Acesso rápido:
Ir diretamente ao contéudo (Alt 1)Ir diretamente à navegação secundária (Alt 3)Ir diretamente à navegação principal (Alt 2)

Thomas Kilpper
Vestígios impressos da História

another world is necessary - or: don't think about the crisis - fight!. Thomas Kilpper, Xilogravura no chão do Vila Flores (impressão sobre lona crua), Porto Alegre, 2016. Direitos de imagem: VG-Bildkunst, Bonn e artista
another world is necessary - or: don't think about the crisis - fight!. Thomas Kilpper, Xilogravura no chão do Vila Flores (impressão sobre lona crua), Porto Alegre, 2016. Direitos de imagem: VG-Bildkunst, Bonn e artista | Direitos de imagem: VG-Bildkunst, Bonn e artista

De Ludwig Seyfarth

O compromisso contra todas as formas de opressão política marca a obra artística de Thomas Kilpper, sempre, reportando-se a um contexto local ou a um projeto. Um de seus principais meios de expressão são recortes de grande dimensão na substância encontrada – frequentemente os assoalhos – em residências geralmente vazias. Os motivos invariavelmente refletem a história e a função dos locais e baseiam-se em imagens veiculadas na mídia, que são justapostas ao modo de uma collage, resultando num panorama de pessoas e acontecimentos histórico ou politicamente significativos. Em termos de estilo, os trabalhos lembram as gravuras expressionistas e as propagandas comunistas dos anos 20 do último século.

A intervenção que causou maior sensação foi realizada em 2009, na antiga sede – à época, pertencente a Deutsche Bahn AG – do Ministério para a Segurança do Estado, o serviço de inteligência da Alemanha Oriental, em Berlim-Lichtenberg.  Nesse local, numa área de 800m2, Kilpper recortou, no chão de PVC, vários motivos que aludiam, de forma exemplar, à complexa história da vigilância de pessoas, isso sem que o modo de expressão em si implicasse uma valoração moral ou política. O assoalho serviu como uma matriz, da qual foram extraídas impressões em tecido ou em papel.

Em Porto Alegre, Thomas Kilpper adotou procedimento semelhante. A convite do Goethe-Institut, o artista permaneceu, em 2016, por 3 semanas, trabalhando no Vila Flores. Assim é denominado, desde 2011, o complexo de três prédios erguidos nos anos de 1920 e que serve desde então como centro cultural e local de trabalho para artistas e empresários da criação.

Em um dos cômodos, Kilpper usou o piso de parquete para uma xilogravura: another world is necessary - or: don’t think about the crisis – fight! O título é uma referência a "another world is possible", slogan do Fórum Social Mundial. A primeira edição desse fórum, lançado como contraponto aos encontros anuais dos "dominantes" –  o da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o do Fórum Econômico Mundial (FEM) em Davos –, realizou-se em 2001, em Porto Alegre.
another world is necessary - or: don't think about the crisis - fight!. Thomas Kilpper, Xilogravura no chão do Vila Flores (impressão sobre lona crua), Porto Alegre, 2016. Direitos de imagem: VG-Bildkunst, Bonn e artista another world is necessary - or: don't think about the crisis - fight!. Thomas Kilpper, Xilogravura no chão do Vila Flores (impressão sobre lona crua), Porto Alegre, 2016. Direitos de imagem: VG-Bildkunst, Bonn e artista | © VG-Bildkunst, Bonn e artista Que a cidade, a partir daí, tenha se tornado um lugar de referência para movimentos sociais de crítica ao capitalismo e à globalização é componente central de uma ampla investigação que Kilpper realizou no âmbito da cooperação com o aglomerado de pesquisa artística "Synsmaskinen". Synsmaskinen é conduzido por Frans Jacobi desde Bergen, na Noruega, onde Kilpper ocupa o cargo de professor visitante na Escola Superior de Artes. O nome do coletivo é formado pela tradução dinamarquesa do livro "La Machine de Vision" [A máquina de visão], de Paul Virilio (SYN=visão, MASKIN=máquina). Kilpper e Jacobi convidaram, para seu projeto em Porto Alegre, o coletivo artístico argentino etcetera, de Loreto Garin e Federico Zuckerfeld. Em conjunto com o Synsmaskinen, Garin e Zuckerfeld, organizaram um experimento "errorista": uma marcha pelo centro de Porto Alegre cujos participantes carregavam cartazes com os dizeres "UM OUTRO ERRO NÃO É POSSÍVEL”. Um desses cartazes assim como uma faixa com a inscrição "UM OUTRO MUNDO É NECESSÁRIO" podem ser vistos na xilogravura impressa em vermelho, verde e azul. Entre as diversas pessoas cujos rostos aparecem distribuídos sobre a superfície da gravura de forma emblemática, lembrando imagens filatélicas ampliadas, encontram-se o arquiteto do Vila Flores, José Lutzenberger, pai de um conhecido ativista ambiental de mesmo nome, e Lyndon B. Johnson, o presidente dos EUA quando ocorreu o golpe militar de 1964 no Brasil, que derrubou o presidente João Goulart, de posições de esquerda. Podemos distinguir também a esposa desse último, Maria Theresa, criada em Porto Alegre, assim como Paulo Freire, um dos mais conhecidos intelectuais do Brasil, que foi perseguido pelo governo militar devido à sua "pedagogia do oprimido" antes de ser forçado a emigrar, e também o escritor e diretor de teatro Augusto Boal, que, com seu "teatro do oprimido", protestava contra abusos políticos. Mas também o "lado oposto" está presente na xilogravura, por exemplo, Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro membro da ditadura militar a ser condenado por prática de tortura.

Essa memória das lutas políticas e culturais no Brasil e em Porto Alegre, baseada em cuidadosas investigações e recortada no piso do Vila Flores, transforma-se numa metáfora física e visual dos vestígios da história que se sobrepõem nesse lugar e, ao mesmo tempo, no retrato da esperança por um futuro melhor. 

 

Video wird geladen
© Pátio Vazio / Goethe-Institut Porto Alegre

Thomas Kilpper

Nasceu em Stuttgart, Alemanha, em 1956. Vive e trabalha em Berlim. Estudou Belas Artes nas Academias de Nuremberg, Dusseldorf e Frankfurt am Main (Städelschule). É conhecido internacionalmente por suas xilogravuras em grande escala e intervenções críticas. Suas obras estão em coleções púbicas, como a da Tate Gallery (Londres), do Museu de Arte Moderna (Frankfurt), da South London Gallery (Londres) e do Kupferstichkabinett (Berlim), entre outras. Desde 2014, é professor da Faculdade de Artes, Música e Design na Universidade de Bergen (Noruega). Alguns de seus projetos recentes incluem Contemporary Footprints, Museu Nacional Oslo (Noruega 2015), “Não pense na crise – lute!” (Porto Alegre, Brasil, 2016), “Um farol para Lampedusa!” (Paris, França), Dresden e Kassel (Alemanha, 2016-2017) e “Traços de guerra” na Pinakothek of Moderne (Munique, 2017).


VOLTAR PARA A PÁGINA INICIAL

 

Top