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Sobre o caso Mbembe
O fantasma da comparação

O Memorial aos Judeus Assassinados da Europa: Memorial do Holocausto em Berlim, Alemanha
O Memorial aos Judeus Assassinados da Europa: Memorial do Holocausto em Berlim, Alemanha | Foto (detalhe): Mara Brandl © picture alliance / imageBROKER

Achille Mbembe, possivelmente o mais renomado historiador e filósofo africano, foi acusado de antissemitismo. O debate desencadeado pela acusação levanta questões fundamentais sobre a cultura da memória e a liberdade de expressão.

A Alemanha é assombrada pelo fantasma da comparação. Esse espectro representa uma consequência não intencional de uma das mais louváveis conquistas da sociedade alemã no pós-Guerra: o desenvolvimento, ao longo de várias décadas, de uma cultura da memória que tem como premissa a tomada de responsabilidade pelo genocídio de judeus europeus pelos nazistas. À medida em que a memória do Holocausto se tornou um ponto-chave da cultura pública oficial da Alemanha no período que sucedeu à reunificação – com a abertura do Memorial aos Judeus Assassinados da Europa como símbolo concreto dessa centralidade – o Holocausto também começou a ocupar um lugar quase sagrado como evento único na paisagem da memória nacional. Definir o Holocausto como único – na memória da cultura oficial, se não no meio científico – o remove do campo da compreensão histórica comum, que necessariamente se baseia na comparação e relativa comensurabilidade entre diferentes eventos. Essa sacralização do caráter único do Holocausto não é exclusiva da Alemanha, mas assumiu uma forma particular – e particularmente extrema – na República Federal da Alemanha nos últimos anos. O discurso hegemônico alemão pressupõe que comparar o Holocausto a outros eventos minimiza esse crime perpretado por alemães, e assim diminui a seriedade das reivindicações alemãs de responsabilidade – uma premissa que levou a um policiamento rigoroso da expressão tanto pública quanto acadêmica.    

Muitas histórias de violência 

A insistência no caráter único do Holocausto, no cenário alemão de celebrações, resultou em fantasmas que assombram duas questões delicadas que são autônomas, mas frequentemente ligadas entre si: a questão sobre como relacionar o Holocausto a outras histórias de violência, especialmente ao rescaldo do colonialismo europeu; e a questão sobre o que constitui uma crítica legítima ao Estado de Israel, um Estado cuja autoconcepção é, como a da Alemanha, também intimamente ligada aos eventos do Holocausto.
 
Esses dois espectros assustadores retornaram no mais recente escândalo político-intelectual que emergiu a partir da Alemanha: as acusações de antissemitismo e “relativização” do Holocausto contra o acadêmico camaronês radicado na África do Sul Achille Mbembe. Referência acadêmica mundialmente renomada em colonialismo e seus legados, Mbembe já era bem conhecido na Alemanha antes desta questão recente. Alguns de seus livros foram rapidamente traduzidos para o alemão, e ele recebeu vários prêmios, distinções e prestigiosos cargos de professor visitante em universidades alemãs. As acusações contra Mbembe, iniciadas por Lorenz Deutsch, um político do Partido Liberal Democrático (FDP) na Renânia do Norte-Vestfália, ganharam maior visibilidade depois que Felix Klein, comissário alemão para a vida judaica na Alemanha e para a luta contra o antissemitismo, arruinou a reputação de Mbembe no país, embora pareça improvável que tenha conseguido o mesmo efeito fora da Alemanha.  O que este caso nos ensina sobre o estado atual da cultura pública na Alemanha?

