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Tanja Dückers
Libélulas

Por Tanja Dückers

Cover: Libellen

A libélula em frente a ela tremia. Tremia, mas apenas de cansaço, não de medo. Ebba tentava olhar para outro lugar. Sua mãe tinha adormecido, sua cabeça redonda, com o espesso cabelo castanho avermelhado, balançava para a direita, para a esquerda. A presilha prateada, com a libélula feita de pontinhos perfurados, oscilava para cima e para baixo a cada curva, cada volta, cada buraco. Por que diabos sua mãe tinha querido viajar de Berlim à Croácia de ônibus? Isso era loucura. Por que a Croácia? Esse país não significava nada para Ebba. Só porque lá havia apartamentos baratos de férias e, não esquecendo, uma viagem barata de ônibus. Quando seu pai desapareceu, três meses atrás (ele tinha estado no funeral do avô materno de Ebba, e foi quando ela o viu pela última vez), ele levou o Audi. O Audi, o aparelho de som estéreo e, de acordo com sua mãe, bastante dinheiro. Podíamos pelo menos ter tomado um trem, pensou Ebba. Melhor ainda teria sido ir sozinha, sem sua mãe. Mas ela não tinha autorização para isso. Sua mãe, que recentemente não tinha encontrado a máquina de garrafas retornáveis no supermercado Aldi e gritou com o vendedor de salsichas da lanchonete, porque pensou (injustamente, no fim das contas) que estava sendo roubada. Sua mãe, que às vezes usava meias de cores diferentes sob seus longos vestidos esvoaçantes (vestidos que se pareciam com lençóis), porque não conseguia encontrar os pares. Sua mãe pensava que ela, Ebba, aos 15 anos era jovem, desorientada e inexperiente demais para viajar sozinha ou com Maike. Quando Ebba se deitava em sua cama à noite, contando as estrelas de plástico no céu do teto de seu quarto, ela imaginava muitas vezes que odiava sua mãe. Mas ela sabia que não podia odiar sua mãe, pois eram próximas demais. Sua mãe simplesmente estava sempre lá, com seus olhos questionadores, roupas esvoaçantes, sandálias muito gastas e lenços grandes e coloridos que ela esquecia por todo o apartamento, mas no quarto de Ebba especialmente. Ebba tentava tanto quanto possível ignorar sua mãe.

A autora Tanja Dueckers © Susanne Schleyer/autorenarchiv.de Controle de passaporte, de novo. Sua mãe, claro, se virou para sussurrar desnecessariamente “controle de passaporte!”. Nada escapava a ela. Mesmo a libélula em seu cabelo espesso parecia um terceiro olho, uma espécie de órgão de controle de retaguarda.

Estaria seu pai de férias também? Ele não tinha mais que se ater ao calendário escolar. Não, ele provavelmente estava em algum lugar em Berlim, e algum dia apareceria na frente da porta de novo, com uma barba e uma expressão esquisita no rosto, uma garrafa térmica manchada na mão, como das últimas vezes depois de ter desaparecido. Seu pai sentaria de novo em casa, esculpiria peças de xadrez, pintaria pequenas caixas, desenharia Ebba sentada junto à janela, para então levar essas coisas ao mercado das pulgas nos fins de semana. Por que seu pai foi embora e por que voltou – o pai sem barba, inquieto e de cabeça quente logo antes de sua fuga; e o pai silencioso, barbudo e calado na porta, com a garrafa térmica e as unhas sujas –, isso Ebba não compreendia.

O ônibus continuava dando solavancos, fazendo a presilha de prata brilhar para cima e para baixo como uma câmera fotográfica. O sol do início da manhã caía sobre o espesso cabelo castanho avermelhado de sua mãe – elas já estavam sentadas naquele ônibus há 24 horas. Às vezes era a nádega esquerda de Ebba que adormecia, às vezes a nádega direita. E o banheiro estava sempre ocupado, justamente quando quase não dava mais para segurar. A mania de economizar de sua mãe... de Berlim ao Adriático de ônibus...

