Brasil

Dizem que o abacate é verde

Bater bola de chinelo, em trapos com números pintados à mão e calções costurados em casa: no Brasil, não é preciso luxo para se praticar o mais belo esporte do mundo.

Não eram nossos amigos. Mas não vivíamos sem eles. Em disparada, descíamos rumo ao campinho de terra atrás da igreja de madeira. Nem sempre jogávamos contra o feroz adversário. Tínhamos receio da perene vergonha que nos assombraria os passos até a escola durante a semana. A zombaria infantil é a porta do inferno escancarada. Mas íamos confiantes. E perdíamos quase sempre. Não me recordo de vitórias. Um ou dois empates. De resto, a derrota diante dos olhos inclementes de Deus.

Estropiados, éramos um time de nome pomposo: San Remo. Copiei-o da fachada de uma loja de roupas no centro de Curitiba, na rua atulhada de prostitutas gordas e feias. O San Remo não tinha uniforme. Chuteira era uma palavra que não sabíamos se se escrevia com x ou ch. A ignorância é uma pedra que se atira na porta do inferno na tentativa de arrombá-la.

Não recordo quem começou a chamar o temido adversário de Abacate. Desta proeza, não posso me vangloriar — sou daltônico. A razão é simples: a camisa do time do Abacate (sim, eles tinham camisa; e com número às costas) era verde. Mas não me pareciam oito abacates em campo (não cabiam onze jogadores de cada lado na estreita faixa de terra entre a rua e a igreja).

Para aquele jogo — após inúmeras derrotas —, decidi que deveríamos ter uma camisa, um uniforme do San Remo. Risível armadura contra a lança adversária. Estava cansado de jogar sem camisa — o peito magricela, as costelas rasgando a pele, açoitado pelo vento e pelas boladas inimigas. Nossos jogadores (meninos entre 9 e 12 anos) teriam de providenciar uma camiseta branca. Recebi trapos com as deformidades dos corpos de criança. Com potinhos de tinta, pintamos os números às costas. Meu irmão me ajudou. Dois invejáveis designers. Ele, meu irmão, era o goleiro. Então, uma blusa preta sovada com o número 1 laranjado a reluzir. A numeração não ficou nada simétrica. Cada camiseta levava um número de tamanho distinto. Carregávamos às costas o peso da ignorância. Os calções eram de tergal, fabricados pelas mães em velhas máquinas Singer. Nos pés, conga, kichute ou chinelo. Alguns, descalços. É engraçado jogar futebol de chinelo. Vem o chute certeiro. Vai a bola. O chinelo, saudoso, segue junto pelos ares. Éramos um pequeno exército de indigentes, pedintes à espera de um milagre. Mas Deus e o padre torciam com muita fé para o adversário.

Perdemos. A derrota não nos envergonhou. Uma diferença de dois ou três gols. Lutamos bestiais na estreia do único uniforme. Não fomos moldados para vitórias. Perder era nossa sina. Voltamos para casa aos farrapos. Os números laranjados pendiam para os lados.

Às vezes, ainda passo pelo campo de batalha. A velha igreja deu lugar a uma nova casa para Deus, cuja torre acaricia as barbas de São Pedro. O padre morreu. Está sentado à direita de deus-pai-todo-poderoso. No campinho de terra nasceu um condomínio de casas iguais. O time do Abacate acabou. O nosso também. A loja San Remo fechou. Nunca mais encontrei nenhum jogador. A mãe morreu. A velha Singer está em algum cemitério de máquinas de costura. Ainda não tenho certeza de que o abacate é verde.