Comparação e relativização

As acusações do establishment alemão contra Mbembe derivam de passagens coletadas em seu ensaio The Society of Enmity, que aparece em alemão no livro Politik der Feindschaft (Política da inimizade, 2017). A primeira passagem refere-se a uma comparação (mas não uma equação, como alega Deutsch) entre o apartheid sul-africano e a ocupação dos territórios palestinos por Israel. Na Alemanha, considera-se simplesmente que essa comparação é intrinsecamente antissemita. Sem questionar essa premissa – como eu faria, junto com dezenas de outros antigos membros do Knesset e outros cidadãos israelenses e judeus em todo o mundo, que se pronunciaram sobre o que veem como políticas similares ao apartheid nos territórios ocupados –, não há fundamento para uma discussão. Volto-me em vez disso para a segunda parte, que envolve uma justaposição entre o apartheid e o genocídio nazista: “O sistema do apartheid na África do Sul e o extermínio dos judeus na Europa – o último, porém, no modo paroxístico e num contexto distinto – constituíram duas manifestações emblemáticas de [uma] fantasia de separação” (veja The Society of Enmity [A sociedade da inimizade], p. 25). Não vejo nem equação nem “relativização” nessa passagem, como afirmam os críticos de Mbembe. Em vez disso, Mbembe descreve claramente o Holocausto como “paroxístico” e como produto de um contexto histórico diferente daquele que produziu o apartheid. A alegação de Mbembe também é menos uma comparação do que uma alegação especulativa sobre as condições subjacentes que tornam possíveis os regimes racistas. Seu foco é a construção comum de um inimigo e os desejos e fantasias concomitantes de separação e destruição que acompanham essa construção.

“Em vez disso, Mbembe descreve claramente o Holocausto como ‘paroxístico’ e como produto de um contexto histórico diferente daquele que produziu o apartheid.”

É a essa construção, em conjunto com esses desejos e fantasias, que Mbembe se refere com a “sociedade da inimizade”. Pode-se contestar essa abordagem como uma explicação do Holocausto (ou apartheid), mas na verdade muitas pesquisas sobre o genocídio nazista investigam exatamente isto: a construção ideológica do “judeu” como inimigo da Volksgemeinschaft (comunidade nacional), que precisa ser eliminado.

Memória competitiva versus memória multidirecional

O caso Mbembe revela fissuras significativas na sociedade alemã. A rapidez com que Mbembe se tornou persona non grata em alguns círculos oficiais revela que um poderoso consenso persiste na Alemanha em relação à incomensurabilidade do Holocausto. O caso também sugere que o consenso sobre a celebração do sofrimento judaico sob os nazistas pode colapsar em uma defesa acrítica de Israel e na censura de perspectivas simpáticas aos palestinos.

“A Alemanha de hoje está presa entre dois modelos de memória cultural: um modelo dominante de memória competitiva e um modelo emergente do que chamei de ‘memória multidirecional’.”

Ao mesmo tempo, numerosos intelectuais – tanto dentro da Alemanha quanto fora, tanto judeus como não judeus – vieram em defesa de Mbembe. Tal defesa por parte de acadêmicos alemães tão renomados quanto Aleida Assmann e Micha Brumlik sugere que o consenso hegemônico alemão está aberto à contestação. A Alemanha de hoje está presa entre dois modelos de memória cultural: um modelo dominante de memória competitiva e um modelo emergente do que chamei de “memória multidirecional.”
 
No modelo de memória competitiva, memórias coletivas são vistas como se expulsando mutuamente para fora da esfera pública. Entendendo memórias coletivas de acordo com a lógica do jogo de soma zero, esse modelo deriva do medo de que colocar a memória do Holocausto em contato com outras memórias de violência – através de comparações com colonialismo, apartheid ou ocupação – levará à redução, diluição ou mesmo negação do mesmo. Os que se preocupam com as memórias da escravatura e do colonialismo articulam com frequência um medo similar: de que uma ênfase desproporcional do Holocausto prive outras histórias de visibilidade. Mas a memória pública funciona assim? E, para abordar diretamente o medo alemão, as comparações com o Holocausto levam à relativização e à desobrigação da responsabilidade?
 
Minha teoria da memória multidirecional sugere que – mesmo sendo as culturas de memória sujeitas a conflitos passionais, e mesmo raivosos – a memória não obedece à lógica do jogo de soma zero. Em vez disso, todas as culturas de memória desenvolvem-se dialogicamente – através de empréstimo, apropriação, justaposição e eco de outras histórias e outras tradições de memória. O resultado do conflito de memória não é menos memória, mas mais, mesmo que o campo da memória pública permaneça desigual. Parte do que vemos no caso Mbembe é o fato bem conhecido de que, à medida em que a memória do Holocausto se globalizou, ela se tornou uma plataforma para articulação de outras memórias de violência – especialmente aquelas que se relacionam à escravatura e ao colonialismo. Mas a forma hoje familiar de memória do Holocausto que circula globalmente emergiu no início da era de decolonização e de um diálogo com outras histórias que agora parecem estar competitivamente colocadas contra ela.
 
