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Palestra
​Por um armário com muitas histórias curiosas

Nanette Snoep
Nanette Snoep | © Taylla de Paula

Lidar com acervos caracterizados pela invisibilidade e marcados pela violência é uma das principais inquietações no trabalho da curadora holandesa Nanette Snoep, que dirige três museus etnográficos na Saxônia (Alemanha). 

Narrativas apagadas 

 Ao apresentar caminhos expográficos para milhares de objetos que estão na Europa e não em seus continentes de origem, como África e América do Sul, Snoep dialoga com a complexidade de materiais perdidos na história. Angariados por uma elite ocidental em expansão, esses objetos derivam de mutilações sociais, separados de significados e reduzidos de vivacidade. “Eles foram armazenados para apresentar culturas em caixas de vidro e em categorias coloniais. Muitas vezes, esses são objetos criados por mãos escravizadas”.

Papel colonial

 Ainda perpassados pelo controle, regulamentação ou colonialidade, os acervos dirigidos por Snoep convivem com a ideia dos “estrangeiros intangíveis”. Sejam as dezenas de exemplares de bronze do Benim ou os diversos artefatos vindos da Nigéria, a curadora pergunta: "Como contar narrativas que foram apagadas e tentar dar mais vida a esses objetos?". O século 21, segundo ela, representa um campo minado político. Os conceitos absorvidos ao longo da história, sobre a ideia de museu etnogtráfico, não conseguem mais dar conta do atual contexto geopolítico, com circulação de pessoas, objetos e ideias. Por isso, está posto o desafio de atender às demandas e expectativas de diferentes expressões culturais.  

Museu do caos

Como repensar a história e colocar o Atlântico Sul como norteador de outras narrativas, integradas ao espaço do museu? Na sugestão de Nanette Snoep, o caminho é por meio de um trabalho participativo entre pensadores, técnicos, criadores, artistas, público e curadores para que as referências nas concepções expográficas mudem de foco. “Pouco a pouco, vamos perder a autoridade. Novas histórias e pensamentos vão mudar o processo”. Assim, esse "museu do caos" deverá lidar com práticas cruzadas: de conservação, conversação e experimentação. "É preciso borrar tudo aquilo que define a ideia de museu, criando uma zona de contato". Nanette Snoep propõe um labirinto de pensamentos, com fluidez e flexibilidade. A narrativa de cacofonia deve ser o princípio de uma estrutura mais próxima do prólogo, que construirá um gabinete de histórias curiosas. "Tentamos integrar histórias pessoais no acervo do museu, sem impedir a criação de um conteúdo permanente".
 
“Rematriar” objetos
 
Nas trocas entre plateia e palestrante, o desafio de lidar criticamente com coleções ganhou novas abordagens, sugeridas pela noção de "rematriar objetos". Esse seria um movimento de devolução daquilo que foi roubado às suas matrizes pela necessidade de fazer circular as histórias dessas pessoas anônimas. Como apontou Bonaventure Ndikung, os humanos têm sido constantemente objetificados. "Como é possível subjetivar esses materiais? São sujeitos com origem e complexidade subjetiva. Os museus não podem mais se dar ao luxo de apresentar acervos que não sejam formados por pessoas", apontou. Nanette contextualizou questões de ordem político-institucional dos países europeus, responsáveis por impedir que esses objetos circulem e contem suas histórias. "Há algumas dificuldades em falarmos, por exemplo, sobre as guerras coloniais. É por isso que, como diretora, não posso simplesmente devolvê-los ao seu lugar de origem, mas acredito que o primeiro passo diz respeito à inclusão das narrativas desses sujeitos”.

por Luis Fernando Lisboa

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