Autoras de romances policiais Depreciadas

Entre as pessoas que apreciam romances policiais, estão sobretudo mulheres. E as autoras deste gênero não ficam atrás dos homens em termos de vendas. Mesmo assim, as resenhas enfocam quase sempre livros escritos por homens.
Entre as pessoas que apreciam romances policiais, estão sobretudo mulheres. E as autoras deste gênero não ficam atrás dos homens em termos de vendas. Mesmo assim, as resenhas enfocam quase sempre livros escritos por homens. | Foto (detalhe): picture alliance/ullstein bild

Embora as autoras de romances policiais não fiquem em nada atrás de seus colegas homens, as críticas escritas sobre esses livros evidenciam outra imagem: nelas, são resenhadas sobretudo obras de escritores. Por que isso acontece?

Nos livros de capas escuras, que estampam um céu sombrio e casinhas que parecem fantasmagóricas, normalmente acontece um assassinato. A cor da capa da maioria dos romances policiais remete à constatação de que as editoras até hoje não abdicaram de querer vender esse gênero literário sobretudo a um público masculino. Nas outras mesas das livrarias, principalmente naquelas com literatura de entretenimento, predominam os tons pastéis: verde, azul e o infalível rosa. Pode-se rir ou esconjurar essa realidade, mas é preciso acreditar nos departamentos de marketing das editoras: através das cores, parece evidente que são oferecidos sinais que impulsionam o consumo. Da mesma forma que acontece, afinal, com as roupas de crianças pequenas. Entre especialistas, como psicólogos, sociólogos e pesquisadores especializados em questões ligadas ao cérebro, discute-se, há anos, se nosso sistema límbico desenvolve desde o nascimento determinadas predileções por cores, ou se é nossa socialização que imprime o gosto dos homens por cores como azul-marinho, preto ou cinza.

MULHERES SÃO AS QUE MAIS LEEM POLICIAIS

No que diz respeito a romances policiais ou de suspense, parece que os especialistas em marketing perderam o bonde da história. Há anos que tanto esse gênero literário quanto a literatura de entretenimento contam com um público feminino superior ao masculino. As mulheres formam uma parcela bem maior de leitoras de policiais (51%) que os homens (37%), como apontou a pesquisa “Compradores e leitores de livros 2015”, da Associação do Comércio Livreiro Alemão.

Nos últimos anos, as mulheres passaram na frente dos homens também em número de escritoras de sucesso. É claro que os livros de Sebastian Fitzek, Frank Schätzing e Klaus-Peter Wolf ainda vendem centenas de milhares de exemplares, para citar apenas alguns autores alemães bem-sucedidos no gênero. Do lado das mulheres, por outro lado, há Charlotte Link, Rita Falk e Nele Neuhaus, além das autoras anglo-americanas Elizabeth George, Tana Frech e Tess Gerritsen, entre muitas outras. Se o número de romances policiais publicados por homens ainda continua sendo maior, quando são analisados os números de exemplares vendidos, as mulheres praticamente empatam.

Isso faz com que a constatação publicada por Zoë Beck, autora de policiais e tradutora, em seu site, pareça mais estranha ainda. Beck reclama da predominância de críticos em relação a suas colegas mulheres. Segundo a pesquisa “As mulheres contam”, que em março de 2018 analisou estatisticamente e avaliou segundo critérios das ciências sociais mais de duas mil resenhas de 69 mídias alemãs (impressas, radiofônicas e TV), a visibilidade das mulheres na mídia e no mercado literário está ainda muito aquém da dos homens. A análise aponta uma discrepância de dois a um, ou seja, os homens contam com uma visibilidade duas vezes maior. Em todas as mídias, os autores são debatidos com mais frequência e mais detalhadamente. Dois terços dos livros resenhados foram escritos por homens. E as críticas literárias também são escritas predominantemente por homens, em uma relação de quatro a três. Além do fato de que 75% de todas as obras resenhadas por homens foram escritas por homens. Já as mulheres costumam resenhar livros de homens e mulheres em proporções equilibradas.

Na literatura policial e de suspense, a diferença, presente em absolutamente todos os gêneros literários, é maior: para cada cinco livros de autores resenhados, aparece apenas um escrito por uma mulher. Zoë Beck apresenta um triste resumo: “Apenas quando se trata de livros infantis e juvenis é que existe um equilíbrio entre os gêneros. Aqueles ditos intelectuais ou ‘masculinos’, como livros de não ficção ou literatura policial, são monopolizados por escritores e críticos”, resume Beck.

FEMININO = ENTRETENIMENTO LEVE, MASCULINO = LITERATURA EXISTENCIAL?

A atual vencedora do Prêmio Alemão de Romances Policiais, Simone Buchholz, premiada por seu romance Mexikoring, publicado pela editora Suhrkamp, também manifestou seu desagrado com o sexismo do setor após a cerimônia de premiação. “Admiro os dois colegas Matthias Wittekindt e Max Annas. Todos nós ganhamos juntos. Mas, se meu livro é considerado ‘entretenimento leve’ e os dos homens ‘literatura existencialista’ ou ‘politicamente radical’, aí realmente penso: nossa, deve ser maravilhoso mesmo ter um pênis! E por que tudo o que não tem pênis é depreciado? Faz tempo que falamos sobre esse problema estrutural, precisamos estar sempre lembrando isso de novo, e isso me cansa tanto”, completa Buchholz.
Como deve ser bom ter um pênis – Simone Buchholz, autora de romances policiais, está irritada com o sexismo persistente no mercado editorial. Como deve ser bom ter um pênis – Simone Buchholz, autora de romances policiais, está irritada com o sexismo persistente no mercado editorial. | Foto: picture alliance/Christian Charisius/dpa A irritação é compreensível. O que talvez possa servir de consolo é que, na 37ª escolha do livro e da editora do ano pelo comércio livreiro alemão, a escritora Dörte Hansen ficou em primeiro lugar, seguida de perto por Juli Zeh e Carmen Korn. A revista especializada Buchmarkt acentuou que, em breve, seria preciso introduzir uma “cota para os homens”, já que tamanho sucesso das três autoras também se fez sentir nos altíssimos números de vendas durante todo o ano. No que diz respeito à eficácia de uma crítica, por exemplo, Buchholz e Beck talvez possam se sentir consoladas: embora toda a crítica alemã, independentemente de gênero, tenha alertado os leitores a não comprarem o romance Stella, de Takis Würger, o livro foi parar na lista de best-sellers. Ou seja, um lema possível seria: deixem os críticos, com ou sem pênis, escreverem. Nós vamos comprar de todo jeito o que queremos!