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Buenos Aires
Martín Kohan, escritor

Por Martín Kohan

Martín Kohan © Maria Teresa Slanzi

O que simboliza para você a situação atual em nível pessoal ou em seu país (objeto, momento do dia, metáfora, situação típica, imagem etc.)?

Há quase 40 anos que eu não passava um dia completo da minha vida dentro da minha casa, a não ser que estivesse doente (e, nesse caso, passava o dia na cama, e não na casa em geral). Porque uma casa não é um lugar em que me agrade estar; porque gosto de andar pela rua, parando em diferentes cafés, percorrendo lugares. A reclusão em casa me obrigou a inventar espaços onde estar, incluindo formas de estar com as quais eu não contava. Agora sinto falta de Buenos Aires. O que sinto, portanto, neste confinamento, se assemelha paradoxalmente ao que sinto quando estou viajando: sinto vontade de estar de novo em Buenos Aires (ainda que eu esteja em Buenos Aires). Mas quando dou uma saída para a rua, ou quando vou fazer alguma compra a curta distância, a cidade está vazia, quieta, sozinha, calada: a cidade está ausente também. Essa imagem, a da cidade sem ninguém, sem nem mesmo ela, é a que resume para mim a experiência destes dias. 

Quais são, na sua opinião, as consequências da crise em longo prazo (sociais, da sociedade civil, sistêmicas etc.)?

Não sei. Me parece que, se há algo com que hoje não contamos, ou com o que contamos menos do que nunca, é com um longo prazo. Em países como o nosso, onde quase tudo é precário e instável, estamos talvez mais habituados a manobrar com uma escala de futuro mais curta. Porém, com a pandemia, até isso se alterou: o curto se tornou curtíssimo. A margem de incerteza cresceu exponencialmente, assim como a propagação do vírus. Não sabemos o que vai se passar, nem mesmo em curto prazo, e esse não saber, creio, é definidor deste estado de suspensão. O que não se sabe, impera. A profunda necessidade de certezas (incluindo as mais modestas) nos coloca vez ou outra diante destas evidências: a de que estamos afundados no que não se sabe; a de que, quando falam os que mais sabem, e são sinceros, o que fazem é nos revelar o quanto ainda não sabem.

O que traz esperança a você?

Eu não disse que tenho esperança. Esperança de quê? De que haja uma cura para o coronavírus? A cura vai chegar, em algum momento. Eles vão encontrar a vacina. Esperanças de que quando, por fim, a descobrirem, funcione como uma solução para todos no mundo, e não como um negócio infame por parte dos laboratórios, especialistas na matéria? Não é uma esperança, diria mais que é uma reivindicação. Esperanças de que as coisas no mundo melhorem? Há laços de solidariedade social que se ativaram durante a pandemia; mas também foram ativados o receio, a hostilidade e uma notória paixão pela vigilância. Esperanças de que os sistemas de saúde pública, tão esvaziados e debilitados por vários governos no mundo, voltem a merecer os investimentos e o respaldo que há tempos lhes vêm sendo negados? Não é uma esperança, é uma exigência. A menos que definamos a exigência como uma esperança que se politiza.

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