Pós-colonialismo Ouvindo uns aos outros

Performance de dança “The Mourning Citizen”, Citizen”, de Trixie Munyama
Foto: Themba Dredz Mbuli

Na Alemanha, está acontecendo no momento um debate tão vivo como nunca antes sobre o pós-colonialismo. O Goethe-Institut aborda o assunto em uma série de projetos, oferecendo uma plataforma aberta a vozes são raramente ouvidas.

Tanto faz se isso acontece, como recentemente, em um simpósio no Senegal ou em “conversas no museu” na África do Sul, no Burquina Faso, em Ruanda ou Gana: o que importa é ouvir uns aos outros. Sobretudo quando se trata da elaboração crítica do período colonial.

PATRIMÔNIO MATERIAL E IMATERIAL

No fim de novembro de 2018, Felwine Sarr e Bénédicte Savoy publicaram seu relatório The Restitution of African Cultural Heritage. Toward a New Relational Ethics (Restituição da herança cultural africana. Rumo a uma nova ética relacional). Quatro meses mais tarde, o Goethe-Institut no Senegal organizou com seus parceiros locais um simpósio reunindo nomes conceituados no Musée des Civilisations Noires (Museu das Civilizações Negras). Em evento intitulado Patrimônio material, imaterial e alteridade, mais de 150 participantes rovenientes de mais de dez países discutiram as possibilidades, os limites e as demandas em torno dos campos temáticos “restituição e museus”. Nas palavras de Felwine Sarr em seu discurso de abertura do simpósio, “o desafio para um museu está em repensar suas funções, sua localização, suas atividades e seu discurso, a fim de reaver seu patrimônio tanto material quanto em termos de significado”.

O espectro das palestras no simpósio evidenciou a amplitude com a qual esse debate precisa ser pensado e realizado – e o quão importante é o intercâmbio entre os discursos na África e na Europa. “A ideia é realizar essas discussões também aqui, pois se trata de repensar a relação entre a África e a Europa. Queremos também articular aqui os debates que acontecem na Europa. Isso explica a cooperação com o Goethe-Institut”, completou Felwine Sarr.

Johannes Ebert, secretário-geral do Goethe-Institut, durante o simpósio “Patrimônio material, imaterial e alteridade” no Musée des Civilisations Noires Johannes Ebert, secretário-geral do Goethe-Institut, durante o simpósio “Patrimônio material, imaterial e alteridade” no Musée des Civilisations Noires | Foto: Stéphanie Nikolaïdis

AVALIAÇÃO JURÍDICA E HISTÓRICA DA INJUSTIÇA
COLONIAL

A ideia de reunir os discursos na Europa e na África foi também o objetivo do simpósio Injustiça colonial – Reparando os erros do passado, realizado em Windhoek, na Namíbia, cujo cerne de debate foi o genocídio dos Hereros e dos Namas durante a colonização alemã. Ao lado de muitos representantes dessas duas etnias, bem como de outros namíbios, alguns deles com o alemão como língua materna, compareceram participantes vindos da Alemanha, da África do Sul e dos EUA a convite do Goethe- Institut na Namíbia e dos parceiros berlinenses do evento: o Conselho Europeu de Direitos Humanos e Constitucionais (ECCHR) e a Academia das Artes. O público presente reuniu cientistas e personalidades ligadas à cultura, ativistas e jornalistas, entre eles Zed Ngavirue, enviado especial do governo da Namíbia. O cerne dos debates e painéis de discussão girou em torno da avaliação jurídica e histórica das injustiças cometidas durante os mais de 100 anos da colonização alemã no país, bem como do papel da arte nesse processo de reconciliação. O simpósio foi encerrado com a performance de dança The Mourning Citizen, de Trixie Munyama.

FERIDAS ABERTAS

O simpósio foi uma das poucas oportunidades nas quais namíbios de língua alemã se encontraram diretamente com Namas e Hereros para dialogar sobre as feridas abertas do passado. Em diversos comentários fundamentais, ficou evidente o quanto esse intercâmbio teve até agora pouco espaço para acontecer. O ativista herero Brian Black, por exemplo, acentuou que a ele importa sobretudo o fato de um crime cometido há 115 anos continuar sendo silenciado – uma situação para a qual ele disse não contar com o apoio do próprio governo da Namíbia. Segundo Black, os governantes da Namíbia concentram-se ainda na luta pela libertação da ocupação sul-africana, abrindo, pelo menos até agora, pouco espaço para um debate da sociedade sobre o período colonial alemão.

O simpósio no Goethe-Institut evidenciou claramente a necessidade de intensificar o discurso da sociedade civil, a fim de levar adiante o intercâmbio dentro da Namíbia e também de acompanhar o processo de negociação entre a Alemanha e a Namíbia. Em colaboração com os parceiros namíbios, vão ser desenvolvidos a partir de agora novos formatos de debate construtivo sobre os acontecimentos dramáticos da época da colonização alemã – entre outros, através de medidas como a sugerida pela ministra da Educação do país de integrar o assunto, futuramente, nas aulas de história das escolas nacionais.