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Música eletrônica em 2019
Questões globais nas cenas locais

DJ Gigola
DJ Gigola | Foto (detalhe): © Nikki Powell

Em 2019, problemas globais chegaram à cena alemã: a crise climática, a gentrificação dos centros urbanos, o conflito entre israelenses e palestinos. É como se a cultura clubber não fosse mais o playground hedonista que devia ser.

Agora, 2019 chegou ao fim. Muita gente pode dizer: “até que enfim!” Afinal, não foi apenas a situação sociopolítica da Alemanha que deu uma balançada, mas também a cultura clubber do país. A situação começou a ficar preocupante também para os clubes e a indústria do entretenimento. Em outros segmentos continuou acontecendo o que sempre caracterizou a cultura dos clubes, ou seja, questionar as normas estabelecidas. E também não faltou um pouco de nostalgia. Por ocasião dos 30 anos do tecno e da queda do Muro de Berlim, foram muitas as retrospectivas (especialmente na capital alemã).
 
A mostra No Photos On The Dancefloor! Berlin 1989 — Today (Sem fotos na pista de dança! Berlim 1989 — Hoje), na galeria C/O, em Berlim, merece destaque especial. Poucas aberturas de exposição atraíram tantos visitantes quanto essa. Com curadoria de Heiko Hoffmann, enciclopedista da cena e ex-editor-chefe da revista de música eletrônica Groove, a mostra permitiu uma visão com bastante informação sobre a evolução dos clubes e da cultura de festas em Berlim desde 1989: ali estão fotografias em preto-e-branco de Berlim Oriental no início dos anos 1990, além de flyers de 30 anos de história clubber e fotos de clubes que há muito já não existem ao lado de imagens de outros que ainda estão em funcionamento. A ênfase aqui está na palavra “ainda”, pois essa é outra questão que preocupa a cena: a morte dos clubes.

CLUBeS nos centros das cidades alemãs em risco

É dramático. Em 2019, alguns clubes foram fechados em toda a Alemanha: Chalet, St. George e Arena, em Berlim, MMA (planejado para uso temporário) e Bob Beaman, em Munique, TBA, em Dresden, e Dr. Seltsam ,em Leipzig. Outros clubes, como o Distillery, em Leipzig, com seus mais de 25 anos de existência, ou o complexo de clubes RAW e o KitKat, em Berlim, estão com sua existência ameaçada. Outros deverão fechar as portas ou mudar de local em 2020, como o Loft, em Ludwigshafen. Os clubes que estão sendo abertos não estão sendo suficientes para compensar essas perdas. Os motivos disso não têm, em geral, uma única causa, mas o processo de gentrificação nos centros urbanos exerce muitas vezes um papel importante. Isso tem a ver com os aluguéis cada vez mais altos – um problema não apenas para os clubes – e com vizinhos incomodados. Mesmo quando um clube já está instalado há muito em um local, a proteção do cidadão contra o barulho tem prioridade. Para combater esse problema, uma comissão formada em defesa dos interesses dos clubes berlinenses, a Clubcommission, criou um fundo de proteção contra o barulho. Os primeiros efeitos dessa iniciativa já podem ser sentidos, entre outros, no IPSE onde foi instalado um equipamento tecnicamente eficiente em termos de som. No segundo semestre de 2019, esta mesma comissão publicou um estudo reafirmando a relevância econômica da vida noturna de Berlim.
 
Isso surtiu efeito. As bancadas do Partido Verde e do partido de esquerda Die Linke entraram imediatamente com moções para combater a morte dos clubes.  Entre outras coisas, eles reivindicam que os clubes sejam igualados às casas de ópera e teatros em termos de lei de construção. Além disso, programas de fomento econômico devem auxiliar os clubes na instalação de sistemas de isolamento acústico, entre outras medidas.
 
No entanto, mesmo sem o envolvimento da esfera política, houve boas novidades indo na mesma direção. Em Dortmund, o Tresor.West abriu suas portas em novembro último. Trata-se de um projeto de estimação de Dimitri Hegemann, o diretor do Tresor de Berlim. Em Düsseldorf, o Salon des Amateurs, experimental em termos de música, reabriu depois de amplas reformas e, em Colônia, foi inaugurado o novo clube Jaki em outubro de 2019. Em Hamburgo, o Golden Pudel ampliou suas instalações com espaços para concertos e workshops. 

conflito entre israel e palestina chegou à cena

Em 2019, o Golden Pudel viu-se no olho do furacão que há muito anda dividindo a indústria da música no mundo: a controvérsia em torno do movimento BDS. O movimento, cuja sigla significa “boicote, desinvestimento e sanções”, conclama , em solidariedade à Palestina, ao boicote a Israel. Isso também aplica-se à cultura: incentiva-se que os DJs, por exemplo, se recusem a tocar em Israel. Em termos internacionais, o BDS tem apoiadores famosos. Na Alemanha, o movimento é visto como tendo tendências antissemitas. O Golden Pudel e o ://about blank, de Berlim, assim como o Conne Island, em Leipzig – todos três com posicionamento explícito de esquerda – deixaram claro sua rejeição à campanha BDS, chegando até a retirar o convite a alguns artistas que apoiavam o movimento. Isso, por sua vez, gerou um chamado de boicote a esses clubes.
 
