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Painel 3
UM DEBATE SOBRE O PENSAMENTO E AFRICANIDADES NO ATLÂNTICO SUL

Em debate: a naturalização da escravidão, a força da ancestralidade, a música congolesa, a renovação da arte negra em São Paulo e o mito da democracia racial
Em debate: a naturalização da escravidão, a força da ancestralidade, a música congolesa, a renovação da arte negra em São Paulo e o mito da democracia racial | © Taylla de Paula

Cinco convidados de diferentes campos aceitaram o desafio de discutir sobre seus trabalhos sem eixos temáticos previamente estabelecidos. Ao final, chegam ao tema do painel: “Escavações e Histórias Reparatórias no Atlântico Sul”.

ASLIGUL BERKTAY

A historiadora de origem turca aborda o tráfico de africanos escravizados entre as nações do Atlântico Sul. “Quando nós olhamos para esse eixo Sul, não conseguimos ver o todo. É preciso, por exemplo, distinguir a África e a diáspora africana”, pondera. Berktay pontua que, diante da grande quantidade de africanos que foram escravizados no sistema de exploração das Américas, a escravidão foi naturalizada - não apenas no continente americano, como também nos territórios africanos. “Era mais fácil obter escravos do que qualquer mercadoria”, resume. A historiadora afirma que, com o aprimoramento tecnológico e o colapso das populações locais, as diferenças identitárias entre colonizador e escravizado eram muito marcadas e definidas. Nesse processo, “o Transatlântico se tornou marginal em relação ao crescimento das Américas”, defende.
 
Berkay explica que ainda hoje, um século e meio depois do ápice do tráfico de escravos, em tempos de muita discussão sobre direitos humanos, “não existe contrapartida para a escravidão. A preocupação atual dos direitos humanos colide com o passado”. A historiadora traz ao debate o tema da migração e a ascensão da extrema direita, a que chama de “perigo iminente”, especialmente na Europa, e lança a questão: “Temos muito a aprender e a definir quem são as pessoas pertencentes e quais não são. Quem são ‘eles’? Quem são ‘os outros’?”. E finaliza: “Nossa relação deveria ser igualitária. Precisamos lembrar dessa história no cotidiano das nossas vidas”.
 

JUAN ANGOLA MACONDE

O economista e historiador autodidata centra sua fala na potencialidade da memória e da ancestralidade: “Nós temos o desafio de aprender com a história contada pelos nossos antepassados”, defende. O lugar de observação e o lugar de fala são pontos igualmente importantes para o historiador: “É preciso pensar na história e observá-la também de fora para dentro, mas com nossa própria voz, dentro de casa”. Ainda sobre ancestralidade e tradição oral, o boliviano defende que a África Ocidental deve buscar a convergência e que todos os povos afrodescendentes precisam se reconhecer em todos os lugares. “A raiz fala por si só. Cada um tem uma história para contar. Não precisamos demorar em reconhecer isso e uns aos outros”, afirma.
 
Apontando para a importância da história africana e da tradição oral, Maconde finaliza falando da troca e da cultura como elemento importante da identidade africana, “não apenas a música”, frisa. Sobre a potencialidade dessa identidade, conclui que “a história africana já ganhou uma voz, uma tradição oral e familiar vinda da memória coletiva de todos os nossos ancestrais africanos”.
 

PATRICK MUDEKEREZA

O escritor e produtor cultural congolês aborda a expansão da música do Congo e de outros países do continente africano, principalmente na América Latina, e o papel da Europa nesse eixo de difusão: “A Europa tem um ponto importante, talvez por conta da ressonância do poder da escravidão. A música do Congo que é produzida na Colômbia, por exemplo, é feita via França ou Bélgica.
 
Ao mapear onde os diferentes ritmos congoleses e africanos se estendem nos países latino-americanos, Mudekereza destaca a música como importante instrumento de integração: “Como ouvi na fala de Bonaventure Ndikung, por meio dos sons as conexões podem ser feitas. Nós podemos ver como a arte colaborativa se tornou importante na América Latina e na Ásia, por exemplo”. Sobre a potencialidade da música africana além das fronteiras do continente, Mudekereza destaca, por fim, que “quando ouvimos a música, podemos sentir algo de novo que foi perdido, na presença do corpo e das diferentes formas de tocar, sentir e até cheirar. O Congo ficou dentro do núcleo da escravidão. A música congolesa tornou isso tangível”, conclui.
 

FERNANDO OLIVA

O curador do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP) destaca o processo de renovação do departamento de curadoria do museu, que resultou na descoberta de artistas esquecidos ou pouco conhecidos, a exemplo de Maria Auxiliadora da Silva, pintora autodidata mineira que esteve em atividade por apenas sete anos, entre 1967 e 1974. Afrodescendente, Maria Auxiliadora explorava em suas pinturas elementos da cultura afro-brasileira como a capoeira, o samba e o Candomblé. Oliva explica que, em um cenário dominado por pintores e pintoras brancos de ascendência e tradição europeia, a arte de Maria Auxiliadora foi tachada de “primitiva, popular, diferenciada” ou ainda de “repetitiva e sem novidade”. O curador frisa, no entanto, que a pintora resistiu às categorizações e não se apresentava como artista popular ou ingênua, mas apenas como artista.
 
“O trabalho de Maria Auxiliadora era a materialização da expressão pessoal da mulher negra”, define Oliva. “Ela tinha fé no seu próprio estilo, passou por uma rejeição que lhe causou um certo desapontamento e mesmo no leito de morte colocou sua dor na sua arte”, conclui, referindo-se às pinturas em que a própria artista se retrata nos últimos dias de vida, antes de ser vitimada por um câncer. 

CIRAJ RASSOOL

O historiador e curador sul-africano inicia sua fala com provocações: “O que é raça? E criolização e miscigenação? É verdade essa ideia de que o Brasil é uma democracia racial?”. Ao apontar semelhanças culturais entre Cidade do Cabo e Salvador, Rassool destaca que em ambos os lugares houve “camadas diferentes de colonialismo com formas distintas de maquiagem”. Sobre políticas de reparação, Rassool cita que nas universidades estadunidenses já há certa compreensão de que “há sangue dos escravizados nas suas roupas”.
 
Sobre o papel dos museus, Rassool defende que sua função “não é apenas cuidar das coleções, mas também de mobilizar e realizar parcerias entre si”. “Qual a diferença entre herança e patrimônio? O que temos de museologia na África do Sul e na América do Sul?”, questiona. Para o curador, é preciso superar o idealismo e buscar novas formas de pensar a escravidão e mudar o raciocínio sobre ela. “Na história afro-brasileira, por exemplo, precisamos utilizar a herança quilombola como meio de proteção. Como falar da história da escravidão de dentro para fora? Quem está contando essa história?”, conclui.

Por Cadu Oliveira

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