Guerra Fria no cinema O Muro como ameaça internacional

Wilder (dir.) e seu protagonista em “Cupido não tem bandeira”, Horst Buchholz em frente ao Portão de Brandemburgo em Berlim no ano de 1993
Wilder (dir.) e seu protagonista em “Cupido não tem bandeira”, Horst Buchholz em frente ao Portão de Brandemburgo em Berlim no ano de 1993 | Foto (detalhe): Wolfgang Kumm © picture-alliance / dpa

A construção do Muro de Berlim como manifestação física da separação entre as Alemanhas Ocidental e Oriental surtiu efeitos imediatos também no cinema. E posteriormente também na forma como uma secretária na britânica Leeds ou um trabalhador de uma fábrica no estado de Michigan, nos EUA, passaram a perceber a divisão alemã. Vamos voltar aos anos 1960 para entender melhor.  

Quando Billy Wilder começou a rodar seu filme Cupido não tem bandeira, em junho de 1961, ele ainda não sabia que sua acelerada comédia de pós-guerra seria ofuscada por um gigantesco projeto de construção civil. E nem que essa obra que estava sendo construída passaria justamente no meio de sua locação cinematográfica: o Portão de Brandemburgo em Berlim. Na madrugada de 13 de agosto de 1961, esse pesadelo para qualquer produtor-executivo – e consequentemente para toda uma geração de alemães ocidentais e orientais – tornou-se subitamente realidade. Onde antes era possível passar rapidamente para Berlim Oriental, o caminho estava agora bloqueado por uma muralha de proteção antifascista: o Muro de Berlim. 

Para concluir as cenas ainda não filmadas no local, um Portão de Brandemburgo cenográfico teve que ser erguido em um estúdio localizado no bairro de Geiselgasteig, em Munique, mas os danos já podiam ser sentidos. “Nossas piadas sobre Leste e Oeste não eram mais engraçadas”, observou Wilder 25 anos mais tarde – o que viria a se refletir dramaticamente na bilheteria do filme, em dezembro de 1961, quando Cupido não tem bandeira estreou com baixa popularidade, se comparado a outros filmes do diretor.

No entanto, esse longa, que foi uma espécie de primeira vítima cinematográfica do Muro, retrata com precisão maior que praticamente qualquer outro filme a relação entre o Leste e o Oeste de Berlim – e entre os setores russo e norte-americano. Antes do Muro, o mercado negro prosperava, as pessoas conheciam umas às outras e sentiam que qualquer abismo ideológico poderia ser superado. Isso de tal forma que C.R. MacNamara, diretor da filial da Coca-Cola em Berlim Ocidental, representado por James Cagney no filme, faz de tudo para exportar seu produto para Berlim Oriental. Esse sacrilégio fez com que os russos exigissem em troca a receita da Coca-Cola – um sacrilégio quase maior ainda. 

Ou seja, até aquele fatídico dia de agosto, as pessoas ainda conseguiam rir de coisas assim. 

Contudo, logo ficaria claro que a situação não era mais engraçada, como ilustra o filme O espião que veio do frio, de Martin Ritt, de 1965. Embora desta vez não tenha havido problemas com as locações, pois as cenas perto do Muro foram filmadas em Dublin, a atmosfera opressora desse policial de espionagem, baseado no romance de John Le Carré, fala intensamente sobre como as frentes haviam se tornado mais rígidas nos quatro anos anteriores. Se já tínhamos visto a construção do Muro no começo de Cupido não tem bandeira, em cenas adicionadas posteriormente por Wilder para que sua comédia não parecesse desatualizada, agora éramos subitamente confrontados com imagens ameaçadoras de concreto e arame farpado. A Guerra Fria passava a operar constantemente em sua temperatura mais baixa. Um degelo não era nem aguardado nem esperado sob um ponto de vista realista.

Na primeira cena do filme, Alec Leamas (Richard Burton), chefe do serviço secreto britânico em Berlim Ocidental, está esperando por um desertor perto do Checkpoint Charlie. É noite, faz frio e seus nervos estão à flor da pele. De repente, surge um ciclista no lado “inimigo” da fronteira. Seus papéis parecem estar em ordem, mas então soa uma sirene. A polícia de fronteira aponta suas armas e atira. O desertor morre em frente aos olhos de Leamas em plena rua, na “terra de ninguém” entre Leste e Oeste.  

