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Blog da Berlinale 2019
Personagens à margem

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar. Brasil, 2019. Direção: Marcelo Gomes. Berlinale Panorama. © Carnaval Filmes
Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar. Brasil, 2019. Direção: Marcelo Gomes. Berlinale Panorama. | © Carnaval Filmes

O curta-metragem Rise e o documentário em longa-metragem Estou me guardando para quando o carnaval chegar trazem às telas populações periféricas.

Concorrendo ao Urso de Ouro, o curta-metragem Rise, da dupla de artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, foi filmado em espaços subterrâneos da Comissão de Trânsito de Toronto (Canadá). Em túneis e longas escadas rolantes, artistas imigrantes de primeira e segunda geração trazem em suas músicas temas ligados à própria condição social. A arquitetura impessoal desses lugares de passagem, filmada de maneira geométrica, acaba por acentuar a sensação de deslocamento e não pertencimento. A dupla irá representar o Brasil na próxima Bienal de Veneza.

Neoliberalismo cruel

O diretor Marcelo Gomes volta à Berlinale com Estou me guardando para quando o carnaval chegar, seu primeiro documentário. O filme é narrado pelo próprio realizador, que é também personagem. Gomes volta ao agreste, local de origem de sua família, e por onde quando criança viajava com o pai. O que encontra em Toritama é uma cidade transformada em uma máquina de produzir jeans. Entre fábricas e facções (fábricas de fundo de quintal), não há espaço para nada mais além das jornadas de mais de 12 horas. A maior parte das pessoas trabalha como autônomo, recebendo por sua produção, sem direitos trabalhistas. Os entrevistados se dizem felizes por serem donos de seu próprio tempo, o seu maior sonho é ter sua própria facção.

Ao longo do filme, Gomes tenta se reencontrar com suas memórias e reage emocionalmente ao que mostra. Angustiado com a repetição e com o ruído constante, chega a cortar o som do filme, revelando também seus procedimentos narrativos. “Perguntei como eles queriam ser filmados. Eles disseram que não queriam parar de trabalhar enquanto falassem. E não param de trabalhar nunca, acham que, sendo donos de seu próprio tempo, terão liberdade. O que se vê é uma face muito cruel do neoliberalismo, em que as pessoas acabam sendo escravizadas por elas mesmas”, reflete o diretor.

O único momento de diversão é o carnaval, quando Toritama vira uma cidade fantasma, já que todos os moradores vão à praia. Para isso, chegam a vender seus pertences como forma de complementar a renda para poder viajar. Estou me guardando… é um retrato devastador sobre o papel e valor do dinheiro na sociedade contemporânea.

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