O apartamento não era tão chique quanto o do ano passado em Malta, mas, em compensação, elas estavam a apenas cinco minutos da praia. Todas as manhãs a mãe checava a bolsa de praia de Ebba, para verificar se ela tinha levado o protetor solar fator 15, e não 12 ou mesmo 8, por causa de sua pele sensível. Ebba, claro, queria se bronzear a qualquer custo, mas, com um fator 15 e com os olhos constantemente vigilantes controlando tudo, não era possível. Era isso que a liberdade significava – voar com Maike no meio do ano escolar para Ibiza ou para a Córsega? A liberdade, a aventura, teria um bronzeado forte e muito cheiro de suor, isso era claro.

Ebba esperava encontrar alguns meninos interessantes no resort de férias, mas até agora só tinha visto aposentados e famílias que passavam por ela reclamando, com grandes bolsas térmicas. Entre os garotos da sua escola, onde morava, nenhum que a agradasse ou já não estivesse comprometido. Depois de cada período de férias, Maike mostrava a ela fotos amassadas de garotos de pele escura e sorrisos bonitos – seus pais a deixavam viajar sozinha pela Europa de InterRail. A ideia de não falar com ninguém exceto com sua mãe nas próximas três semanas deprimia Ebba. Sua mãe, que ela agora via não apenas depois da escola ou à noite, mas também pela manhã, deu a ela, ainda em casa, livros de bolso bilíngues de contos do século 20, que tinha colocado silenciosamente ao lado do prato de café da manhã de Ebba. Assim que Ebba retornou de sua primeira caminhada pela praia, sua mãe reclamou dizendo que ela não estava aproveitando as férias para fazer algo “pela sua mente”. Quando Ebba, finalmente, começou a ler um dos livrinhos, sua mãe começou a lhe fazer perguntas tão sutis de tempos em tempos, que sempre lhe permitiam descobrir que Ebba obviamente não estava lendo a versão francesa, mas apenas a alemã.

O único trunfo que Ebba tinha em mãos era a pergunta: “Quando você acha que o papai vai voltar desta vez?”. Com isso, ela tocava na ferida aberta da mãe. Esta então mudava de assunto, suspirava e dizia coisas como “espero que antes do começo das aulas”, ou “espero que antes do meu aniversário!”.

Certa vez, Ebba fez à mãe uma pergunta particularmente maldosa. Isso aconteceu logo depois de ela ter envolvido Ebba numa intensa mas desinteressante discussão sobre a iminente reforma do apartamento delas em Berlim, justamente quando um garoto passava e lançava sobre Ebba um longo olhar. Assim que o garoto saiu do campo de visão, a mãe de Ebba abandonou de novo o assunto e encarou pensativamente o mar.

Ebba perguntou: “Me diga, você pode imaginar... Quer dizer, não me leve a mal, é que às vezes me pergunto se o papai na verdade nunca esteve apaixonado por você? E que as coisas simplesmente aconteceram assim e ele só acaba voltando de novo por hábito? Porque ele sabe que você sempre coloca comida na mesa?”

Sua mãe não respondeu. Ebba sabia que ela se atormentava com a pergunta sobre o porquê de esse homem desajeitado, dependente, que na verdade deveria ser grato por tudo que sua mãe tinha feito por ele, continuar a abandoná-la regularmente. Ela simplesmente não conseguia entender. Sua mãe parecia ver o fato de seu marido ter se tornado um vagabundo, desprovido de qualquer ambição, como seu próprio fracasso. Pelo menos isso é o que Ebba achava. Separar-se dele? Impossível! Isso seria uma admissão oficial do erro. E o que a vovozinha diria a respeito?

Nesse momento o garoto de mais cedo retornou com um sorvete na mão. Ebba já ouviu sua mãe limpando a garganta e tentando começar uma conversa, mas dessa vez ela foi mais rápida: ela olhou para ele, e seu sorriso foi retribuído. Um formigamento espalhou-se de sua barriga até as pontas dos dedos. Ela não se esforçou para disfarçar seu interesse diante da mãe. Ela suspirou prazerosamente e olhou para o garoto que, em vez de ir para o resort, seguiu para o posto de observação dos salva-vidas. Lá alguém disse a ele já de longe alguma coisa – parecia ser em croata. Ele então se juntou aos homens que usavam camisas brancas e bermudas. Um deles levava binóculos dependurados em volta do pescoço. Agora sua mãe começou uma palestra sobre suas experiências com garotos de “países do Sul da Europa” que tentavam pegar as turistas e eram os tipos menos confiáveis que se podia imaginar.

