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Palestra
A política de anti-negritude, música e arquivamento para vidas negras

Bonaventure Ndikung
Bonaventure Ndikung | © Taylla de Paula

Segunda-feira, 23 de abril, marca o início da “Ecos do Atlântico Sul”, conferência internacional do Goethe-Institut cujo objetivo nos próximos dias é analisar e traçar o impacto e legado do comércio escravo do Transatlântico nas mentes negras, experiências negras e realidades negras.
 

A palestra de abertura é ministrada por Lilia Schwarcz, historiadora e antropóloga brasileira que enfoca o império do Brasil e povos afro-brasileiros. A fala de Schwarcz intitulada “Uma história visual afro-atlântica” se concentra em um recontar visual da escravidão no Brasil e a política em camadas de representação, autonomia e supremacia branca presentes na arte dos séculos 18 e 19. O legado de vozes brancas falando sobre a dor negra não é novidade e uma dissonância é criada quando ecos do atlântico sul são vocalizados por uma voz branca em um país que nega os impactos estruturais e sociais do racismo anti-negro e mesmo assim onde você dificilmente vê rostos negros em posições de poder; seja no governo, arquivamento histórico ou programas de televisão convencionais. A sociedade de “caldeirão cultural” do Brasil, como mencionada por Schwarcz, torna conversas sobre racismo uma lição de dissonância cognitiva, mas também suplica pela questão sobre como e quem deve liderar as discussões sobre legados coloniais de uma maneira que aumenta a visibilidade para aqueles que foram mais afetados e cria um diálogo construtivo com aliados.

Lilia Schwarcz © Taylla de Paula Schwarcz faz referência aos trabalhos de François Auguste-Biard durante a sua apresentação e também fala sobre a semelhança das imagens a fantasmas, “ligados ao passado e ao presente”. Ela aponta as dinâmicas da Liberdade como vistas através de imagens onde pessoas negras imploram por Liberdade e como essas imagens criaram a narrativa que, para os negros, a liberdade veio como resultado da benevolência branca e não da dor, da morte e da insurgência negras. Suas imagens de negros escravizados são do passado, mas na época contemporânea, a supremacia e violência brancas ainda são parte comum das experiências vividas pelos negros. O ponto de conexão é feito por Mario Luis Junio, do Movimento Negro no Brasil, que cita dois incidentes isolados no Rio de Janeiro, onde jovens negros foram amarrados e brutalizados de forma semelhante às imagens de escravidão mostradas por Schwarcz. Ao concluir a sua fala, Schwarcz lembra o recente assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, e a brutalidade policial contra os negros, especialmente nas comunidades de favela. Schwarcz expressa o que parece ser um segredo aberto no Brasil, que “Marielle Franco foi morta pelo Estado.” Ao ouvir isso, gestos e murmúrios de concordância da plateia, um final sombrio para uma palestra sobre o legado visual do comércio escravo do século 18, que terminou no Brasil mas onde negros ainda são marginalizados.

Depois de um intervalo para café, Bonaventure Ndikung apresenta a sua palestra, “It is Dark and Damp on the Front-Treading the Sonic Path of Halim El-Dabh” (É Escuro e Úmido na Trilha Dianteira do Caminho Sônico de Halim El-Dabh), sobre os aspectos experimentais e invoadores da música africana. Ndikung, um curador e biotecnólogo camaronense, apresenta à audiência a música evocativa do compositor egípcio-americano Halim El-Dabh, mais conhecido pelas composições que criou para a renomada Martha Graham Dance Company. El-Dabh faleceu no final de 2017, aos 96 anos, e em sua fala, Ndikung revela o legado ainda desconhecido de um dos compositores mais talentosos do mundo. El-Dabh tinha uma propensão a ver a música em tudo, até nos sons das cores. Ele criou composições baseadas nas inspirações musicais que desenhou a partir de cores que, como diz, possuíam “alta frequência”. Não tão diferente da música. El-Dabh também foi inspirado pelo vazio do espaço, criando música para envolver e abranger dimensões físicas com uma presença assombrosa e perceptível. Segundo Ndikung, a música de El-Dabh viajou para a Europa e influenciou as criações do próprio continente. Em sua apresentação, Ndikung foca em reivindicação, ilustrando o legado de um criador (El-Dabh) que inspirou e continua a inspirar milhões com sua obra musical.

Nanette Snoep © Taylla de Paula Na palestra final, intitulada “Do Gabinete de curiosidades a um gabinete de histórias curiosas”, a antropóloga holandesa Nanette Snoep fala sobre a miríade de guardiões culturais antropólogos, criadores de museus e arqueólogos. Gente, que, segundo ela, pode respeitar e assegurar a segurança dos artefatos ou resíduos que existem e que fornecem um link tangível para civilizações e histórias do passado. Snoep enfatiza a necessidade dos museus de perseguirem um interesse por culturas não ocidentais de maneira que não perpetue outro tipo de curiosidade mas, em vez disso, destaque a importância cultural de tais histórias e uma escala global. Ela toca no fato de que a relação entre os colonizadores e colonizados afeta enormemente a forma como narrativas históricas são compartilhadas e entendidas. Por outro lado, as complicações do neo-colonialismo, eurocentrismo e racismo não são verdadeiramente enfatizadas como razões lógicas porque tal diálogo cultural é intensamente sensível, com interseções políticas e ramificações que afetam como a história é criada ou manipulada. A fala termina com uma sessão de perguntas e respostas, em que a maioria das perguntas tem como foco o racismo europeu tornar difícil para culturas não-européias se envolver ou até mesmo confiar na coleta de dados culturais por instituições europeias. Uma ênfase especial é dada aos comentários feitos pelo presidente da França, Emmanuel Macron, que recentemente fez uma promessa de devolver a arte negra africana saqueada dos países de origem para os museus franceses.

Por Tari Ngangura

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