Morre Ágnes Heller Uma voz militante que fará falta

Agnes Heller
Agnes Heller | Foto: Robert Newald; © picture alliance/APA/picturedesk.com

A filósofa e socióloga húngara Ágnes Heller faleceu na última
sexta-feira (19/07), aos 90 anos. Klaus-Dieter Lehmann,
presidente do Goethe-Institut, descreve Heller, que foi agraciada
com a Medalha Goethe no ano de 2010, como exemplo de “luta e
coragem em prol de uma sociedade mais libertária”. Johannes
Ebert, secretário-geral do Goethe-Institut, acentua que Heller
defendeu a liberdade até seu último minuto.

“Não há democracia sem uma elite cultural que seja essencialmente
distinta das elites política e econômica. Com isso, refiro-me a pessoas
que são respeitadas e servem de exemplo tanto em função de sua
capacidade intelectual, quanto de sua consciência de
responsabilidade social. […] Não é o número de diplomas
universitários ou publicações em massa que torna alguém membro de
uma elite cultural, mas habilidade intelectual, empenho pela dignidade
humana e compreensão”, escreveu Ágnes Heller há poucas semanas
ao participar do nosso Diálogo transnacional sobre o fortalecimento
mundial do populismo. Sua modéstia quase não a teria permitido
relacionar essas frases a si própria, mas agora, já que ela não está
mais entre nós, fica absolutamente evidente que Ágnes Heller, na vida
e no pensamento, foi um exemplo lúcido de membro de tal elite
cultural, cuja existência ela acreditava ser vital para a existência das
sociedades democráticas.

EMPENHO INCANSÁVEL PELO DISCURSO POLÍTICO

Sua inquestionável capacidade intelectual e sua comovente história de
vida, que a enobreciam não apenas na categoria de filósofa
importante, mas também de testemunha das atrocidades e falhas do
século 20, foram descritas em incontáveis obituários nos últimos dias.
Para nós, contudo, foi sempre surpreendente perceber, nos encontros
pessoais, o quanto ela se dispunha incansavelmente, mesmo em
idade avançada, a se empenhar pelo discurso político e a aceitar
convites para conferências e diálogos ou mesmo para intervenções
políticas. Quando, em meados do ano passado, procurávamos os
primeiros signatários de uma chamada para um dia de protestos na
Europa contra o nacionalismo e em prol de um continente solidário,
Ágnes Heller foi a primeira a assinar. E é significativo que, para ela,

uma assinatura não tenha sido suficiente – ela acabou se
empenhando pessoalmente para que a manifestação acontecesse em
Budapeste. E quando a convidamos para participar de um projeto
sobre os discursos do populismo, ela aceitou sem hesitar e escreveu,
com uma impaciência quase juvenil, seu primeiro ensaio,
demonstrando uma curiosidade incessante sobre seus interlocutores,
bem como sobre seus argumentos e experiências. O que mais
impressionava no discurso e nos encontros com Ágnes Heller era
esse empenho incansável pelos direitos humanos – que no caso dela
significava, em primeiro lugar, uma luta contínua pela própria liberdade
e pela liberdade dos outros – e seu desejo de querer entender, ou
seja, de levar a sério as experiências de suas interlocutoras e
interlocutores, bem como de fazer uma análise aguda e incorruptível.
Ágnes Heller vai fazer falta: como pessoa, pensadora, parceira de
diálogo, lutadora em prol dos direitos políticos e exemplo de uma elite
cultural sem a qual a existência da democracia corre riscos. Como
dizia ela própria: “Uma democracia estável precisa mais de uma elite
cultural que do <i>establishment</i> político, pois este último tende a priorizar a quantidade sem se preocupar com a qualidade. Quando ideais e modelos são medidos apenas pela quantidade, a sociedade degenera,
e demagogos ou tiranos assumem o controle”.

LUTADORA CORAJOSA EM DEFESA DE UMA
SOCIEDADE LIBERTÁRIA

Segundo Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut, “Ágnes
Heller, vencedora da Medalha Goethe de 2010, era uma
personalidade impressionante e uma lutadora corajosa em prol de
uma sociedade libertária”. Para ela, ainda nas palavras de Lehmann,
“viver em liberdade era decisivo para a convivência entre as pessoas.
Seus temas prediletos eram política, história, arte e ciência. Em seus
livros, Ágnes Heller intermediava a cultura europeia através do convite
ao diálogo, à criatividade total, à sabedoria política, à energia moral e
à integridade intelectual. Sua voz crítica e militante vai fazer falta. Ela
era um exemplo”.
 
Johannes Ebert, secretário-geral do Goethe-Institut, acentua:
“Perdemos, com a morte de Ágnes Heller, não apenas uma das mais
significativas filósofas do século 20, como também uma apoiadora
importante das relações culturais entre a Alemanha e a Hungria. Ela
defendeu a liberdade até o último minuto ao levantar sua voz crítica
contra sistemas autoritários e populistas. Essa voz militante vai nos
fazer falta”.