“Eles só querem garotas que logo vão estar sentadas de novo em um avião. Para que mais eles ficam pelas praias durante todo o verão? Pra quê?”

Sua mãe posicionou a cabeça em um ângulo tão hábil, que conseguia ao mesmo tempo olhar diretamente para Ebba e apontar o olho da libélula para ela. A libélula era um diabinho encantado, uma fada do mal – isso estava claro. 

No dia seguinte, Ebba viu o croata três vezes: pela manhã, com binóculos na cadeira de observação (parecia que um dos homens mais velhos o estava instruindo); à tarde, a caminho da barraca de sorvete; e de novo no caminho de volta.

Hoje ele tinha sorrido primeiro, cuidadosamente. Quando Ebba fazia pequenas anotações de diário no verso de um cartão-postal, em um dos raros minutos sem a mãe – sua mãe estava no banheiro –, ela lembrou que não sabia nada sobre o garoto e não estava nem mesmo certa se o achava bonito.

Mais tarde sua mãe a convidou para o cinema e foi muito agradável durante a noite toda. Ebba quase chegou a se lamentar por ter sentido uma aversão tão forte por ela.

Mais tarde, deitada na cama ao lado da mãe, ela esperou até que a respiração desta se tornasse tranquila. Só então Ebba achou que poderia ter momentos de paz para reflexão. Passou por sua cabeça que ela costumava se dar bem com a mãe antes que o pai começasse a desaparecer, voltar, desaparecer. Naquela época elas não se desentendiam tanto.

Na manhã seguinte, logo ao acordar, Ebba sentiu que alguma coisa estava diferente: sua mãe não estava cantarolando ou assobiando enquanto fazia o café, a libélula de prata não estava instalada no lugar de sempre, mas ainda depositada na cabeceira. Alguma coisa tinha mudado.

Um minuto depois, a mãe de Ebba sentou-se na cama: “Ebba, seu pai me ligou no celular. Ele quer conversar. Quer voltar… Nós... Nós realmente queremos tentar de novo. Ele parou de jogar – oh, você não sabia? – e vai trazer o Audi de volta com ele... é o que diz”. 

“E o que isso significa agora?”, perguntou Ebba desconfiada.

“Ebba, adiantei nossa viagem de volta. Vamos partir mais cedo.”

Ebba estava sentada na praia fazendo desehos com conchinhas. É claro que ela tinha discutido horas com a mãe. Tanto tempo, até que as duas ficassem roucas. Sua mãe, por fim, foi ao cinema, e Ebba foi passear sozinha na beira do mar. 

“How are you?” Ela subitamente ouviu uma voz por trás. Ebba virou-se rapidamente e uma mão lhe ofereceu pistaches. Ela pegou dois e imediatamente pensou que sua mãe interpretaria isso como um “consentimento” para outras coisas. Os pistaches estavam deliciosos. O garoto sentou-se na areia ao lado dela. Os dois ficaram silenciosos por um momento.

“Por que você fala inglês tão bem?”, Ebba enfim perguntou. Ela não conseguia esconder sua curiosidade.

“Bem, eu trabalho aqui... encontro muitos turistas”, replicou ele, confirmando a suspeita que sua mãe já tinha plantado em sua mente, mais do que Ebba queria admitir. 

“E o que você faz aqui?”, perguntou Ebba, olhando para o céu desinteressada. Nada de ser simpática demais de cara!


Illustration Tanja Dückers Lydia Salzer © Goethe-Institut

O garoto lhe disse que queria se tornar salva-vidas para ganhar algum dinheiro nos meses de verão. Em um ano, ele terminaria a escola. Depois de estarem sentados lado a lado durante algum tempo, ele falou mais. Parecia ter perdido sua timidez inicial, que talvez não passasse de um truque. Ebba aceitou o convite para uma taça de espumante em um bar na praia. Ela aceitou tudo o que ele lhe ofereceu. Sua mãe estava ocupada consigo mesma hoje, gastando uma fortuna com telefonemas para seu pai, embora naquela manhã ela tivesse se recusado a comprar para Ebba uma revista feminina dizendo que era escandalosamente cara. 

