ARTE DE CÓDIGO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Um mundo de códigos: visitantes da exposição “Códigos abertos. Vivendo em mundos digitais”, no ZKM | Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe, são transformados em corpos digitais de dados
Um mundo de códigos: visitantes da exposição “Códigos abertos. Vivendo em mundos digitais”, no ZKM | Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe, são transformados em corpos digitais de dados | © ZKM | Karlsruhe, Foto: Felix Grünschloss

Arte e robótica não têm nada em comum? Ledo engano: a inteligência artificial é, ao mesmo tempo, ferramenta e concorrência para os profissionais de áreas criativas. Além disso, a transformação digital fornece temas para a arte crítica.

Acusação a um algoritmo por crime de homicídio: com sua performance e o filme The Trial of Superdebthunterbot, a artista londrina Helen Knowles discute se um código de computador, que toma decisões de maneira autônoma, pode ser responsabilizado por erros fatais – no caso específico, pela morte de dois estudantes durante um experimento médico. A obra de Knowles faz parte da exposição Open Codes, no ZKM | Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe, aberta até agosto de 2018, que investiga a relação entre código e arte e a vida no mundo digital.
 
Os algoritmos estão cada vez mais presentes em diversos setores da vida: eles calculam quem é digno de receber um empréstimo, automatizam a guerra, detectam prematuramente enfermidades ou editam sozinhos, como o software Watsin da IBM, os trailers de filmes de terror. E estão agitando o universo da arte: a inteligência artificial modifica perspectivas e processos criativos, chegando a transformar robôs e softwares em artistas. No processo chamado de deep learning, o software de inteligência artificial reconhece padrões, de maneira semelhante ao que faz o cérebro humano, e aprende com cada experiência de maneira autônoma, podendo, assim, tomar decisões automatizadas com uma frequência cada vez maior.

ALGORITMOS SÃO COMO INSTRUMENTOS MUSICAIS

O Projeto Magenta do Google Brain realiza experimentos com a criatividade gerada artificialmente. Uma equipe de pesquisadores trabalha com algoritmos que produzem música, material em vídeo e arte visual. Aplicativos são publicados na plataforma open source de nome TensorFlow, de forma que outros artistas e profissionais criativos possam dar sequência ao desenvolvimento. O programa Performance RNN, por exemplo, compõe músicas: “À performance gerada ainda falta, na verdade, a coerência que se esperaria de uma peça para piano”, admitem os funcionários do Google Magenta. Mesmo assim, os sons gerados artificialmente são, segundo eles, “impressionantes”.
 
Desenvolvedores, como o professor de Informática Simon Colton, também lidam há décadas com softwares criativos. O robô-artista Painting Fool, criado por Colton, diz em seu site sonhar em “ser um dia levado a sério como artista criativo autônomo”. O software em questão faz pinturas abstratas que nesta altura são tão boas que não é mais possível diferenciar qual obra foi feita pelo homem e qual pela máquina. Colton combinou o Painting Fool também com softwares de reconhecimento de emoções, de maneira que ele, ao pintar retratos, por exemplo, consegue expressar  estados de espírito através da cor.
 
Para a série “Sculpture Factory”, de Davide Quayola, os robôs indutriais geram esculturas inspiradas em Michelangelo Para a série “Sculpture Factory”, de Davide Quayola, os robôs indutriais geram esculturas inspiradas em Michelangelo | © Davide Quayola O artista italiano Davide Quayola utiliza algoritmos para criar novas perspectivas sobre ícones famosos do mundo da arte: as pinturas renascentistas originais que servem de matéria-prima para seus quadros coloridos e abstratos quase não podem mais ser reconhecidas nas peças finais. Para a série Iconographies, o artista recorreu a obras italianas famosas: com um software de inteligência artificial, os originais foram sendo reconfigurados, detalhes e cores misturados e destacados. “O desvirtuamento da tecnologia é interessante para descobrir coisas novas”, acredita Quayola. Segundo ele, o software não o substitui como artista  O papel deste apenas se modifica; ele vê os algoritmos como “instrumentos musicais” que podem ser tocados por ele.
 
