Acesso rápido:
Ir diretamente ao contéudo (Alt 1)Ir diretamente à navegação secundária (Alt 3)Ir diretamente à navegação principal (Alt 2)

Carlos Vergara
Vergara e as gravuras que são pinturas

Duas Bocas, Carlos Vergara
Obra: Carlos Vergara

De Paulo Sergio Duarte

Nessa exposição, Carlos Vergara apresenta três obras; a primeira, ainda da década de 1960, quando a Nova Figuração trazia para a cena da arte brasileira imagens que se opunham radicalmente ao que havia dominado a década de 1950 e o início dos anos 60 – a arte abstrata informal e as experiências radicais dos artistas construtivistas com seu rigoroso abstracionismo geométrico, conduzindo às primeiras contribuições inéditas do Brasil à história da arte, como aquelas de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Agora eram as figuras da vida urbana que vinham acrescentar-se como uma nova camada, mas sem os atributos da razão cínica da pop norte-americana e suas releituras do ready made.
Santa Maria / RS - Brasil, 1941 Bandeira, 1968; Silk screen sobre tecido (caixa de acrílico); 214cm x 94cm x 9cm | Gravura: Carlos Vergara
As obras desses, então, jovens artistas brasileiros eram todas inventadas, não estavam nas páginas de revistas em quadrinhos, nas primeiras páginas dos jornais ou em prateleiras de supermercados, como na pop. Esse trabalho de Vergara de serigrafia em grande escala para a técnica empregada é um bom exemplo desse período. O rosto sorridente da mulher é invadido no canto superior direito pela imagem do globo celeste da bandeira do Brasil. Há uma festa. Tudo muito diferente das duas outras obras apresentadas.
Trata-se de duas monografias monumentais. Essa técnica de gravura é bem conhecida, mas Vergara a emprega sempre em uma escala pictórica, por isso são gravuras que são pinturas. Não são múltiplos, são obras únicas e, no entanto, gravuras, monotipias. Por ocasião de uma exposição do artista no Museu da Vale do Rio Doce, em Vila Velha, Minas Gerais, em 2003, tive a oportunidade de escrever:

Os pigmentos ferruginosos das minas foram trabalhados pelo artista durante muitos anos. Como matéria-prima? Tola é a arte que pensa como a engenharia. Não é matéria-prima, é material primeiro, in natura, parte integrante da linguagem; não um elemento passivo, manipulado de fora pela destreza daquele que detém os segredos do ofício de pintar. Os pigmentos foram emancipados pela poética de Vergara, foram elevados a uma potência léxica e, simultaneamente, a uma função sintática na pintura. Tanto produzem sentidos quanto estruturam essa produção de significados.

Os pigmentos ferruginosos das minas foram trabalhados pelo artista durante muitos anos. Como matéria-prima? Tola é a arte que pensa como a engenharia. Não é matéria-prima, é material primeiro, in natura, parte integrante da linguagem; não um elemento passivo, manipulado de fora pela destreza daquele que detém os segredos do ofício de pintar. Os pigmentos foram emancipados pela poética de Vergara, foram elevados a uma potência léxica e, simultaneamente, a uma função sintática na pintura. Tanto produzem sentidos quanto estruturam essa produção de significados.

Paulo Sergio Duarte


E o que aqui temos são exemplos dessa emancipação pela arte de Carlos Vergara, primeiro na monumental Duas bocas (1969). Trata-se de uma grande monotipia produzida sobre as bocas de forno da fábrica que lhe fornecia os pigmentos da pintura naquele momento em Minas Gerais. Temos uma ambiguidade nessa obra, e minha leitura contraria Vergara. Quando a vejo, não consigo esquecer-me do curta-metragem Nuit et Bruillard, de Alain Resnais. Consiste em longos travelings diante dos fornos crematórios de um campo de concentração nazista. Há uma tristeza nessa monotipia de Vergara. Para ele, fica o flagrante de um momento de sua produção; contudo, para quem está de fora, outras associações podem ser feitas diante desse formidável trabalho.

Piso II, série Missão de São Miguel Monotipia sobre lona crua Piso II, série Missão de São Miguel Monotipia sobre lona crua | Gravura: Carlos Vergara A terceira obra é um momento de outra aventura. Vergara, gaúcho de Santa Maria, entregou-se a registrar São Miguel das Missões e suas ruínas. É importante destacar que, para o artista, essa foi uma ocasião de extenso estudo sobre o lugar. A história domina essas obras. Foi uma intensa e extensa produção no lugar. Esse quase quadrado, chagando perto de 3 metros de lado, é testemunho da presença de um trabalho anterior, daquele em que índios e jesuítas dedicaram-se a construir uma sociedade igualitária, a qual foi massacrada pelos bandeirantes a mando do colonizador. A série de trabalhos de Vergara sobre São Miguel das Missões, com toda a sua generosidade plástica, não pode ser desligada da motivação histórica.

Vergara e suas monotipias são a gravura feita pintura.
 
Video wird geladen
© Goethe-Institut Porto Alegre
 

Carlos vergara

Nasceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1941. É gravador, fotógrafo, escultor e pintor, sendo conhecido como um dos principais representantes do movimento artístico da Nova Figuração no Brasil, constituído no final dos anos 1960. Após essa experiência com o figurativismo, a produção de Vergara constituiu-se por intensas investigações pictóricas, além de diversas obras desenvolvidas para projetos arquitetônicos. Expôs em diversas bienais, como Bienal de São Paulo, Bienal do Mercosul e Bienal de Veneza, tendo sido contemplado com diversos prêmios, como o Prêmio ABCA Clarival do Prado Valladares, o Prêmio Cultura do Estado do Rio de Janeiro, o Prêmio ABCA Mario Pedroso e o Prêmio Henrique Mindlin (IAB/RJ), entre outros.


VOLTAR PARA A PÁGINA INICIAL

 

Top