Digitalização na arte “Complexidade é beleza”

O que aconteceria se a vida de Fred tivesse sido diferente? Na estreia de “Die Parallelwelt”, de Kay Voges, os espectadores acompanharam simultaneamente duas histórias de vida – uma por meio de cenas representadas ao vivo, outra através da projeção de vídeo.
O que aconteceria se a vida de Fred tivesse sido diferente? Na estreia de “Die Parallelwelt”, de Kay Voges, os espectadores acompanharam simultaneamente duas histórias de vida – uma por meio de cenas representadas ao vivo, outra através da projeção de vídeo. | Foto (detalhe): „Die Parallelwelt“, Kay Voges © Birgit Hupfeld / Schauspiel Dortmund

Enquanto os diretores de teatro de alguns países já utilizam realidade virtual, animações em 3D e robótica há muito tempo, os palcos alemães precisam recuperar o atraso. A nova Academia de Digitalidade e Teatro de Dortmund começa a revolucionar o panorama do teatro alemão.

O que aconteceria se a vida de Fred tivesse sido diferente? Em setembro de 2018, dois elencos estavam ao mesmo tempo em seus respectivos palcos, em Berlim e Dortmund, para refletir sobre essa questão. Ambos narravam a história de vida de Fred, mas em versões diferentes: devido ao acaso, sua vida toma rumos diferentes. As companhias estavam conectadas por um cabo de fibra óptica de cerca de 420 quilômetros de extensão, que transmitia a ação de um palco a outro. Assim, os espectadores da estreia de Die Parallelwelt (O mundo paralelo) puderam acompanhar duas histórias simultaneamente – uma por meio de cenas representadas ao vivo, outra, através da projeção de vídeo.

Embora o teatro seja uma mídia analógica, ele pode ser entrelaçado com espaços virtuais – como prova Die Parallelwelt, de Kay Voges. Com seus experimentos e suas encenações digitais, o diretor é um pioneiro na Alemanha, um papel do qual tem conciência: “Quando se trata de inovação digital, o teatro alemão precisa recuperar o atraso, inclusive numa comparação internacional. Em muitos países, incluir o pensamento digital nos processos de trabalho teatrais é muito mais comum do que aqui”.

Desde que Voges assumiu a direção do teatro Schauspiel Dortmund, uma equipe interdisciplinar vem refletindo sobre as possibilidades da revolução digital. Para Voges, é só assim que o teatro pode continuar a ser relevante: “A transformação social que, no processo de digitalização, surte efeitos sobre todas as áreas da sociedade, talvez seja mais comparável com a transformação causada pelo início da impressão de livros. Como podemos espelhar os problemas e conflitos da sociedade contemporânea no teatro sem estar à altura de seu desenvolvimento? As formas narrativas da era pré-digital não bastam mais para retratar a complexidade da vida”.

Treinamento de digitalidade no teatro

Mas, com sua longa experiência, Voges também sabe os problemas que o teatro enfrenta em matéria de digitalização: com um ritmo de ensaios que vai de seis a oito semanas, não há tempo nem dinheiro disponíveis para experimentos de verdade dentro do programa regular do teatro. E também faltam em todas as áreas especialistas capacitados – tanto em realidade virtual quanto em captura de movimento, robótica e inteligência artificial. Até agora não existia nenhuma oferta de treinamento adequada nessas áreas para os cerca de 40 mil colaboradores dos teatros alemães. “Um técnico de luz contratado há 25 anos como eletricista tem de trabalhar hoje num console e programar a iluminação inteligente. E o técnico de som, que antes colocava fitas K7 para tocar durante a encenação, hoje trabalha no computador.”

Para compensar o déficit entre o padrão atual do teatro e as possibilidades oferecidas pela digitalização, Voges e sua equipe fundaram em Dortmund, após uma fase preparatória de quase três anos, a Academia de Digitalidade e Teatro. A partir de março de 2019, em cooperação com a Sociedade Alemã de Técnica Teatral (DTHG) e a Associação Alemã de Palcos, a Academia oferecerá programas de especialização para artistas e técnicos teatrais. Além da oferta de cursos em geral, em setembro de 2019 uma primeira turma de bolsistas deverá iniciar suas pesquisas artístico-experimentais. O terceiro pilar da Academia será uma cadeira de Arte Midiática para Filme e Teatro – mas, segundo Voges, isso ainda está “nas estrelas”. 

Até a conclusão do novo prédio na zona portuária de Dortmund, prevista para 2020, a Academia utilizará um espaço provisório do teatro. O fato de justamente Dortmund ter se estabelecido como uma região significativa na área de teatro e digitalidade tem a ver com a história da cidade: a região metropolitana do Ruhr conta com uma tradição de 700 anos em mineração, que sofreu um grande golpe com a extinção dos subsídios ao carvão mineral em 2018. Dortmund antecipou as profundas transformações que aconteceriam e adiantou-se, tornando-se o quinto centro digital mais importante da Alemanha.

Oportunidade, não ameaça

Uma amostra de tudo o que é possível quando a tecnologia digital e o teatro se encontram já pôde ser vivenciada na programação da conferência Enjoy Complexity, promovida no início de 2018 por Voges e o Schauspiel Dortmund com o intuito de comemorar a fundação da Academia. Os visitantes tiveram, por exemplo, a oportunidade de conhecer uma das encenações de Voges em realidade virtual (VR). Numa encenação de Die Borderline Prozession (A procissão da linha de fronteira), designers de mídia fizeram um varrimento laser do cenário, produziram filmagens em 360° e, a partir disso, elaboraram uma peça de teatro em realidade virtual: óculos VR transportam o espectador diretamente para o meio dos acontecimentos, onde ele pode se movimentar livremente pelo palco ou pela plateia durante o desenrolar da peça.

Mas, segundo Voges, a Academia de Digitalidade e Teatro não se dedicará apenas às possibilidades tecnológicas, mas também aos componentes políticos, tratando, por exemplo, de temas como manipulação de imagens, proteção de dados e mídias sociais: “Quando observo a situação política na Alemanha e na Europa, reconheço uma tendência à redução”, explica ele. “As coisas são simplificadas, circunstâncias são representadas de maneira menos complexa. Considero esse populismo como uma perigosa reação de medo perante a globalização e a digitalização da sociedade. O teatro é um lugar onde essa complexidade pode ser vista como oportunidade, não como ameaça. Complexidade é beleza.”