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Marcelo Chardosim
Procuram-se pessoas que gostem de Alvorada!

Parque da Solidariedade, 2018; Impressão digital sobre papel
Parque da Solidariedade, 2018; Impressão digital sobre papel | Obra e foto: Marcelo Chardosim

De Paula Ramos

Localizada na região metropolitana de Porto Alegre, a cidade de Alvorada apresenta índices sociais desoladores. Ela é a mais violenta do Rio Grande do Sul e a 12ª do País, tendo alcançado, em 2017, a triste marca de 90 homicídios para cada 100 mil habitantes, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado. Em diagnóstico da Região Sul, elaborado em âmbito nacional em 2015 (SINESP), Alvorada ainda desponta com o maior número de homicídios e de mortes por armas de fogo e abuso de drogas, com a maior taxa de violência contra mulheres, idosos e crianças e, sem surpresas, com os menores indicadores culturais e de desenvolvimento humano. A cada pleito municipal, os pactos para mudança se renovam, mas pouco se faz. E a cidade-dormitório, com suas chagas e moradores, segue violentada. Nesse cenário, pode-se gostar de Alvorada? Pode-se querer viver ali? Improvável. Marcelo Chardosim, todavia, acredita que é gostando de Alvorada, antes de tudo, que esse quadro pode mudar. E busca parceiros que também acreditem nisso.

Residindo no município desde os 12 anos, Chardosim cresceu ouvindo a grita das rinhas de galo e aprendendo a conviver com a violência em suas múltiplas formas (física, verbal e psicológica), passando pela que fere a diversidade de gênero, maltrata animais, derruba vegetação e polui águas. Entre memórias e denúncias, sua produção artística não apenas problematiza essa realidade, como também é feita para impactá-la diretamente.

É o caso de Feliz aniversário (2015), intervenção urbana em zonas baldias das avenidas Voluntários da Pátria e Farrapos, em Porto Alegre, nas comemorações dos 243 anos da capital. No contraste entre os muros calcinados e o colorido desbotado da fotografia de uma festa infantil, o artista parece então nos questionar acerca do lugar das memórias coloridas, de dias felizes, em meio ao abandono e à incúria do presente. Descaso que é tolerado pela população. Negligência que é escancarada pelos governos em suas várias instâncias.
 

 

Desde 2016, em um ativismo pertinaz, Marcelo vem convocando os moradores de Alvorada a se posicionar criticamente diante do Poder Público.

Paula Ramos

O disparador foi a venda, pela Prefeitura Municipal, da extinta Praça Porto Verde, no Jardim Algarve. Aos finais de semana, ali se reuniam dezenas de famílias e amigos para conversar, praticar esportes, tomar chimarrão. Com a comercialização do terreno, as árvores cederam lugar, primeiro, a um panorama de aniquilamento e miséria, com monturos e caules queimados; depois, à filial de uma igreja neopentecostal. Sentindo-se novamente violentado, Marcelo reivindicou pelas redes sociais − “Devolvam a Praça Porto Verde” − ao que a vizinhança respondeu, postando depoimentos sobre seus vínculos com o largo e condenando as atitudes dos governantes.
 
Certo dia, registrando fotograficamente a melancólica transformação do espaço, o artista deparou-se com um lírio agonizando em um bloco de barro estorricado. Poderia tê-lo deixado ali, como tantos vegetais revoltos na terra, mas resolveu levá-lo para casa e cuidar dele. À medida que a planta reverdecia, aflorava pacificamente e com o mesmo vigor, amalgamado, um pé de mamona. Em uma noite, ele foi à antiga praça e devolveu a dupla ao seu sítio; em torno, estruturou uma cerca feita com bambus e, na parede do edifício construído sobre tantas memórias, grafitou “praça”. Quanto tempo as plantas resistirão? A comunidade o dirá. Quantas praças resistirão? A comunidade igualmente o dirá. Há pouco tempo, outra área de lazer foi vendida e, no seu lugar, construído um depósito. Diante da inépcia e do descaso, Marcelo anuncia, por meio de cartazetes fixados em postes, muros e paradas de ônibus: “Procuram-se pessoas que gostem de Alvorada”.

Parque da Solidariedade, 2018; Impressão digital sobre papel_COMPLETO Parque da Solidariedade, 2018; Impressão digital sobre papel | Obra e foto: Marcelo Chardosim Chamando a atenção dos cidadãos para o que eles deixam de ter e poderiam, caso reivindicassem, o artista recentemente encetou a campanha “Parque da Solidariedade”, propondo a criação de uma grande área verde entre os bairros Aparecida, Jardim Algarve e Stella Maris, terreno usado para descarte de lixo doméstico. No material gráfico elaborado, aparece a sugestão de pistas para a prática de esportes e de vastos gramados, nos quais os frequentadores teriam a oportunidade, entre tantas, de sentar ao sol e conversar. Seria muito?
 
Documentando e denunciando. Conversando e mobilizando. Panfletando e intervindo. De modo pragmático ou poético, Marcelo Chardosim desenvolve seu trabalho arte-vida apostando nas atitudes do cotidiano, na educação emancipadora, nas coisas que estão ao nosso lado e pelas quais podemos e devemos lutar. Micropolítica é o caminho, e ele acredita que, com o seu trabalho e a sua resiliência, junto com tantas outras pessoas que pensam de modo semelhante, é possível reverter essa chave, construindo uma cidade mais igualitária e solidária, uma Alvorada em que se possa efetivamente viver. Eu também acredito.
 

Marcelo Chardosim
Marcelo Chardosim
 

Marcelo Chardosim

Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1989. Graduando em artes visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente desenvolve o projeto Abrigo do Sol em Alvorada (RS). Em 2017, participou da coletiva Salta d’água: dimensões críticas da paisagem, no Instituto de Artes da UFRGS. Em 2016, participou da residência colaborativa na Escola de Samba Unidos da Vila Isabel, em Viamão (RS). Participou do projeto Grude, com uma série de lambes distribuídos em todas as capitais do Brasil. Em 2015, participou do Programa Perdidos no Espaço Público, do III Encontro de Universidades e Cidades. Atuou em cinco exposições individuais e inúmeras coletivas entre as instituições Museu de Arqueologia e Etnografia de Santa Catarina, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS), Museu de Artes do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS), Usina do Gasômetro, Memorial dos Direitos Humanos do Mercosul, entre outras.


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