 Os escritos de Mbembe originam-se em uma tradição  multidirecional que tem, nos últimos 70 anos, refletido sobre a relação entre o Holocausto e o racismo que emergiu de séculos de escravatura, colonização e segregação de africanos e membros da Diáspora Africana por europeus e seus descendentes.   

“Mas a forma hoje familiar de memória do Holocausto que circula globalmente emergiu no início da era de decolonização e de um diálogo com outras histórias que agora parecem estar competitivamente colocadas contra ela.”

Essa tradição inclui o polêmico Discurso sobre o colonialismo, de Aimé Césaire, no qual ele descreve a brutalidade nazista como um “crime contra o homem branco” que “aplicou à Europa colonialista procedimentos que até então tinham sido reservados exclusivamente aos árabes da Argélia, aos ‘coolies’ da Índia e aos ‘negros’ da África”. Ela inclui também os escritos do intelectual afro-americano W.E. B. Du Bois, que visitou as ruínas do Gueto de Varsóvia e escreveu emocionadamente sobre como isso transformou sua compreensão do racismo. A visita, como escreveu Du Bois do coração da América de Jim Crow, o levou a entender que “o problema da escravatura, emancipação e casta nos Estados Unidos não era mais. . . uma coisa isolada e única como eu a tinha concebido até agora”. Revisar seu próprio entendimento sobre raça não leva Du Bois, no entanto, a apagar todas as diferenças entre diversas formas de racismo. Em vez disso, ele destaca que “nada em minha imaginação mais selvagem se iguala ao que vi em Varsóvia em 1949”. Nem “isolada e única,” nem “igual” – esta é a tradição multidirecional do pensamento comparativo sobre a violência racista que encontramos ao longo da era da decolonização e que perdura em pensadores como Mbembe.
 
A teoria da memória multidirecional não pressupõe que todas as expressões da memória pública sejam igualmente válidas. Nós certamente precisamos de uma ética da comparação para distinguir as valias de articulações multidirecionais. Algumas comparações merecem ser levadas a sério; outras, não. Algumas comparações levam a uma maior solidariedade entre as vítimas; outras levam a um crescimento do conflito. Algumas comparações podem se transformar em equações fáceis, mas comparações usualmente envolvem distinções de gênero e escala. Neste contexto, a teoria da memória multidirecional sugere, acima de tudo, que o medo da comparação que atualmente reina na Alemanha poderia ser produtivamente repensado. Em vez de ver cada justaposição entre o Holocausto, o colonialismo e o apartheid como uma ameaça à identidade alemã baseada na responsabilidade, os alemães deveriam refletir sobre histórias e responsabilidades mais abrangentes que vêm à tona quando paramos para levar as comparações multidirecionais a sério. Enquanto o envolvimento com o Holocausto é e deve permanecer uma pedra de toque da identidade alemã, também há uma necessidade premente de engajamento com o legado do colonialismo europeu e alemão e com o envolvimento da Alemanha com o racismo estrutural e a desigualdade econômica do presente.  Em função da íntima ligação entre o resultado do genocídio nazista e a ocupação da Palestina, os alemães fariam bem em refletir sobre sua implicação nessa injustiça contínua. Em vez de tornar Mbembe um alvo, em função das desconfortáveis questões que ele levanta, todos nós, quenos dedicamos a lidar com as injustiças passadas e presentes, deveríamos recorrer a seus escritos como fonte de inspiração.
 

“Em função da íntima ligação entre o resultado do genocídio nazista e a ocupação da Palestina, os alemães fariam bem em refletir sobre sua implicação nessa injustiça contínua.”

 
Escrevendo nos anos 1960, o sobrevivente belga-austríaco de Auschwitz Jean Améry alegou que a atitude correta dos alemães pós-Holocausto era a da “autodesconfiança” [Selbstmisstrauen]. Acredito que a advertência de Améry tornou-se hoje ainda mais crucial, precisamente porque a Alemanha foi muito bem-sucedida em “elaborar o passado” [Vergangenheitsaufarbeitung]. A mim parece que, em vez de se posicionar como árbitro do antissemitismo em uma defesa acrítica da política israelense, a Alemanha deveria voltar à prática da “autodesconfiança”: ela deve acolher os fantasmas da comparação e vê-los através de uma lente multidirecional. 

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