Espanha

A bola contra mim. Confissões de um alérgico a futebol

Ele compara o hino nacional às músicas dos times, torcidas a inclinações políticas e clubes de futebol a religiões. Impressionante o significado do futebol na Espanha.

Na Espanha, o futebol substituiu a ausência de símbolos nacionais. Sem me entusiasmar, mas também sem desencadear em mim maiores aversões, o futebol me permite conhecer melhor meu próprio país.
 
A Espanha é um país estranho. Nosso hino não tem letra, então as pessoas se sentem muito patriotas quando cantam as músicas do seu time no estádio. Nossa bandeira nos provoca tanta emoção quanto um pano de prato. Talvez seja por isso que os espanhóis ficam empolgados quando adquirem uma identidade pela qual seriam capazes de matar: isso acontece quando vestem a camisa do seu time. Mas se formos além da sociologia e adentrarmos o reino do inconsciente, descobriremos outra qualidade indiscutível do futebol: quando um espanhol, sentado num bar, grita para incentivar um punhado de atletas suados, ele pode permitir a si mesmo continuar com sua vida sedentária, sem que o complexo de culpa o destrua por completo.
 
Cultura versus futebol
 
I recently wanted to present a friend’s book in a bookshop, and when I discussed this with his publisher, the first thing the latter did was to go through the sports calendar as if consulting an oracle: ‘You want to do this thing on Friday at 7? Impossible, that’s when Celta Vigo are playing Betis Sevilla.’
 
A cultura espanhola é  [aR1] e tem pernas brancas e flácidas, então é normal que os editores fiquem apavorados com a ideia de competir pela atenção do público com os glúteos musculosos dos jogadores de futebol. Deve ser por isso que o futebol exerce um fascínio hipnótico sobre os escritores, pessoas que geralmente preferem o álcool e o repouso às corridas atrás de uma bola pelo gramado de um estádio. Nos últimos anos tenho visto[aR2] destruídas pela loucura futebolística..
 
Eu mesmo, desde que faço uso da razão, tenho tentado me interessar, mas todas as minhas tentativas têm sido ridículas e fracassadas. Depois do ato glorioso da Espanha contra a Holanda na final da Copa, quando a seleção espanhola conquistou seu primeiro título mundial, meu desejo de demonstrar que estava muito contente me levou a pular numa fonte e bati com os rins num cano. Em outra ocasião, um amigo me convidou para ir ao estádio, para ver uma partida ao vivo. Quando um dos times marcou um gol, comecei a pular de alegria, sem me dar conta de que estávamos no setor dos ultras do time adversário. E isso não é tudo: muitos anos antes, no colégio, havia duas fracções que se confrontavam tanto quanto as ideologias no parlamento. De um lado, estavam os meninos que eram torcedores do Barça; do outro, os do Real Madrid. Eu queria fazer amigos, então me declarava fã de Santiago Bernabéu quando descobria camisas brancas. E, se os que me acompanhavam tinham pinta de culés, torcedores do Barcelona, punha-me a cantar Els Segadors. Quando meus companheiros descobriram que eu não torcia nem pelo Real Madrid nem pelo Barcelona, mas era um cismático de ambas as religiões, estiveram a ponto de me queimar numa fogueira. Os espanhóis são um povo muito coerente. Aqui não há pecado mais grave que mudar de time de futebol (ou de ideologia[aR3] ).
 
Mais informações sobre o autor[aR4] 
 [aR1]Hyperlinked in original to: http://cultura.elpais.com/cultura/2015/02/18/actualidad/1424279535_861999.html
 [aR2]Hyperlinked in original to: http://deportes.elpais.com/deportes/2016/03/26/actualidad/1459016208_669167.html
 [aR3]Hyperlinked in original to: http://blogs.elconfidencial.com/sociedad/espana-is-not-spain/2016-01-30/decepcionado-con-tu-partido-por-su-estrategia-post-electoral-bienvenido_1143860/
 [aR4]Hyperlinked to: https://en.wikipedia.org/wiki/Juan_Soto_Ivars