Quando Ebba pegou a segunda taça de espumante e o garoto colocou uma mão em sua coxa nua, ela foi subitamente tomada por uma tristeza paralisante. De repente, ela não se importa mais com o que eu faço, com o que acontece comigo... Ela pensou em sua mãe pendurada ao telefone. Então ela virou a cabeça para o lado, mas por sorte estava tão escuro que o garoto – ela não tinha entendido seu nome – não podia ver suas lágrimas; e, sim, seus lábios já se aproximavam dos dela. Mais tarde, eles rolaram na praia, e ela deixou que ele levantasse sua camiseta. Mas quando ele começou a tatear seu short, ela mandou que ele interrompesse. Ainda antes da meia-noite, Ebba estava de volta ao apartamento. A meio metro da porta, no entanto, ela experimentou uma vez mais seus beijos ferozes.  

“Ah, aí está você de novo”, murmurou sua mãe distraidamente, e Ebba percebeu que ela tinha chorado. Sem pensar, ela foi até sua mãe e a abraçou. Por alguns minutos, as duas se tomaram nos braços. “E aí, o que você andou fazendo…” disse a mãe, mas era apenas uma constatação, quase amorosa, não uma pergunta.

Mais tarde, na cama, a mãe segurou a mão de Ebba e contou detalhadamente o que seu pai tinha dito. Ele tinha se lamentado sobre o porquê de não ter sido aceito na Universidade de Artes naquela época, e sobre o porquê de não ter tido coragem de tentar de novo. Afinal, quem consegue na primeira vez? Sua mãe encontraria seu pai de qualquer forma em três dias, mas tinha falado sobre isso com ele por horas ao celular, gastando rios de dinheiro. Ebba não disse nada. Em um dado momento, seus olhos se fecharam – excepcionalmente antes que os de sua mãe. Apenas a libélula depositada no criado-mudo ainda observava Ebba. 

 Seu sono precoce teve consequências. A mãe lhe disse que elas não partiriam mais cedo e sim, como havia sido planejado, em uma semana. Ela tinha passado tanto tempo conversando com o pai que juntos decidiram, em atenção a Ebba, não encurtar as férias. Sempre essas idas e vindas.

A frase “decidimos juntos” foi pronunciada por sua mãe quase em tom de festa. Dizer isso parecia fazê-la feliz. Ebba descobriu isso apenas durante a tarde, depois de já ter combinado com Jiri – esse era o nome do garoto – que o encontraria à noite, acreditando que lhe restava pouco tempo. Agora ele pensa que não consigo suportar um dia sem ele. Ebba estava aborrecida.

Quando ela e Jiri se encontravam, falavam sobre isso e aquilo: comida alemã, comida croata, que tipo de música ouviam, se tinham irmãos e irmãs, e tentavam deixar passar um período decente de espera até que estivesse escuro o suficiente. Então trocavam carinhos na praia, e Ebba pensava nostalgicamente no filme Grease, que tinha visto no ano anterior e que começava com uma cena romântica à beira-mar. Ela sempre pensava em algum filme ou fotografia quando beijava Jiri, constantemente se perguntando se eles estavam fazendo tudo certo.  Algumas vezes ela gostaria de falar com uma amiga, mas as amigas de Ebba estavam no Mar do Norte, no Sul da França, na Escócia, em casa em Berlim – em qualquer lugar, menos aqui. E sua mãe? Péssima piada.  

Sua mãe falava com o pai ao telefone durante horas a cada noite. Durante o dia, ela ia a uma academia para estragar os últimos dias no Adriático com a tentativa de perder uns 15 quilos. Ebba pensava em seu modesto – e não propriamente bonito – pai, e não entendia por que sua mãe estava agora virando as férias ao avesso. Ela nem mesmo tinha conseguido o Audi de volta ainda. 

A vantagem da nova situação, entretanto, era que sua mãe não fazia nenhum comentário sobre seus encontros com Jiri. Eu poderia ficar grávida, o que ela diria então? Ebba rendeu-se a esse devaneio. Por um instante, brincou com a ideia de deixar que a situação chegasse a isso. Apenas para irritar sua mãe, que agora não se interessava por ela. 

