Autoencenação nas mídias sociais A política como palco

Com o smartphone, a classe política tem um palco público eficaz no bolso.
Com o smartphone, a classe política tem um palco público eficaz no bolso. | Foto (detalhe): © picture alliance/POP-EYE

A política sempre aconteceu no palco: tanto nas assembleias populares da Antiguidade quanto nos debates públicos nos parlamentos de hoje, os políticos se apresentam a seus eleitores. As mídias sociais não só aumentaram esse palco, como também o modificaram.

Já na Grécia Antiga, no berço da democracia, a política se dava no espaço público. As assembleias populares em Atenas aconteciam na Ágora, mais tarde no Teatro de Dionísio e na Pnyx. Ali, todo cidadão apto a votar podia tomar a palavra e apresentar sua opinião. E claro que no púlpito, como o conhecemos ainda hoje dos parlamentos. A política sempre extraiu seu significado do palco no qual acontece.
 
Através das mídias sociais, esse palco expandiu-se muito. Teoricamente, com apenas alguns cliques o mundo todo pode compactuar quando os políticos procuram a proximidade dos eleitores por meio do Twitter, do YouTube ou do Instagram. Eles, desta forma, abocanham um palco próprio com grande visibilidade e amplitude. E mais uma coisa mudou de maneira fundamental: se antes da era das redes sociais, os políticos eram apenas protagonistas nesse palco, hoje eles atuam também como editores, produtores, diretores, dramaturgos e atores em uma só pessoa. E quando eles, como é o caso de muitos parlamentares alemães, não têm uma equipe de comunicação digital, acabam também assumindo as funções de câmera, som, maquiagem e figurino.

A POLÍTICA VIVE DE ENCENAÇÃO

Tudo aquilo que percebemos na comunicação política é de uma forma ou de outra encenado. Quando uma encenação é bem-sucedida, o cidadão, na melhor das hipóteses, nem ao menos percebe, pois tudo parece autêntico. Isso vale também – e especialmente – para as mídias sociais, onde os políticos adoram se mostrar próximos dos eleitores e para isso acabam revelando aspectos de suas vidas pessoais. Essa forma de auto(apresentação) é, por fim, bem-vista pelo eleitorado. Se o alcance de stories bem-feitas no Instagram não chega ainda àquele do jornal de notícias em horário nobre, ele supera, por outro lado, muitos outros formatos nos quais a política acontecia até hoje.    

A política e a comunicação política tornaram-se mais divertidas, mais fáceis de ser compreendidas e mais acessíveis através das possibilidades oferecidas pelo palco digital. Os conteúdos, por outro lado, não precisam de forma alguma ser mais superficiais – muitas vezes discutem-se ali assuntos políticos da atualidade. Para muitos políticos que não têm tanta visibilidade, as mídias sociais são, ao lado dos seus próprios eventos, a única possiblidade de chamar atenção fora do círculo dos próprios colegas.

NEM TODO MUNDO ESTÁ APTO PARA ESSE DESAFIO

Em função das novas mídias e possibilidades aumentaram enormemente as exigências feitas aos políticos. E também as competências que eles precisam ter para explicar bem suas políticas e serem percebidos no discurso democrático. As possibilidades de apresentação podem ter se tornado mais amplas, mais coloridas e supostamente mais fáceis, mas apresentar-se em seu próprio palco digital, geralmente a baixo custo, exige tempo e sobretudo jeito para se exibir. 
 
É claro que essa produção teatral diária da própria atuação política deixa vestígios. Desde que todo político possui, no bolso, seu teatro em forma de um smartphone, muitos deles se sentem pressionados a estar sempre presentes nas redes sociais mais relevantes. Todos os assuntos mais presentes na rede precisam ser comentados – de preferência em um primeiro momento, para poder marcar presença em meio à diversidade de conteúdos. A enorme oferta de informações faz com que os políticos acabem aguçando, polarizando e escasseando seus argumentos. Suas declarações precisam ser tão originais e inusitadas quanto possível, para eles poderem se destacar na cacofonia das notícias. Com isso, escapam também erros: informações são avaliadas erroneamente e conclusões precipitadas são enviadas sem serem pensadas antes. Parece que, desde que as mídias sociais adentraram os canais da comunicação política, há muito menos reflexão antes de se divulgar alguma notícia. 

O PÚBLICO TAMBÉM PRECISA SE ADAPTAR

Como sociedade, precisamos tolerar mais os erros que os políticos deixam passar no mundo digital, sem destruí-los de imediato com ondas de indignação em função daquilo de que não gostamos ou que não corresponde à nossa opinião.

Isso diz respeito inclusive a toda a esfera da apresentação política e não ocorre apenas desde o advento das redes sociais: através do vídeo, dos lives e dos áudios, os políticos que são mais telegênicos, que conseguem falar melhor em frente às câmeras e que otimizaram suas imagens acabam levando vantagem. Isso não significa, porém, que eles apresentem melhores argumentos ou tenham um discurso mais importante. Uma ideia retórica ou dramaturgicamente entediante na forma como é apresentada deveria também ter a chance de ser ouvida e disseminada no mundo digital.