Esse é apenas um exemplo da presença de questões globais em cenas locais. O discurso da política climática também chegou fortemente à cena. Foi como se cada grande festival anunciasse o que faria para se tornar mais verde, embora raramente fizesse mais do que oferecer copos retornáveis para bebidas e banheiros secos. Uma gota no oceano, especialmente considerando que os festivais são um negócio longe de qualquer sustentabilidade. Infraestruturas inteiras são montadas para milhares de pessoas, para serem usadas por três a cinco dias. DJs voam de todos os lugares do mundo para uma apresentação que dura de uma a cinco horas. Além de tudo isso, os festivais significam cada vez mais uma dura competição para os clubes pequenos, o que é socialmente insustentável.

mercado supersaturado de festivais

Ao mesmo tempo, foi possível observar em 2019 que a crescente “festivalização” da cena chegou a seu ápice temporário: o mercado ficou supersaturado e os primeiros festivais jogaram a toalha. O Plötzlich am Meer e o espanhol Into the Valley foram cancelados. A empresa que administrava os festivais alemães Her Damit e 7001 declararou falência, não tendo pago alguns membros de suas equipes por muitos anos. O festival português Forte passou por situação semelhante. A competição também se reflete em festivais menores. Contrariando sua postura política, o Fuchsbau, em Lehrte, teve que recorrer ao apoio de patrocinadores. O festival Nachtdigital, na Saxônia, celebrou sua última edição após 22 anos.
 
E por falar em festivais: em maio, um dos maiores eventos da Alemanha, o Fusion Festival, alternativo de esquerda, que acontece em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, foi pela primeira vez tema na grande mídia alemã. O festival procurou a imprensa depois de ter tido seu plano de segurança surpreendentemente reprovado. Ao contrário dos anos anteriores, a polícia pretendia marcar forte presença nas instalações do festival. O coletivo organizador (a Associação Kulturkosmos) considerou que isso ameaçaria o espírito do evento: a liberdade e o “espírito comunista de férias”. Inúmeras declarações de solidariedade e debates sobre o direito a espaços isentos de forças policiais seguiram-se à divulgação. Depois de revisar seu plano de segurança, o festival acabou sendo realizado com uma presença policial mínima (como de hábito), que se manteve do lado de fora das instalações que efetivamente abrigam o festival.

MúSICa para grandes palcos

A tendência de “festivalização” refletiu-se, com certeza, na música. Grandes palcos de festivais precisam de tracks capazes de criar uma atmosfera mesmo a longas distâncias. Sendo assim, não surpreende que o trance e o breakbeat, além do “pancadão” tecno , tenham sido as tendências do ano. Melodias simples e baixos musculosos e pulsantes estão presentes, por exemplo, em um dos sucessos do ano, Kisloty People, do produtor dinamarquês Schacke. Lançado pelo Kulør, o selo de Courtesy, que mora em Berlim, não apenas os dois, mas também os artistas que circulam à sua volta viram sua popularidade ser fortemente impulsionada.
 
A importância dos selos, das equipes e dos coletivos pode ser constatada pelo fato de que frequentemente os newcomers que brotam na cena vêm dessas redes bem coesas. O coletivo berlinense No Shade, por exemplo, só existe há dois anos, mas até participou com Kikelomo e um eclético mix de músicas da comemoração do 30° aniversário da queda do Muro de Berlim, no Portão de Brandemburgo. O grupo organiza workshops de DJ, a fim de trazer mais mulheres, pessoas trans e não binárias para a cena. O que parece já estar rendendo frutos, como se vê pelos newcomers: a DJ Gigola é parte do coletivo berlinense Live From Earth Klub. Ela circulou por clubes de toda a Alemanha com seus sets envolventes e energéticos. Or:la, irlandesa radicada em Berlim, toca muito breakbeat, bass e electro. Ela passou de novata a criadora de selo em 2019, oferecendo a produtores desconhecidos uma plataforma em seu selo Céad. Fadi Mohem, um jovem produtor de Berlim, também é digno de nota. Seus discos pelos selos de Ben Klock e Modeselektor mostram um tecno seco e produzido de forma coerente.

Em termos de música, 2019 não foi de forma alguma um ano ruim, embora muitas das publicações voltadas às pistas de dança citem os anos 1990. No entanto, uma mudança voltada para o futuro está surgindo na cabine do DJ: o streaming ocupando o lugar de arquivos mp3 ou vinis. Em parceria com os mais importantes fabricantes de equipamentos para DJs, a Beatport, grande loja online de arquivos mp3, lançou em maio de 2019 um serviço que permitiu pela primeira vez a execução de faixas de sua coleção de músicas via streaming. Comprar música se tornará, portanto, supérfluo. Isso levanta algumas questões: os selos conseguirão faturar dessa forma? Como produtoras e produtores vão conseguir sobreviver? A música eletrônica torna-se funcional e transitória quando desaparece da playlist do streaming depois de algumas gigs de DJ? A próxima década vai nos trazer essas respostas.

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