Aqui fica evidente uma mudança na forma como os aliados ocidentais viam a separação alemã. E isso a partir de um ponto de vista muito claro, visto que John Le Carré, autor do romance que inspirou o filme e cujo nome verdadeiro era David John Moore Cornwell, havia sido ele próprio um espião britânico (embora não na atmosfera fria de uma Berlim dividida, mas na ocasionalmente ensolarada e provinciana Bonn). Seu olhar sobre a Alemanha Oriental era diferente daquele de Billy Wilder e de seu corroteirista I.A.L. Diamond. Por sua vez, John Le Carré era um soldado a serviço da coroa britânica e sua linha de frente cruzava a Alemanha. O Checkpoint Charlie marcava o limite do cercado onde ficava um animal selvagem – ali o malvado urso russo fazia o que bem entendia. Mas foi do outro lado do Muro que o filme chegou a um final abrupto e trágico, onde não havia qualquer ilusão.

Rodado apenas um ano mais tarde, Funeral em Berlim já adotava um tom muito diferente, revelando que a relação entre as duas Alemanhas estava começando lentamente a se acalmar. Embora O espião que veio do frio tenha sido filmado em 1965, o romance no qual ele se baseia havia sido escrito já em 1963 – um espaço de tempo que certamente deu margem para abordar esse assunto sério com um humor assumidamente cínico.

Dessa vez, o filme não foi rodado no Reino Unido, mas em Berlim. E foi ninguém menos que o diretor de Goldfinger, Guy Hamilton, que começou a transformar em filme o romance humorístico de espionagem de Len Deighton.

Já as primeiras cenas expõem as singularidades locais: os berlinenses ocidentais são retratados em passeios pela avenida Ku’damm, sentados em cafés da cidade ou patinando no gelo durante o verão. No entanto, vemos também como as minas são depositadas ao longo “da terra de ninguém” da fronteira, conhecida como a “faixa da morte”, e como um jovem pianista escapa para o Ocidente de maneira espetacular. Mas nada disso importava de fato para o desenvolvimento do roteiro: essas cenas serviam antes de tudo como um retrato da cidade, à qual o agente secreto Harry Palmer (Michael Caine) é enviado a fim de buscar um desertor russo de alto escalão em sua transição para o Ocidente. 

Neste ínterim, os dois lados já haviam há tempos chegado a um acordo na forma despojada típica de Berlim. Neste contexto, ninguém podia ter certeza sobre quem estava espionando quem ou sobre quem era confiável – ou melhor, de quem se devia desconfiar mais. O desertor russo (Oskar Homolka) é o oficial responsável pela segurança do Muro de Berlim, enquanto seu adversário (Günter Meisner) é o arquiteto de tentativas de fuga bem-sucedidas. Além disso, temos também uma agente israelense (Eva Renzi) e o misterioso importador de roupas íntimas Johnny Vulkan (Paul Hubschmid). O caos é completo.

Em apenas cinco anos, a percepção das potências do Ocidente, ou pelo menos a percepção de cineastas e espectadores de cinema do Ocidente, havia mudado bastante: de um divertido choque cultural das ideologias, passando pela profunda seriedade de um estado de guerra nunca publicamente declarado, até o terreno fértil para aproveitadores e espiões de todos os matizes.

As condições de filmagem também mudaram. Primeiro, um muro fora construído bem no meio da locação de filmagem de Wilder (embora, presumivelmente, não de propósito); depois o Checkpoint Charlie do filme de Ritt teve que ser mudado para uma locação na Irlanda. Durante as filmagens de Funeral em Berlim, de Guy Hamilton, policiais da Alemanha Oriental divertiam-se utilizando espelhos para atrapalhar tudo e refletir luz concentrada na direção das câmeras. Em resposta, a mulher do diretor, Kerima (cujo nome real é Miriam Charrière), pedia aos guardas de fronteira que acenassem amigavelmente para a câmera. Isso preocupava Hamilton, mas ele não podia fazer nada em relação ao temperamento esquentado de sua mulher.

E os soldados da fronteira também não podiam. Eles sorriam e acenavam de volta. O Muro permaneceria fisicamente intacto por um longo tempo – e continuaria a assombrar nossos pensamentos por mais tempo ainda. Mas ele estava ali, da mesma forma que as duas partes de um mesmo país, que a partir de então se desenvolveriam de maneiras muito diferentes. 

Ao menos no circuito internacional do cinema, o choque estava contido por enquanto. E como os espectadores na Inglaterra e nos Estados Unidos não queriam necessariamente ver filmes sobre o Muro de Berlim, os produtores cinematográficos mudaram seu foco para outros assuntos.
 

 

Autor

Karsten Kastelan Autorbild © Karsten Kastelan

Karsten Kastelan trabalha desde 1991 como correspondente em Berlim para diversos veículos de mídia, entre eles The Hollywood Reporter, Screen International, Moving PicturesDie Welt. Foi membro do júri em diversos festivais de cinema em Londres, Dubai, Munique, Cairo e Palm Springs, entre muitos outros.