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Primeiro boletim
Nota da curadora

Carimbos no passaporte de Yussef Sahagoff, natural de Aleppo, Síria: passagens por Beirute, Marselha, e a chegada ao Porto de Santos, em 1927.
© Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto

A metodologia curatorial do projeto "A casa é sua: migração e hospitalidade" foi construída a partir de seu contexto: em vez de sugerir uma proposta curatorial fechada, concebeu-se a exposição com um contingente de obras centrais (imutáveis) e também com obras específicas do contexto. 

O formato “adaptável” não foi concebido como uma mera metodologia curatorial experimental – que, de fato, integra o tema da exposição, ao adotar a posição do “bom” convidado – mas como tentativa de driblar os diversos impedimentos de natureza financeira, institucional e política intrínsecos no Sul Global ao trabalho no campo das artes e da cultura.

Registrar os acontecimentos "inesperados" que até agora têm dificultado “A casa é sua” seria uma viagem pelas dificuldades reais por que passam os trabalhadores e profissionais da cultura ao trabalharem em e entre cidades como Beirute e Rio de Janeiro, em tempos de convulsões econômicas e políticas. 

O tema da hospitalidade abordado através de noções de migração e hostilidade ao "outro" tem sido imbuído de novos significados desde a concepção da exposição, em 2017. Opto por mencionar duas mudanças geopolíticas que encontram eco no meu trabalho curatorial em “A casa é sua”, deixando para outras ocasiões numerosas complicações e reviravoltas financeiras, administrativas e pessoais que também ocorreram durante a realização deste projeto.  

A eleição de Bolsonaro e a reformulação ideológica do setor das artes no Brasil levaram à sabotagem indireta do mais importante museu de arte contemporânea (MAR) do Rio de Janeiro – através da nova política implantada no município. Como o museu foi o primeiro anfitrião confirmado de “A casa é sua”, isto fez com que a exposição não tivesse um “lar” durante um período de quase seis meses, levando também à perda de uma importante fonte de financiamento e tendo grande impacto sobre a escala da exposição. 

O outro acontecimento histórico é a Revolução Libanesa, que eclodiu em 17 de outubro de 2019, transformando-se no maior protesto popular da história do Líbano. O movimento condena o regime sectário do país, a corrupção endêmica das instituições públicas, exigindo a garantia dos direitos humanos e cívicos para todos bem como a abolição de crimes como as práticas de escravidão contemporâneas (dos trabalhadores domésticos), doutrinação religiosa e as violentas formas de discriminação contra mulheres, imigrantes e comunidades LGBTQ. Em Beirute, os cidadãos estão hoje confinados em suas casas com acesso drasticamente limitado ao dinheiro, devido à má gestão do Esquema Ponzi no setor bancário, que afeta a economia do país (maior crise financeira e da dívida até a data) e as contas bancárias pessoais dos cidadãos. Essa situação está agravando as desigualdades sociais e os ataques xenófobos contra imigrantes e refugiados, mas deve (assim esperamos...) alimentar novos protestos assim que o acesso às ruas for liberado.

Esses dois grandes acontecimentos geopolíticos afetaram a agenda do projeto, mas tornaram o discurso sobre a hospitalidade ainda mais urgente e relevante à luz dessas viradas políticas.

Provavelmente, o COVID-19 é o evento menos inesperado dessa série de eventos. Afinal, sempre soubemos… ou não sabíamos? Trabalhando em “A casa é sua”, experimentei um tipo de produção de conhecimento que só pode ser potencializado no fazer. É a máxima da minha prática de curadoria. 

Fiz o meu melhor para enfrentar cada desafio como uma abertura de caminhos para a investigação e para novas leituras.

Nasci durante a guerra no Líbano, em 1985, vindo ao mundo em um contexto diferente de confinamento. As lições que aprendi dentro e fora do abrigo têm sido as minhas ferramentas mais preciosas ao longo da vida. Não que as situações (são diferentes tipos de perigo) possam ser comparadas, mas a relação entre improviso, adaptação e tempo me desperta antigas memórias. 

O confinamento que estamos vivendo em escala global e, mais importante, as razões por trás dele são as variáveis do jogo. Não sei quando (e se?) ocorrerá a inauguração de "A casa é sua", ou qual seria o impacto do distanciamento físico no programa da exposição. No entanto, estou ciente de que esta pandemia global contaminará o projeto e o seu conteúdo, e ainda mais a leitura dos seus títulos nos três idiomas:

Make yourself a(t) home (título em inglês); Beyti Beytak (título em árabe); A casa é sua (título em português).

O que parece ser um pequeno boletim curatorial é o preâmbulo para um lançamento bimestral de conteúdos sucintos (obras de arte, artigos, ensaios), conteúdos que não tentarão pré-estrear “A casa é sua” por vias digitais, nem revelar as obras planejadas. Esses boletins nascem do desejo de envolver o Goethe-Institut – que tem se mostrado um apoio incontestável para mim e para o projeto, apesar de todas as circunstâncias –, o seu público e a preciosa equipe de artistas e colaboradores que vêm participando incansavelmente desta "Odisseia", generosos com o seu tempo, flexibilidade e ideias desde o início, em uma estimulante partilha de conteúdos para a exposição. 

Em solidariedade a todos e todas os trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente, e a todos e todas os(as) artistas e profissionais da cultura profundamente afetados(as) pelo já precário campo em que operamos.

Fiquem em casa, a casa é sua… 


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