Exposição “O poder da multiplicação” Um outro mundo é preciso

A exposição “O poder da multiplicação”, inaugurada na Baumwollspinnerei (Tecelagem de Algodão) de Leipzig em fevereiro de 2019.
A exposição “O poder da multiplicação”, inaugurada na Baumwollspinnerei (Tecelagem de Algodão) de Leipzig em fevereiro de 2019. | Foto: Walther Le Kon

No contexto da digitalização, os processos de reprodução parecem ter se tornado corriqueiros. Mas que efeitos eles têm sobre a arte, a política e a sociedade? Um total de 14 artistas brasileiros e alemães abordam o tema na mostra “O poder da multiplicação”, aberta em fevereiro último pelo presidente do Goethe-Institut, Klaus-Dieter Lehmann, no Museu Baumwollspinnerei de Leipzig.

Academia Real de Artes Gráficas e Indústria Editorial passou a ser, a partir do ano de 1900, o nome da Escola Superior de Artes de Leipzig, que havia sindo fundada em 1764. Hoje, a mesma instituição se chama Escola Superior de Artes Gráficas e Editoriais. O livro e a indústria da impressão marcaram a história dessa cidade alemã tradicionalmente voltada para o comércio. Portanto, o lugar ideal para o projeto O poder da multiplicação, concebido pelo Goethe-Institut. Tudo começou quando o Instituto de Porto Alegre iniciou um intercâmbio entre artistas brasileiros e alemães sobre o tema “gravura”, inspirado no intenso circuito desse tipo de arte, com seus clubes e oficinas, na cidade no Sul do Brasil. “Achamos interessante rediscutir a velha pergunta de Walter Benjamin sobre o contexto de aura, obra de arte e o futuro da reprodução da arte sob as condições da digitalização”, conta Marina Ludemann, diretora do Goethe-Institut de Porto Alegre, sobre a motivação que esteve por trás deste projeto de longo prazo.

 “O poder da multiplicação” exibe arte impressa vívida. “O poder da multiplicação” exibe arte impressa vívida. | Foto: Walther Le Kon

O RENASCIMENTO DA GRAVURA

A primeira estação do projeto, que aconteceu em 2016, levou o nome de The Power of Printmaking (O poder da gravura). Em uma exposição, foram apresentadas as posições históricas da arte impressa brasileira entre 1960 e 2015. Com o título O poder da multiplicação – Die Macht der Vervielfältigung, esse discurso chegou ao presente. Em setembro de 2018, pouco antes das eleições presidenciais no Brasil, foi inaugurada em Porto Alegre a segunda mostra do ciclo no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. A lendária “tecelagem” de Leipzig, um polo criativo situado em antigas oficinas e galerias da cidade, tornou-se rapidamente a locação perfeita para a apresentação dos trabalhos na Alemanha. “Na gravura, é possível reconhecer, como em nenhuma outra vertente artística, a influência dos acontecimentos políticos e das relações sociais. Foi assim na época da ditadura militar no Brasil. E também na Alemanha Oriental”, observou o presidente do Goethe-Institut, Klaus-Dieter Lehmann, frente a cerca de 200 convidados na abertura da exposição. Segundo ele, a gravura passa por um período de renascimento em todo o mundo, tanto entre os artistas mais estabelecidos quanto entre os jovens. “Os artistas estão recriando essa técnica antiquíssima e experimentando com mídias digitais e novos materiais. Muitos deles usam o processo da impressão em sentido amplo, a fim de explorar novos espaços políticos e estéticos”, completa Lehmann.

“Os artistas estão recriando essa técnica antiquíssima”, diz Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut. “Os artistas estão recriando essa técnica antiquíssima”, diz Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut. | Foto: Walther Le Kon

EXPLORAR NOVOS ESPAÇOS POLÍTICOS E ESTÉTICOS

Gregor Jansen, diretor do Galeria de Arte de Düsseldorf e curador da exposição, selecionou 14 artistas brasileiros e alemães. Eles deixam claro que a técnica, aparentemente antiquada na era da digitalização, não perdeu seu fascínio.  Seja ela utilizada no sentido clássico de esclarecimento, como mostra o artista berlinense Thomas Kilpper. Em Another World is necessary (Um outro mundo é preciso), ele “gravou” em uma tela com os pés um panorama da história da violência brasileira. Ele havia entalhado os motivos anteriormente no parquete de madeira do centro cultural Vila Flores, em Porto Alegre. Seja aplicando-a de acordo com a compreensão da geração pós-digital, como faz o artista Tim Berresheim, de Aachen. Em seu trabalho The Early Birds (Sigh) Traces, ele transporta obras gráficas para um espaço tridimensional e ilusionista que pode ser acessado através de um aplicativo.

“The Early Birds (Sigh) Traces” do artista Tim Berresheim, de Aachen. “The Early Birds (Sigh) Traces” do artista Tim Berresheim, de Aachen. | Foto: Walther Le Kon

INTERVENÇÕES NO ESPAÇO URBANO

Até mesmo Regina Silveira, de 80 anos, a “grande dama” da arte contemporânea brasileira, esteve presente à cerimônia de abertura da exposição em Leipzig. Em seu trabalho, ela cruza técnicas gráficas tradicionais com novos procedimentos industriais de impressão como offset, heliografia e microfilme, a fim de abordar questões como luz e sombra, presença e ausência, poder e hegemonia. Em cooperação com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi desenvolvido também o videogame Aura remastered, no qual os jogadores se colocam no lugar de um artista de rua, que, com a ajuda de técnicas de impressão e colagem, podem superar as dificuldades de um percurso. É possível perceber o quanto o impulso antiautoritário e democrático da gravura ainda surte efeitos hoje: em Leipzig, duas intervenções no espaço urbano de autoria do artista Xadalu, que chama a atenção com seus grafites e murais para o destino dos membros da etnia Guarani, foram retiradas do local por autoridades responsáveis pela ordem pública pouco depois de serem instaladas.
Mural de Xadalu como intervenção urbana. Mural de Xadalu como intervenção urbana. | Foto: Walther Le Kon