Na noite anterior à sua partida, Ebba estava um pouco tensa. Hoje, ela veria Jiri pela última vez – desde que ele não insistisse em levá-la à rodoviária. Agora, ela iria descobrir se ele queria seu endereço em Berlim ou não. Enquanto ela estava parada em frente ao espelho do banheiro, sua mãe veio por trás e pousou as mãos pesadas em seus ombros. “Você sabia que seu avô esteve nesta região durante a Segunda Guerra Mundial?” “Hã? Como eu saberia?” “Pensei que o vovô Paul tivesse falado sobre isso”, suspirou a mãe e virou a cabeça de forma que a libélula olhasse para Ebba. “O que ele fez aqui?”, Ebba, agora curiosa, queria saber. Sua mãe encolheu os ombros. “Provavelmente nada de bom. Caçou guerrilheiros e ele... é o que disse uma vez. E agora vá para o seu croata.” Agora sua mãe tinha conseguido maravilhosamente lhe dar um bom pacote para levar consigo. Sempre me disseram que meu avô esteve “na Rússia”. Ebba pensou no avô de que tanto gostava e que tinha falecido recentemente.

Como sempre, Jiri e Ebba encontraram-se às oito no café “deles”, bem ao lado do posto de observação dos salva-vidas. Espumante com suco de laranja – o garçom lhes trouxe sem perguntar. Depois das duas taças habituais e das brincadeiras inconsequentes sobre os países de origem dos turistas mais legais e dos mais idiotas que vinham ao Adriático, eles caminharam de mãos dadas pela praia. Sim, ela sentiria um pouco de falta de Jiri em Berlim. Ainda que tivesse escrito num pedaço de papel higiênico na noite anterior, depois que o ronco de sua mãe a acordou e ela não conseguiu voltar a dormir, que não estava realmente apaixonada. 

Eles foram de um bar de praia a outro, e Ebba tinha a sensação de que todas aquelas mudanças de cenário e novos pedidos de bebidas tinham a intenção de deixa-la bêbada rápido. Ela não gostava da atmosfera dos bares. As mulheres eram muito mais velhas e muito produzidas, quase vulgares; ela se sentiu desconfortável. Aqui e ali Jiri encontrava amigos ou conhecidos e também outras garotas, com quem conversava em croata por longo tempo sem incluí-la no assunto. Na verdade, ela preferiria ir para casa. E estava cansada naquela noite.

Mas agora Jiri a conduziu por um caminho escuro que serpenteava até uma montanha. Jiri tinha um nome bonito para o monte, mas Ebba não conseguia se lembrar. Jiri a segurava pela mão o tempo todo. De vez em quando ele parava, a puxava para perto e a beijava, empurrando a língua fundo em sua boca.  Mas ele percebeu que ela não gostava disso, e logo a língua dele apenas roçava os incisivos dela, lambia seus lábios, os cantos de sua boca, entrando depois, muito úmida e quente, nos ouvidos dela. Ebba queria mais. Então eles seguiram. O caminho era ladeado por suculentas mediterrâneas, eles ouviam cigarras, o ruído de pequenos animais, o riso distante de festas ao pé da montanha e a sirene grave de navios, aumentando e diminuindo. Um momento de felicidade. Uma felicidade, excitante e cintilante como as luzes dos bares de praia lá embaixo, se espalhava por Ebba. Agora era ela quem segurava Jiri, o abraçava, e mergulhava sua língua nos ouvidos dele.

