sistema feudal da Idade Média e permite que os jogadores, no papel de senhores de um condado, ducado ou reino, interfiram na história da Eurásia e da África. Em um mapa gigantesco, centenas de culturas, religiões e etnias, bem como milhares de dinastias, lutam por seu lugar na história. O CK2 dá bastante valor à correção histórica. O mais interessante é o fato de os personagens – diferentemente de na maioria dos jogos de estratégia – precisarem de uma razão para declarar guerra. Isso é fácil se o inimigo desejado tem outra fé – a conversão religiosa de uma região sempre pode ser tomada como motivo para guerra. No caso de oponentes com a mesma religião, o jogador frequentemente tem mais sorte quando utiliza diplomacia, intrigas e uma política habilidosa de casamentos do que com uma invasão.

São poucos os jogos que abordam cenários políticos contemporâneos, mas duas equipes de desenvolvimento ousaram dar esse passo. A Positech Games trabalha atualmente na quarta parte da série Democracy, em que os jogadores tomam decisões sobre o orçamento estatal e a legislação de uma democracia moderna. Durante o processo, precisam resolver frequentemente a que grupos de interesse deverão de se opor de preferência. Decisões entre o que é necessário e o que é popular precisam ser tomadas constantemente. Pois para continuar no jogo, os jogadores não devem apenas manter o orçamento estatal em dia, mas também garantir sua reeleição. Democracy media de forma lúdica a maneira como os processos políticos se desenrolam, estimulando assim o entendimento democrático sem assumir uma posição política.

Com Realpolitiks, a Jujubee desenvolveu um complexo e maquiavélico jogo de guerra econômica, que transporta o conceito do Crusader Kings 2 para os tempos atuais. Diferentemente de em Democracy, tudo gira em torno de processos políticos em nível internacional, o que envolve mais brutalidade, uma vez que o fundamento do jogo é o princípio da expansão, e sua meta final, o domínio do mundo. Mas, com apenas seis entre dez estrelas na plataforma de games Steam e uma cota de 52% no parecer do portal de avaliações Metacritic, Realpolitiks não é um favorito entre os críticos de jogos.

Tudo acaba tomando um viés político

Mas, mesmo que apenas a menor parte dos jogos faça referência a acontecimentos políticos atuais, a cena dos games está longe de ser apolítica. Os jogos constantemente impulsionam debates políticos. 

Um exemplo é o Far Cry 5, da empresa de desenvolvimento Ubisoft, vigorosamente discutido nos fóruns online em 2017. Em Far Cry 5, os jogadores assumem o papel de policiais e devem deter uma seita apocalíptica racista da região rural dos Estados Unidos, um grupo armado de patriotas cristãos fanáticos. A imprensa especializada em games recebeu bem esse conceito, tomando o jogo por uma alusão satírica aos eventos políticos do país na era do governo Trump. Mas alguns extremistas de direita nos Estados Unidos conclamaram um boicote, pois norte-americanos brancos são combatidos no jogo.


Estande da Ubisoft na feira de jogos eletrônicos Gamescom, em Colônia. Estande da Ubisoft na feira de jogos eletrônicos Gamescom, em Colônia. | Foto: © picture alliance/imageBROKER A empresa de desenvolvimento Ubisoft nega a intenção de assumir uma posição política com o jogo, afinal a ideia para a trama já teria sido desenvolvida em 2014 – mas é possível que algumas fontes de inspiração reais tenham exercido uma influência durante a criação do jogo. Em relação a The Division 2, a ser lançado em 2019, em que os jogadores lutam contra um governo corrupto e autoritário na Washington, D.C. de um futuro próximo, a Ubisoft argumenta de maneira semelhante: qualquer referência à realidade é mera coincidência.

Mas, independentemente de a Ubisoft ter agido propositalmente ou não, o fato é que a discussão sobre posicionamentos políticos nos Estados Unidos e a mensagem de Far Cry 5 já está a todo vapor.