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Gestoras Culturais Europeias de 2020 
Fome de conteúdo crítico

Julia Grosse e Yvette Mutumba
Julia Grosse e Yvette Mutumba | Foto (detalhe): © Benjamin Renter

A plataforma Contemporary And (C&), fundada por Julia Grosse e Yvette Mutumba, vem oferecendo há sete anos visões sobre as cenas de arte e cultura contemporânea da África e da Diáspora global. Em 2018, passou a ser publicada também a Contemporary And América Latina (C& AL) a partir de uma parceria entre o Instituto de Relações Internacionais (ifa) e o Goethe-Institut. Conversamos com Grosse e Mutumba por ocasião do Prêmio de Gestoras Culturais Europeias do Ano recebido por ambas.

Em primeiro lugar, parabéns a vocês duas pelo prêmio! Vocês fundaram a Contemporary And (C&) em 2013 como uma plataforma que conecta artistas e as cenas de arte da África e da Diáspora global, informando amplamente um circuito de arte que até então pouco sabia sobre a arte contemporânea de matriz africana. As percepções sobre a produção de arte contemporânea na África e na Diáspora mudaram desde então?

Nós fundamos a C& em um momento no qual certamente já se poderia falar de um hype em torno de posicionamentos artísticos da África e da Diáspora global. Coisas assim acontecem normalmente em ondas. As exposições The Short Century (2001) e a documenta 11 (2002), com curadoria de Okwui Enwezor, desencadearam uma espécie de virada global. Muitas instituições seguiram o exemplo naquele momento, apresentando projetos com obras de artistas da África e da Diáspora. Mas para a C& sempre tivemos planos de longo prazo. O hype nunca fez parte da nossa visão.

O mais tardar com as recentes explosões globais em função do movimento Black Lives Matter neste ano, que também tiveram uma influência notável sobre a arte e as instituições ligadas à arte, aumentou outra vez a pressão pela oferta de uma programação mais global e mais diversa. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer antes de alcançarmos mudanças institucionais verdadeiramente duradouras e profundas – desde mudanças na programação em longo prazo, passando por aquisições para as coleções, até o fato de que a diversidade não deve parar no pessoal da limpeza ou da segurança.

O que observamos do lado de quem produz é que, entre jovens artistas de cidades africanas, o sonho de trabalhar e expor em Londres, Paris ou Berlim se tornou secundário. Em vez disso, muitos estão conscientemente retornando a Acra, Cairo ou Lagos, com o desejo de se tornarem ativos na formação da infraestrutura cultural local. Nós achamos essas tendências maravilhosas.

A que tipo de público a C& se dirige?
 
A um público grande e incrivelmente diverso! Um mantra do nosso trabalho é a “acessibilidade”, palavra que achamos muito adequada. E isso em vários níveis: fundamos a C& desde o início de maneira consciente como plataforma online, a fim de, teoricamente, podermos atingir qualquer pessoa que tenha acesso à internet. Além disso, todo nosso conteúdo pode ser acessado gratuitamente, graças ao financiamento do ifa, do Ministério Alemão das Relações Exteriores e, no caso da C&AL, do Goethe-Institut. Nossas edições impressas, editadas duas a três vezes por ano, são distribuídas gratuitamente a uma comunidade local, em geral no contexto de eventos de arte maiores.

Outro aspecto importante da acessibilidade reflete-se também em nossas entrevistas, reportagens e ensaios. Optamos conscientemente por não publicar artigos acadêmicos. A instrução que passamos a colaboradoras e colaboradores locais é a de reproduzir discursos complexos da forma mais compreensível possível, a fim de trazer para nossa rede muitas leitoras e muitos leitores de contextos totalmente diversos. E essa estratégia parece funcionar: a C& Magazine e a Revista C& América Latina são lidas em mais de 150 países, curiosamente sobretudo nos EUA e na Alemanha, no Brasil, na África do Sul, França, Nigéria e Inglaterra, com um total de quase um milhão de page views por ano e mais de 300 mil unique visitors, a maioria entre 18 e 25 anos de idade.

Em 2018, vocês fundaram a C& América Latina, que ampliou a C& para a América do Sul e o Caribe. O que motivou vocês a criar a C& América Latina?
 
Desde a fundação da C&, sempre discutimos temas relacionados às conexões entre a América Latina, o Caribe e a África. Isso despertou grande interesse desde o início, o que nos levou a produzir em 2016 uma edição conjunta da C& impressa com nossos amigos da revista de arte O MENELICK 2º ATO, em São Paulo. Distribuímos essa publicação no Brasil, durante a Bienal de São Paulo. Na festa de lançamento, no centro da cidade, cerca de 400 pessoas da cena de arte e cultura afro-brasileira celebraram conosco. Depois disso, muita gente nos procurou para dizer o quão raro é um evento de arte com e para afro-brasileiros que não aconteça na periferia da cidade, mas no contexto artístico em torno da Bienal. A partir de então ficou claro para nós que queríamos dar mais espaço ao tema.
 
Quais metas vocês têm para a C& e a C& América Latina?

Tanto as revistas quanto a marca C& são, em geral, definidas pela ideia de uma rede global. Estamos extremamente felizes com essa rede em constante e lenta expansão de colaboradoras e colaboradores locais que, com seu profundo conhecimento cultural, são a voz da C&. Quanto à C& América Latina, sentimos, por parte de quem lê, uma verdadeira fome de conteúdo crítico que discuta e traga visibilidade a uma cena artística indígena e afro-latino-americana existente. E é justamente isso que queremos expandir ainda mais.
 
Que tipo de retorno a C& recebe de artistas e cenas de arte em ambos os continentes e na Diáspora?

Um retorno tão positivo que nos deixa tão felizes hoje quanto no primeiro dia da revista há sete anos! Ainda mais quando ouvimos de pessoas em Houston, Nairóbi, Bamako, Munique ou Paris que a C& é sua plataforma diária de informação sobre discursos de arte contemporânea que não acontecem apenas em Nova York ou Berlim, mas também em Dakar ou Dar es Salaam.

Julia Grosse é cofundadora e diretora artística da Contemporary And (C&). Até 2013 trabalhou em Londres como correspondente cultural para os veículos taz, FAS, Architectural Digest e SZ Magazin. Seu livro Ein Leben lang  (Uma vida inteira – Editora Hoffmann e Campe) foi publicado em 2018. Em 2020, assinou a curadoria de Friendly Confrontations – Festival de Arte e Crítica de Arte Global no Kammerspiele em Munique.

Yvette Mutumba é cofundadora e diretora artística da Contemporary And (C&). Mutumba também é curator-at-large do Museu Stedelijk, em Amsterdã. Fez parte da equipe curatorial da 10ª Bienal de Berlim (2018) e foi professora visitante de Discursos Globais na Academia de Arte e Mídia de Colônia (2017-2018). Entre 2012 e 2016 trabalhou como curadora no Museu das Culturas do Mundo em Frankfurt.

Ambas integram o corpo docente do Instituto de Arte em Contexto da Universidade das Artes (UdK) em Berlim.

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