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Palestra
Bonaventure Ndikung abre a paleta de cores e de sons de Halim El-Dabh

Bonaventure Ndikung
Bonaventure Ndikung | © Taylla de Paula

Com o tema “It is Dark and Damp on the Front - Treading the Sonic Path of Halim El-Dabh” (“Está Escuro e Úmido no Fronte - Trilhando o Caminho Sonoro de Halim El-Dabh”), o curador camaronense Bonaventure Ndikung lançou luzes - e sons - sobre o legado de El-Dabh, compositor, etnomusicologista e pan-africanista de origem egípcia que, por mais de 70 anos, colecionou referências sonoras das diversas culturas do continente africano e as arranjou em um repertório experimental, que viria também a influenciar o que conhecemos hoje por música eletrônica

Música é cor, movimento e vibração

A infância de El-Dabh no campo, ainda no Egito, é apontada por Ndikung como o terreno fértil para a sua curiosidade sobre os ritmos originais e suas diferentes reverberações. Foi na fazenda que El-Dabh criou suas primeiras composições, “pesticidas musicais para afastar os insetos da colheita”, como conta o curador. Ao contrário de musicólogos que realizam pesquisas em laboratório, Ndikung ressalta o repertório de alegorias, mitos e a cosmogonia africana nos quais El-Dabh buscou os sons e ruídos que são a base de sua investigação e  experimentação sonora.

Foi durante as incursões pela África que El-Dabh entrou em contato com diversas manifestações culturais - muitas de fundo místico, como rituais de cura e de exorcismo - que subsidiaram o seu trabalho de pesquisa e de interpretação da tradição sonora em uma linguagem contemporânea. Segundo Ndikung, a percepção de El-Dabh da música passa pelas vibrações dos gestos e movimentos do corpo, na relação sensível entre cores e sons, não apenas naquilo que é audível, mas também no que pode ser sentido de forma sinestésica por meio de variadas formas de frequências. “Para El-Dabh, a música é o que conecta o homem com seu interior, com quem ele é. A música não é o que se ouve, mas o que o corpo pode experienciar”, ressalta Ndikung.
 

A passagem de El-Dabh pela capital africana da América do Sul

Ndikung conta sobre a passagem de El-Dabh por Salvador e seu contato com a música presente nos cultos de matriz africana, como o candomblé: “El-Dabh ficou surpreso com a energia da Terra, que fazia aquelas pessoas girarem sem cair. Se encantou com o uso dos trombones, com os orixás e com a figura de Ogum e seus metais”.
 

Tradição, experimentalismo e vanguarda

Em uma fala permeada pela audição de composições de El-Dabh criadas ao longo da sua trajetória, fica claro - ou melhor, audível - o caráter inovador das manipulações sonoras que produzidas em meados do século 20. De fato, El-Dabh foi um dos primeiros musicólogos a se utilizar de equipamentos eletrônicos e de suportes recentes à época - como a fita magnética - para produzir novas configurações sonoras a partir de sons improváveis, como ruídos brancos, reverberações, ecos e diversos instrumentos.

É durante a audição de Leiyla and the Poet, registrada em 1964 no álbum The Columbia-Princeton Electronic Music Center, que se percebem os elementos que hoje caracterizam em parte o que entendemos por música eletrônica. Embora El-Dabh tenha canalizado uma sonoridade que ultrapassava o mero registro da música tradicional para uma manifestação sonora contemporânea calcada também nas possibilidades advindas das tecnologias de gravação que despontavam na época, Ndikung adverte para a armadilha de resumir esse trabalho como o precursor da música eletrônica: “El-Dabh era um investigador, um colecionador que trabalhou tanto e não pode ser visto como mais um”.

O trabalho de pesquisa e curadoria de Ndikung propõe situar o legado de El-Dabh numa nova genealogia da história da arte do som, que dê não só a El-Dabh, mas também à produção musical do continente africano, seu devido lugar e relevância. “O que El-Dabh propunha é trazer a música eletrônica de volta à África, à sua origem. Vocês podem não ter entendido a sua canção, mas podem sentir sua história nos seus corpos. É aí que estão os espíritos e os conhecimentos que buscamos”, resume Ndikung.

A empreitada, porém, não é fácil: “O arquivo do trabalho de El-Dabh é praticamente inexistente, é muito difícil ainda conseguir reunir todo esse material. Nós estamos escavando como cães loucos”, brinca Ndikung, numa referência ao álbum The Dog Done Gone Deaf, obra de El-Dabh lançada em 2009 e que serviu de referência para o trabalho apresentado por Ndikung na conferência Echoes of the South Atlantic.
 

ASPAS

  • “El-Dabh queria materializar e expressar a energia, a vibração e a frequência que vêm das cores”.
  • “El-Dabh trabalhava de forma sofisticada as alegorias, mitos e a cosmogonia africana. Ele disseminou o som e propôs uma epistemologia”.
  • “A questão que ele propunha era: ‘como trazer para a música a história e a filosofia?’. Ele cogitou um legado do som e da arte africana moderna e contemporânea”.
  • “El-Dabh implementou nas suas canções lendas, ficções e meias verdades, que são muito importantes para a sociedade humana, no que diz respeito às suas origens, sejam de objetos animados, sejam inanimados”.
  • “El-Dabh acreditava que todos os sons do mundo são baseados em um único tom original, um tipo de ‘ovo fertilizado’”
Por Cadu Oliveira

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