A tecnologia muda também o processo de produção: a arte digital deixou há muito de ser um trabalho solitário. Os artistas cooperam com frequência com desenvolvedores, mas robôs e softwares também podem fazer parte das equipes. Na série Sculpture Factory, de Quayola, robôs industriais criam esculturas inspiradas em Michelangelo. Isso acontece ao vivo, in loco, em uma galeria de arte. Ou seja, a gênese da obra torna-se, assim, parte da ação artística.

ROTA DE COMPRAS NA DARKNET

Muitos artistas conceituais jovens entendem a automação crescente, o Big Data e a inteligência artificial também como material de conteúdo para suas obras. E investigam a digitalização através de uma arte socialmente crítica.
 
Um tutorial de hackeamento de uma máquina que vende coca-cola, ecstasy ou tênis falsificados: para um projeto de arte, um bot ia às compras semanalmente, com 100 dólares em bitcoins, circulando em praças de comércio da darknet como Agora ou Alpha Bay. Os produtos escolhidos aleatoriamente eram enviados a uma galeria suíça. O Random Darknet Shopper foi programado pelo !Mediengruppe Bitnik, de Zurique e Londres, que, de maneira similar a Helen Knowles com seu julgamento fictício, quer apontar para os abismos dos algoritmos: por exemplo, quem assume a responsabilidade quando um software comete um crime?

