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Painel 2
O OLHAR EUROPEU, DIVERSIDADE DAS EXPERIÊNCIAS NEGRAS, GAYFICAÇÃO E NEGRITUDE NO URUGUAI

Em debate: a distorção da África pelas lentes européias, a criação de artistas africanos, questões de etnografia e exploração e o “branqueamento” da sociedade uruguaia
Em debate: a distorção da África pelas lentes européias, a criação de artistas africanos, questões de etnografia e exploração e o “branqueamento” da sociedade uruguaia | © Taylla de Paula

“MEU SABER É NÃO-ACADÊMICO, NÃO-PESQUISA E NÃO-CONCEITUAL. EU ACREDITO NO SABER QUE VEM DOS SEUS TECIDOS.” — KOYO KOUoH

No painel apresentando Felipe Arocena, Koyo Kouoh, Diedrich Diedrichsen e Ute Fendler, as conversas acontecem em formato orgânico e estrutura bastante maleável

A artista Koyo Kouoh começa a conversa refletindo sobre dois pontos da apresentação inaugural que chamam sua atenção: as imagens da escravidão, na palestra de Schwarcz e o Gabinete de Curiosidades, de Snoep. Kouh fala sobre amnésia em relação ao discurso de Schwarcz, dizendo que “por mais que ela (Schwarcz) não tenha realmente falado isso, existe uma amnésia quando falamos sobre a escravidão e seu impacto”.  A artista também discorda de Snoep sobre o problema com os museus na Europa, mais notavelmente na Alemanha e na França, estar enraizado na política dos países e não nos museus em si. Kouh acredita no oposto. “O fogo que museus etnográficos europeus estão encarando agora – e devidamente – é porque essas instituições são responsáveis pelas falhas em colaborações com países não-europeus.”

Única mulher negra no painel, Kouoh compartilha sentimentos de alegria e uma empolgação inexplicável pelo fato de estar de volta à Bahia, lugar onde já esteve várias vezes e onde sempre se sente em casa. “Eu sinto uma intimidade com pessoas negras no mundo inteiro e o que nos conecta é gigantesco. Eu não sei onde começar e terminar”. Kouoh aborda a resiliência contínua das pessoas negras, apesar de séculos de opressão e fala de como essa força moldou as maneiras nas quais pessoas negras existem no mundo inteiro. “Depois da dor e dos horrores que suportamos, nós ainda temos a habilidade constante de nos recriar e de ser completamente resistentes ao genocídio e de nos levantar repetidas vezes.” A artista fala da distorção do continente africano através da lente branca européia, do fetichismo da herança africana e de como isso posicionou o continente num pessimismo econômico que afetou as vidas e mentes de pessoas negras africanas.

Já a pesquisadora e professora alemã Ute Fendler articula diferentes maneiras nas quais artistas africanos têm criado histórias que abordam realidades variadas. Ela ressalta os trabalhos de cineastas franceses, Guy Deslauriers e Diana Gaye, assim como os escritos da autora guatemalteca Maryse Conde. A diversidade de experiências e a ausência de uma única história negra são o foco de sua apresentação.

A partir do segmento de Fendler sobre as variadas realidades negras, o crítico cultural e autor alemão Diedrich Diedrichsen direciona a conversa ao que ele chama de “a duvidosa e problemática criação européia do aventureiro e as problemáticas tradições européias de etnografia e exploração”. Para ilustrar esses pontos, Diedrichsen usa a vida e trabalho do autor alemão Hubert Ficthe (1935-1986), que passou grande parte da vida existindo em um estado dicotômico de pesquisador iluminado sendo um escritor eurocêntrico. Diedrichsen fala sobre o desejo de Fichte de criar uma “gayficação do mundo, trazendo ternura e erotismo”.

O painel termina com o sociólogo Felipe Arocena sobressaltando o legado do “branqueamento de raça” no Uruguai, onde imigrantes não-negros foram levados ao país depois do fim do tráfico transatlântico de escravos para resultar na “diluição da raça negra.” De acordo com Arocena, um em cada dez uruguaios hoje se identificam como sendo afro-descendentes.

Depois de atrasar, o painel termina com poucas perguntas, mas com um entendimento maior de como experiências da negritude no mundo inteiro ainda são predominantemente observadas do ponto de vista da escravidão e da opressão. Uma representação angustiantemente branca e eurocêntrica.

Por Tari Ngangura

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