Eles caminharam silenciosamente, de mãos dadas. Finalmente, chegaram a uma colina com vista ampla para o mar. A vista era arrebatadora: todo o brilho, as luzes e o barulho, as luzes brancas de pequenos barcos no horizonte, aves com grandes asas fazendo círculos sobre as ondas. Ebba ficou tonta, mas não apenas por causa de seu medo de altura. Ela mergulhou na relva; apenas uma fração de segundo depois Jiri estava ao lado dela. Em cima dela. Foi tudo tão rápido. Ele subitamente se deitou sobre ela, afastando seus joelhos com os dele; seu queixo, suas costelas, seus cotovelos, os ossos de seu quadril – tudo apertava, forçava, pressionava. Enfim, ela deu um soco em seu ombro e disse “pare ...”. “Desculpe”, disse ele confuso. Depois, mais suavemente: “Você é tão linda, não consigo me controlar!” Ele puxou-a para perto de si com mais delicadeza, beijou-a. E outra vez. E outra vez com sua língua. Ele já sabia do que ela gostava. Ebba olhou para o céu estrelado, não sabia o que queria. Jiri agora parecia tão estranho para ela de novo. Qual era realmente a idade dele? Ela se afastou um pouco. Mas ele a tocou carinhosamente, encostou a boca em seu ouvido e começou a falar... Ebba ouvia agora que a “alma do pai dele” pairava sobre eles, nos pequenos tufos de nevoeiro que pendiam como uma barba na montanha. Seu pai morrera aqui, nesta montanha, há apenas poucos anos. Ainda muito jovem. Deixara Jiri, sua mãe e três irmãos menores. Jiri o tinha visto ainda pela manhã, antes que seu pai fosse ver seu olival... Seu pai sofrera um ataque cardíaco depois de ter subido a encosta e não conseguira mais descer. Ebba olhou ansiosamente para a névoa acima. “E o encontrram aqui, seu pai?”, ela perguntou cheia de compaixão. “Sim, depois de dois dias ...”, Jiri respondeu baixinho. Então ele pousou sua cabeça no colo dela e ela acariciou seu cabelo escuro. “É engraçado”, ele continuou. “Meu avô morreu aqui nas montanhas também ... durante a Segunda Guerra. Ele era um dos guerrilheiros, sabe. Os que lutavam contra a milícia Ustasha. Eles eram aliados dos alemães, sabe… os ustashas.” Ebba olhou confusa para o chão. Ela tinha esmiuçado a Segunda Guerra na escola três vezes, até que o assunto lhe saísse pelas orelhas, mas não sabia nada sobre a Croácia, sobre essa milícia de nome estranho aliada dos nazistas e tudo o mais. Até esta noite em particular, ela nem mesmo sabia que seu avô havia estado aqui. Sua mãe não tinha tido tempo para lhe contar isso na interminável viagem de ônibus? Não, ela teve que lhe contar na última noite de férias, logo antes de seu encontro, por alto. “Não é um bom lugar para a minha família! Agora meu pai o seguiu”, murmurou Jiri. Ebba silenciou aflita. Por um momento, Jiri permaneceu em sua posição. Então o luto sobre a morte do pai parecia ter desaparecido, suas mãos habilmente abriram seu sutiã e logo estavam roçando a bainha de sua calcinha. E ele não se esqueceu da língua em tudo isso. Ebba teve a sensação, de alguma forma, de estar prestando uma reparação. 

Jiri tinha sido muito gentil, murmurado algo sobre “love”. Ela não ficou grávida. Era lua cheia, e ela tentou pensar em Grease.

De volta a Berlim, a mãe de Ebba, que era enfermeira geriátrica, trabalhou duro por um tempo fazendo incontáveis horas extras. Ela queria dar apoio ao marido, que mal conseguia se desfazer de suas aquarelas pintadas à mão no mercado das pulgas, e poupar a si mesma, o marido e Ebba da mudança para um apartamento menor e mais feio.

Apenas alguns meses mais tarde, ela colocaria o pai de Ebba para fora e ele, acostumado a abandonar e não a ser abandonado, nunca mais voltaria. E então, anos depois, um outro homem viria para fazer a mãe de Ebba feliz e querendo dar a Ebba tudo que ela uma vez quis ter quando criança (agora ela estava quase adulta). Sua mãe ainda responderia a todas as perguntas de Ebba sobre seu avô – que caçou guerrilheiros nas montanhas da Croácia como integrante do autodenominado “batalhão do diabo” do Exército alemão – e faria ela própria uma ampla pesquisa sobre ele. Logo quando Ebba estava estressada com os exames finais do curso médio. Tudo sempre chegava tarde demais. Não havia simultaneidade, você nunca conseguia nada quando precisava, o pulsar do tempo e o o próprio batimento cardíaco – o grande relógio do mundo exterior e o pequeno relógio “de dentro”, como Ebba chamava – nunca batiam juntos.  

E a felicidade? O que era isso...? Talvez por um momento o brilho de luzesna praia.

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