  • Vivemos em um mundo de códigos. Tentar entender esse mundo de bits e bytes é o objetivo da exposição “Open Codes. Vivendo em mundos digitais” do ZKM | Centro de Arte e Mídia (ZKM). © ZKM | Karlsruhe, Foto: Felix Grünschloß
    Vivemos em um mundo de códigos. Tentar entender esse mundo de bits e bytes é o objetivo da exposição “Open Codes. Vivendo em mundos digitais” do ZKM | Centro de Arte e Mídia (ZKM).
  • Logo de início, os visitantes experimentam uma transformação digital de si mesmos na instalação interativa “YOU:R:CODE”, de Bernd Lintermann: a partir do reflexo da própria imagem, os visitantes vão sendo transformados cada vez mais em um corpo digital de dados até serem representados apenas como um código © ZKM | Karlsruhe, Foto: Felix Grünschloß
    Logo de início, os visitantes experimentam uma transformação digital de si mesmos na instalação interativa “YOU:R:CODE”, de Bernd Lintermann: a partir do reflexo da própria imagem, os visitantes vão sendo transformados cada vez mais em um corpo digital de dados até serem representados apenas como um código
  • A impressão digital “Open Doors”, de Shawn Maximo, lança um olhar sobre a cultura do trabalho dos dias de hoje, sobretudo sobre aquela dos programadores jovens e sobre a cena de start-ups: em contraponto ao ideal de criatividade e flexibilidade no trabalho, existe muita pressão de tempo e produtividade. © ZKM | Karlsruhe, Foto: Felix Grünschloß
    A impressão digital “Open Doors”, de Shawn Maximo, lança um olhar sobre a cultura do trabalho dos dias de hoje, sobretudo sobre aquela dos programadores jovens e sobre a cena de start-ups: em contraponto ao ideal de criatividade e flexibilidade no trabalho, existe muita pressão de tempo e produtividade.
  • De quem é a culpa, quando um software leva à morte de uma pessoa? A videoinstalação “The Trial of Superdebthunterbot”, de Helen Knowles, mostra um julgamento fictício de um algoritmo perante um tribunal. © Helen Knowles
    De quem é a culpa, quando um software leva à morte de uma pessoa? A videoinstalação “The Trial of Superdebthunterbot”, de Helen Knowles, mostra um julgamento fictício de um algoritmo perante um tribunal.
  • O “mining” de dados é a palavra da hora – tudo o que fazemos online é hoje editado e avaliado. É possível filtrar modelos a partir de movimentos do corpo e usar os mesmos como dados? O filme de danças “Patterns of Life”, de Julien Prévieux, aborda diversas tentativas de quantificar movimentos do corpo. © Julien Prévieux, Foto: cortesia da Galeria Jousse Entreprise
    O “mining” de dados é a palavra da hora – tudo o que fazemos online é hoje editado e avaliado. É possível filtrar modelos a partir de movimentos do corpo e usar os mesmos como dados? O filme de danças “Patterns of Life”, de Julien Prévieux, aborda diversas tentativas de quantificar movimentos do corpo.
  • Um lustre que emite sinais irtemitentes do código Morse: isso também é possível, há muito, graças a uma programação correta. O candelabro de vidro Murano de Cerith Wyn Evans transmite por meio do código Morse o capítulo “Stages of Photographic Development”, do livro “Astrophotography” (1987), de Siegfried Marx. © Watanabe Osamu, Mori Art Museum
    Um lustre que emite sinais irtemitentes do código Morse: isso também é possível, há muito, graças a uma programação correta. O candelabro de vidro Murano de Cerith Wyn Evans transmite por meio do código Morse o capítulo “Stages of Photographic Development”, do livro “Astrophotography” (1987), de Siegfried Marx.
  • Através de usas atividades de “mining”, a China acabou se tornando o maior produtor de bitcoins do mundo. Para a instalação que mistura diversas mídias “Chineses Coin (Red Blood)”, o casal de artistas UBERMORGEN.COM visitou uma fábrica chinesa de mining de bitcoins e gravou lá imagens. © UBERMORGEN.COM, Foto: cortesia Carroll/Fletcher, Londres
    Através de usas atividades de “mining”, a China acabou se tornando o maior produtor de bitcoins do mundo. Para a instalação que mistura diversas mídias “Chineses Coin (Red Blood)”, o casal de artistas UBERMORGEN.COM visitou uma fábrica chinesa de mining de bitcoins e gravou lá imagens.
  • How do you trap a self-driving car? Quite simply, as it turns out: Two concentric Preparar uma cilada para um carro autônomo? Isso pode ser bem  simples: Como na imagem “Autonomous Trap 001”, basta um círculo pintado na pista, já que a programação do carro determina que ele não pode ultrapassar linhas contínuas. O artista James Bridle, diga-se de passagem, também inventou um carro autônomo e disponibiliza o software em plataforma open source. painted on the road are enough, as the picture “Autonomous Trap 001” shows, since the car’s programming will not allow it to cross solid lines. Artist James Bridle has also invented a self-driving car, and he shares the open-source software with others. © James Bridle
    Preparar uma cilada para um carro autônomo? Isso pode ser bem simples: Como na imagem “Autonomous Trap 001”, basta um círculo pintado na pista, já que a programação do carro determina que ele não pode ultrapassar linhas contínuas. O artista James Bridle, diga-se de passagem, também inventou um carro autônomo e disponibiliza o software em plataforma open source.

Em fins de 2015, quando milhões de dados de usuários do portal de puladores de cerca Ashley Madison vieram à tona em um vazamento de dados, tendo sido encontrados também milhões de perfis falsos, o !Mediengruppe Bitnik transformou esses dados e o abuso digital em arte. Os perfis falsos tinham sido criados pelo próprio portal Ashley Madison. Já que havia muito mais usuários que usuárias, o portal programou bots femininos, que se comunicavam e flertavam com os homens. Para sua exposição Is anyone home lol, mostrada em meados de 2017 também em Berlim, os artistas do !Mediengruppe Bitnik reproduziram esses fembots: avatares com máscaras apareciam em telas LCD  penduradas na altura dos olhos de adultos e conversavam em chatrooms com os visitantes da exposição.
 
Para além da distopia digital, os algoritmos podem, contudo, ser bem aconchegantes: Channing Hansen, um artista que vive em Los Angeles, usa softwares para calcular o material, a textura e as cores de suas obras de lã, criando, com essa informação, murais tricotados de efeito psicodélico que dão a impressão reconfortante de serem analógicos.